RUA DAS CASAS, NÚMERO DAS PORTAS

2 de abril de 2015 por keyimaguirejunior

(Crônica publicada originalmente no “Diarinho” de Itajaí, em 25 de novembro de 2014)

Um amigo, em viagem pela Europa, procurava por certo endereço numa antiga cidade, com centro histórico medieval. Depois de se debater um pouco, arrenegou-se com a falta de referência segura e reclamou ao informante:
– Mas por que vocês não colocam placas com os nomes das ruas?
Resposta fleumática do nativo:
_ Prá que? Faz 400 anos que a rua tem esse nome, todo mundo conhece…
Dou razão ao nativo: uma cidade se organiza para os moradores, não para viajantes. O que não significa que, com todo o peso que têm na economia contemporânea, não se devam fazer concessões a eles.
Nos acostumamos com o cartesianismo elementar, tipo “ordenada e abcissa”, rua e número que, em princípio devem ser suficientes para se achar qualquer endereço.  Em Brasília, funciona assim – sem referência numérica, naquelas infindáveis “asas”, nominadas com letras e números, não se acha coisa alguma – e, como compensação, com essa referência e com um mapa se acha tudo. “SQS 410 – BK – A 205” é um endereço, que se localiza num mapa da cidade com facilidade. De inhapa, vem a localização segundo pontos cardeais.

100_4235

Na Sereníssima República de Veneza, as ruas têm nome a partir de características, nomes ou usos já inexistentes – mas que contam histórias da cidade. Os venezianos se orgulham dos “nizioleti” (lencinhos) que falam de coisas freqüentemente escabrosas – mas que são referências permanentes: Via dei Meloni, Via Scoazzera (dos detritos), Via della Donna Onesta (!!!), Via dei Squartai (esquartejados), Via dei Mendicanti… Evidente, são referências já desvinculadas das situações medievais que as originaram. Mas contam a história, e são mantidos, sejam os nomes das ruas, sejam as placas, conservadas como documentos. Outras cidades italianas seguem essa tradição.

PERUGIA0001

 Nos tempos coloniais e imperiais, a principal rua de uma cidade era a Rua do Imperador e, sua primeira paralela, a Rua da Imperatriz. Republicanizado o país, uma virou Rua XV de Novembro e a outra, Rua Marechal Deodoro.     Entendo que o crescimento das cidades torna obsoleta a tradição dos nomes históricos, que em nada ajudam o morador ou o visitante a se localizar. O sistema brasiliense é bem mais racional: qualquer pessoa, conhecendo o sistema, se orienta com facilidade.

 Nada contra e tudo a favor das homenagens históricas – mas essas podem ser feitas de outra maneira, com placas nas casas e construções, hermas e monumentos nas praças e parques, salas e casas inteiras. Uma bonita tradição era plantar numa praça, uma árvore nativa, com uma placa ao lado, explicando a homenagem. Mas com a atual situação das cidades brasileiras, refens nas mãos de pixadores e vândalos, fica transitório o que deveria ser permanente.
Nas nossas cidades, acontece com freqüência relativa que o novo nome não pega – o antigo era tão forte que continua em uso: rua do Rio, rua da Praia, rua das Tropas… são sempre melhores que as homenagens a personagens ou datas irrelevantes.
Na maioria das nossas cidades, se se perguntar a um habitante – ainda que nativo – quem é o personagem que essa rua supostamente eterniza, ou a que evento se refere essa data – ele não saberá explicar. Nem nunca vai se incomodar de procurar saber.

De minha parte, prefiro sempre as referências, funcionais ou geográficas: a “Rua Direita” (vai dar direto na Praça da Matriz); o “Largo da Matriz”, a rua da Fonte (ou da Carioca), que não tem mais fonte alguma, mas já teve – e isso sim importa à compreensão da cidade.

??????????

LEITURAS

CORA CORALINA. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Goiania, UFG, 1977.

– FERNANDES, L.Xavier. Topónimos e gentílicos. Porto, Edit.Educ. Nacional, 1941.

– HOERNER Jr, Valério. Ruas e histórias de Curitiba. Curitiba, Artes & Textos, 1989.

– LACERDA, Maria Thereza. Passeando pelas ruas da Lapa na década de vinte. Lapa, Casa Lacerda, 1997.

– LEITE NESI, Jeanne Fonseca. Caminhos de Natal. Natal, IHGRN, 1997.

– NICOLAS, Maria. Alma das ruas. Curitiba, Imprensa Oficial, 1969. 5 volumes.

– PIFFARERIO, Paolo & ZANOTTO, Piero. I Nizioleti raccontano. Venezia, Il Gazzetino, 2012.

DSC_0065

FOTOS:

– NS SALETE, CENTRO CÍVICO DE CURITIBA

– VIA DEI GATTI EM PERUGIA, FOTO DA MARIALBA, 2006

– MARCO ZERO DE CURITIBA, PRAÇA TIRADENTES

– “RIO DO PINHÃO”, MEMORIAL DOS 300 ANOS DE CURITIBA

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: