O GRILO: UM GIBI DOS TEMPOS BICUDOS

2 de março de 2015 por keyimaguirejunior

O primeiro Grilo chegou às bancas de jornal com a data de 12 de outubro de 1971. Tinha duas capas: a do meio-tablóide, como era visto nas prateleiras; e a do tablóide inteiro, como era lido. Mais um cartaz – pôster, muito em moda nessa época – nas páginas centrais. Em vez da Sonia Braga, Lucy van Pelt, se me faço entender…

Proposta explícita no primeiro editorial: “…tudo coisa que antes, o leitor só encontrava nas revistas em inglês ou italiano.”

Tinha seus antecedentes: poucos anos antes, houvera a tentativa de relançar o Suplemento Juvenil; o Superplá foi lançado pela editora de mesmo nome; a RGE relançou o Gibi – que é assunto prá outro post. Todos bons, tanto que duraram pouco… Mas, ter o Grilo e o Gibi prá levar prá casa no mesmo dia, era o paraíso para os leitores.

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O Grilo chegou a ser um sucesso – os demais, não. Mesmo havendo na época um “revival” quadrinístico, o leitor brasileiro não se sentia “up-to-date” com leituras das histórias clássicas publicadas no Gibi. O “práfrentex” (gíria daqueles tempos) era mesmo o Grilo.

A Editora A&C (Arte & Comunicação) tinha uma pá de boas propostas: a Revista de Fotografia e o Jornalivro, entre outros, eram imperdíveis.

Mas voltemos ao Grilo, danado de bonito e bom de ler. Minha única objeção foi quanto a publicar a Valentina em meia página, que corresponde ao formato tradicional, quando havia a possibilidade de valorizar o desenho do Crepax no formato tablóide. A programação visual do Grilo sempre fez uso, desde o início, de ampliações de desenhos – inclusive nas páginas centrais – boas para se apreciar o traço dos desenhistas.

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     Essa primeira fase dura até a edição 24, de 21 de março de 1972. Na segunda fase, usa-se o formato ideal para quadrinhos: 18 X 26 centímetros. Se as capas anteriores já eram boas, ficaram ainda melhores, com pleno e excelente uso da cor. Da edição 28 até a 33, foram primorosas. Mas internamente, houve uma experiência que não se revelou boa: já se empregara antes, em gibis, alternar páginas em B&P com uma cor escura – marrom, azul marinho, bordô com legibilidade razoável. Mas a mistura – parecia que se usava a impressora suja de outros trabalhos – era ruim. Feia, mesmo.

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     No fim dessa fase, começam a entrar artistas barra-pesada (sempre gíria da época, com licença!) do underground americano e europeu: Crumb, Wolinski, Pichard, Reiser – que se estendem até a terceira fase, final.

A partir da edição 34, e do almanaque que se segue, muda o visual das capas. Também foi um modismo da época: um fundo indefinido e caótico, com uma cena de quadrinho em cores vivas por cima. E, entra o humor da Hara-kiri, antecessora da tristemente famosa Charlie Hebdo. Acho que são eles a lançar o humor “bête et mechante”, que é também chato e sem graça. Choron, Cavanna e outros autores desagradam em cheio os leitores brasileiros, como se percebe na secção de cartas. Nem a chegada de reforços – Shelton, Eisner, Corben (esse prejudicado pela transposição inábil da cor para o monocromático) – salva a revista. Na edição 48, com uma entrevista gigante do Henfil, acaba. Não tem data, mas quem tiver paciência de investigar, foi quando o Henfil estava de partida para “fazer a América”.

Dá prá dizer que o Grilo foi o melhor gibi moderno brasileiro – tipo assim, no alto do pódio. As mencionadas tentativas da mesma época – Superplá, Gibi, Patota – não conseguiram marcar tanto.

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     Por quê?

Do meu ponto de vista, o seu forte era publicar histórias famosas porém inéditas no país. Deve-se estar atento ao fato de não terem voltado em outros títulos. Mesmo quando chega ao underground – e essas tentativas fazem parte do notável de sua trajetória – vem com os melhores: acho que Crumb era inédito no Brasil.

Falhou, principalmente, em não reconhecer a rejeição à Hara-kiri – que é coisa prá francês ver – e outros materiais de menor qualidade. Além de não me agradar das capas dessa terceira fase, e da experiência com as cores ter sido um fiasco – tanto que, nas últimas edições, volta ao bom e velho B&P (os quadrinhos e o B&P foram feitos um para o outro). Mas com um serviço gráfico muito ruim, cheio de manchas e borrões, sem definição.

Foi bom enquanto durou…

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