UM ESPAÇO PARA MANIFESTAÇÕES

5 de abril de 2015 por keyimaguirejunior

(Crônica publicada originalmente no Diarinho de Itajaí em  18/03/2015 e adaptada para o Keynews)

Praça Tiradentes

         Vamos supor – apenas supor – que você está tão indignado com alguma coisa que quer convocar uns quantos milhares de tão insatisfeitos quanto você, para dizerem isso e, através da mídia, chegar aos ouvidos dos responsáveis. No caso, não interessa do quê onde de quem você não gosta – todos sabemos que nossas cidades, estados e o país são brilhantemente conduzidos e administrados por uma classe política proba, íntegra e competente, e não há do quê reclamar. Mas você insiste em se fazer ouvir, e tem como convocar uma multidão de chatos reivindicantes para reclamar.

Então, surge o problema: onde marcar a manifestação?

Um dos pais fundadores da arquitetura e do urbanismo modernistas, um tal de Le Corbusier, projetou obras primas – como a igreja de Notre Dâme du Haut, em Ronchamp – mas também preconizou insanidades como a Ville Radieuse, na qual levou a extremos odiosos as idéias de Fourier e seus falanstérios. Nela, os humanos deveriam ser confinados em espaços que mal comportavam seus movimentos – o que seria bom castigo, por terem feito, e continuarem fazendo, isso com os animais, durante milênios.

Mas, enfim eles que são gauleses que se entendam – mas Le Corbusier era a iminência parda dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna – CIAM – e redigiu as conclusões da Carta de Atenas, que tinham a impostação de cartilhas para a arquitetura e o urbanismo a serem feitos dali em diante.

Centro Cívico

Um dos pontos básicos dos CIAM era a necessidade de que a cidade modernista tivesse um “core” (do italiano “cuore”), – o lugar onde tudo acontece, o centro efetivo da cidade. Em Curitiba, em que pese a existência do espaço proposto para tal, no Centro Cívico, tudo sempre aconteceu na Praça Santos Andrade, diante da UFPR. Basta lembrar que aí começa o movimento das “Diretas já” em 1984.

Mas fora os desfiles escolares, a Praça NS de Salete só agora começa a ser usada como espaço das concentrações cívicas – mesmo porque, a área livre proposta foi apropriada para estacionamento dos burocratas.

Então, mesmo que a tua cidade não seja Curitiba, onde marcar uma manifestação, contra ou a favor de alguma coisa?

Minha primeira sugestão,seria um estádio de futebol, que é feito prá agüentar o tranco de violência das torcidas. A brilhante copa do mundo do ano passado nos deixou como herança, além de uma baita crise, uns monstrengos que não servem prá nada, a não ser atravancar as cidades. Mas, pensando bem, não é um bom lugar: é fechado, controlado, fácil de neutralizar. A “coisa” fica, num certo sentido, contida e estática, não representa o que os reclamados mais temem: o movimento dinâmico, a ameaça.

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Resta então, praça ou rua. A grande praça, num certo sentido, é um ótimo espaço – tem lugar prá muita gente e, se for a do Paço do Conselho ou do Cabildo, diante das autoridades, melhor ainda: vai incomodar nas solenes tramóias que estarão sendo perpetradas. Dá também prá acampar e vencer pelo cansaço. A facilidade de acesso e retirada também recomenda. Mas, igualmente, não comporta o movimento – ou idéia dele – e fica tudo limitado à presença do teu bando de chatos, porque só pode ser um mala prá reclamar da situação idílica em que vivemos.

Ficaram então as alternativas da rua e da avenidona. Esta, só é recomendada se o teu poder de convocação é realmente capaz de encher uma via muito larga – senão, há o risco do som da gritaria e das panelas se perder, esvaziando o protesto. Sem contar que as imagens da mídia – não esqueça que ela está do lado deles – vai ser decepcionante, denunciando que está todo mundo feliz e satisfeito – principalmente os reclamados. Os pequenos problemas que te afligem não são suficientes para tirar as pessoas de casa.

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Sobrou a rua – aquela rua tradicional da cidade, onde antes havia desfiles escolares na Semana da Pátria, carnaval e passeatas em geral. Todos conhecem e freqüentam sempre, provavelmente ela dará, nas imagens, uma impressão favorável aos teus torpes desígnios – de muita gente, e os teus reclamantes se sentirão como povo, como multidão, com a segurança dada pelo coletivo.

Essas divagações são motivadas pelo tema dessas crônicas – a vida urbana – e são absolutamente desnecessárias, é claro. Você e todos nós vivemos na melhor das situações, não há porque ir à rua protestar: nossas cidades são pérolas urbanísticas; nossos Estados providenciam estruturas eficientes e suficientes; e o país nem se fala: nossos líderes representam nossos ideais cívicos e as idéias de uma sociedade equilibrada, justa e feliz.

Foto 1: congresso integralista na década de trinta, na Praça Tiradentes. Acervo Gerda Metzenthin.

Foto 2: Estudantes de Arquitetura e Urbanismo da UFPR protestam contra a transformação do espaço previsto para manifestações, no Centro Cívico, em estacionamento.

Foto 3: Rua XV de Novembro, palco de desfiles escolares e militares, passeatas e outras manifestações, até aproximadamente a década de cinquenta.

Foto 4: Escadaria da UFPR para a Praça Santos Andrade: todos sabem onde é , tem espaço razoável e quase tudo começa aí.

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