O COMÉRCIO ANTIGO

19 de março de 2015 por keyimaguirejunior

(Crônica publicada no “Diarinho” de Itajaí, edição de 10 de março de 2015)

Nas nossas antigas cidades, durante o período colonial, o abastecimento das famílias se fazia nas feiras. Estas aconteciam no Largo da Matriz – com o nome que este logradouro tivesse, essa era a sua identidade – em dias certos da semana. Portanto, as feiras são uma tradição secular em nossas cidades, e continuam uma instituição simpática e funcional.

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     Essa presença começa a ser alterada, com a presença dos Mercados Municipais e atualmente, dos dominantes super/hiper/giga mercados.

Antes de mais nada, o fator de alteração é o carro: onde o estacionamento é difícil, fica tudo mais complicado. Esse é o principio fundamental do shopping: fora do centro urbano e com muitas vagas. Essa idéia – do carro como comprador – causou dificuldades e oposição de comerciantes quando se fizeram os primeiros calçadões nas cidades. O tempo demonstrou que são as pessoas e não os carros os compradores, e a rua de comércio, sem carros ou com sua presença reduzida ao mínimo, é indispensável em qualquer cidade de média a grande. Aí acontece o encontro das pessoas, num convívio que favorece o comércio. Por outro lado, a multiplicação das lojas e empresas levou à configuração de áreas de comércio especializado – por exemplo, eletrônicos. Mas o exemplo mais interessante que me ocorre, é a concentração de livrarias na Calle Corrientes de Buenos Aires.

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     Esses dois fatores – os shoppings e as áreas especializadas – em grande parte esvaziaram os centros urbanos. As ruas centrais são tomadas por uns poucos itens de comércio: celulares, bancos, lojas de chinesices, buffets por quilo – ficando menos interessante percorrê-las. Como, além do mais, os shoppings seqüestraram os cinemas, as áreas comerciais das cidades continuam a ser abandonadas: viraram domínio de marginais, pixadores, maloqueiros e comerciantes de drogas, esses sim cada vez mais poderosos.

Não é saudosismo, mas quem quiser entender assim, sinta-se à vontade. A verbo “passear” já significou andar a pé pelas ruas centrais – o “footing” dos nossos pais – encontrar pessoas, paquerar, tomar um cafezinho, ver vitrines, fazer uma comprinha. Atualmente a palavra significa, na melhor das hipóteses, entrar no carro para ir a um parque. Ou a um shopping, é claro.

Sendo menos competitivo e agressivo, o comércio era também mais cordial e pessoal: as pessoas eram conhecidas nas lojas, “fregueses de caderno”, ainda que nem sempre houvesse o tal caderno. Decorrência imediata, mais cordialidade, mais satisfação de parte a parte, mais honestidade.

Em ocasiões especiais, o cliente ganhava presentinhos simples, simpáticos e úteis: calendários, caixinhas de fósforos, lápis – enfim, éramos gente, não “massa consumidora”, impessoal e amorfa.

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