ESTORVO

3 de abril de 2015 por keyimaguirejunior

(Crônica originalmente publicada no “Diarinho” de Itajaí em  25/03/20015)

T.Tulio 2013

A palavra está meio em desuso, mas deveria ser resgatada: é daquelas que, mesmo quem nunca tinha escutado antes, entende o significado…

O que mais tem na nossa vida urbana, é estorvo – sem eles, seria tudo mais fácil, mais simples. Veículos grandes demais ou mal estacionados em local inadequado; gente que obstrui escada passagem ou porta, lixo e coisas amontoadas e abandonadas nas calçadas, equipamentos como pontos de ônibus e taxis mal dimensionados e mal colocados, out-doors que fecham o visual…

No entanto, às vezes é preciso discernimento para identificar quem – ou o quê – é o estorvo. Temos autoridades urbanas capazes de considerar uma árvore ou uma construção histórica como um estorvo: quando isso acontecer, não tenha dúvidas: o estorvo é a tal autoridade…

Um dos melhores exemplos nacionais de estorvo que conheço, é a Usina Nuclear de Angra. Deve ter sido constituída uma comissão de alto nível – nível salarial, entenda-se – que pesquisou durante anos para dar seu parecer. Chegaram à conclusão: “a praia mais bonita do litoral brasileiro é essa. Bota aí a insanidade nuclear.” Lá está, aguardando seu dia de Chernobyl ou de Fukushima.

Os empreiteiros de nossas prefeituras têm PhD em Estorvamento Urbano: obras que se estendem no espaço e no tempo, atormentando a vida dos cidadãos com buracos, lama e barulho. Recebi recentemente um filme sobre uma obra no Japão, numa rua onde havia vazamento de água. Aquilo não é obra, é cirurgia: limpa, exata, rápida, nada de desperdício ou desconforto para os pedestres. Os senhores dirão: “ah, mas lá é outro país!” Lamento contradizê-los, mas aqui é outro país, lá as coisas são, apenas e simplesmente, certas.

Mas minha idéia de estorvo nunca é tão desconfortável como quando tento fotografar ou apreciar um monumento, arquitetura ou logradouro de uma cidade: sempre tem estorvo. Talvez um carro vermelho flamejante parado em frente, talvez um ônibus de turismo, talvez um palanque para showmício. Com certeza, o que sempre vai haver, é fiação: dezenas de cabos (ouço dizer que alguns, desativados, inúteis) de poste em poste, uma rede estendida sobre as calçadas, às vezes com uma ponta abandonada chegando ao chão, ao alcance de mãos imprudentes. Nos postes, além da convergência de fios, há transformadores, luminárias, caixas colocadas pelas concessionárias das redes lógicas – formando monstruosos estorvos urbanos. Não são apenas obstáculos visuais – são dessas coisas às quais nos acostumamos e achamos inevitáveis, e tornam nossas cidades feias podendo ser evitadas.

Acho que as concessionárias de eletricidade têm grupos especializados nisso: como no caso de Angra, procuram atentamente e determinam: aqui, um poste de luz bem medonho, bem cheio de troços pendurados, vai dar um excelente estorvo.

Aliás temos outro estorvo surgindo em nossas cidades: as torres de telefonia. Já há indícios de que, em breve, serão um dos mais prestigiosos e inatingíveis estorvos urbanos.

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Foto 1: Casa à Rua Toaldo Túlio, testemunho da imigração italiana, em Curitiba

Foto 2: Igreja Matriz de Antonina, Paraná

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