LAFAETE, UM ESCULTOR PARANAENSE

12 de março de 2015 por keyimaguirejunior

Que alguém nascido nos sertões lapeanos do monge João Maria venha a se chamar Lafaete Rocha Ribas, é desses sincretismos brasileiros que viabilizam uma pessoa nascida na Zona da Mata paraibana ser batizada como Francisco de Assis Chateubriand.

Conheci o escultor na Feira de Artesanato quando esta era na Praça Zacarias, e portanto, diante da minha kitinete. Em depoimento, diz ter abandonado a “feirinha” por se desagradar do nível dos participantes – mas todos ficamos sabendo, na época, que era o nível da paisagem feminina que preocupava a esposa.

LAFAETE 1

     A família volta então para o interior do município da Lapa – Lafaete via aí, também, a facilidade para encontrar madeiras e materiais para suas tintas.

(A “Natividade” que adquiri dele nessa época, tinha uns tons de azul obtidos da vegetação local, aplicados sobre a imbuia.)

Para falar com o artista era necessário ligar à Rádio Legendária, que transmitia o recado entre programas, e marcar encontro na entrada do Teatro São João, onde ela funcionava. Lafaete vinha então de carro dos sertões para conversar.

Foi assim que organizamos na Sala de Pedra da FCC, em 1976, sua primeira exposição individual. O curador era o Ivens Fontoura. Foi quando fiz também o primeiro inventário fotográfico de sua produção. O texto do catálogo era o seguinte:

LAFAETE 2

“Lafaete Rocha Ribas, nascido na Cidade da Lapa, Estado do Paraná, em 1934; filho de Dna.Maria de Jesus Rocha Ribas e neto do carreiro Maneco Cardoso.

     Lafaete, um menino pobre que aprendeu a fazer sozinho seus brinquedos e assim se fez escultor.

     Lafaete, pedreiro, padeiro, carpinteiro, oleiro e pintor de paredes, vendendo figuras de animais aos visitantes da Gruta do Monge e nas praças de Curitiba.

     Lafaete, descoberto para os meios artísticos por Ivany Moreira e mais tarde reconhecido em escala nacional por Roberto Pontual e Walmir Ayala, admiradores de seus trabalhos em madeira, pedra, gesso e barro, e até pesquisa de tintas a partir de raízes de árvores.

     Lafaete, 1970, na Feira de Artes e Artesanato de Curitiba, que abandonou com o decréscimo do nível dos participantes.

     Lafaete, 1973, orientador do Centro de Criatividade de Curitiba, morando e esculpindo diante de casa na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

     Lafaete, no mesmo ano, esculpe crucifixo e uma N.S. do Apocalipse para a capela do Colégio Bom Jesus.

     Lafaete, 1974, perde num incêndio várias obras, inventário de seu trabalho, um estoque de madeira, a casa e dois filhos.

     Lafaete, 1975, esculpe São Pedro em imbuia e é escolhido para representar o Brasil na Exposição de Artistas Negros na África.

     Lafaete, 1976, esculpe São Francisco para o Lar Santa Helena.

     Lafaete, escultor, artista.”

LAFAETE 4

Anos mais tarde, fui entrevistá-lo com a profa.Oksana Boruszenko e Julieta Reis – para outra mostra na Sala do Artista Popular, na Funarte de Domício Pedroso.

Nas duas mostras, melhorei um pouco o acervo de fotos de suas obras.

Não tenho as datas – mas anos depois, soube de seu falecimento, sempre nos matos lapeanos.

Pode-se dizer de Lafaete que era autodidata – mas não que era “primitivo”. Algumas de suas últimas peças mostram estilização e tratamento elaborado demais para esse rótulo reducionista.

LAFAETE 3

LAFAETE 50003

    

 

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