A SANTA CEIA BARROCA DO MESTRE ATAÍDE

5 de fevereiro de 2015 por keyimaguirejunior

Não dá prá falar do Barroco Brasileiro – seja o do nordeste, seja o mineiro – sem um pouco de teorização histórica. Como entender, como apreciar aquelas extraordinárias sequências de obras-primas – um dos pontos máximos da Arquitetura Brasileira – sem contextualizar amplamente na História da Arte? Principalmente, por quê e no quê podem ser consideradas, desde Germain Bazin, como as mais importantes criações barrocas?

É uma compreensão que se faz com relativa facilidade a partir do excepcional texto de Hannah Levy – um clássico – devidamente atualizado por outros autores.

Fica interessante começar pelos conceitos negativos do Barroco no século XIX – que foram vigentes no Brasil até a primeira metade do XX.

A poderosa e famosa Encyclopedie Française, de 1758, diz: “l’idée du baroque entreine avec soi celle du ridicule, pourré a l’excés”. Benedeto Croce: “uma variedade do feio”. Mas quem pega pesado é o Dicionário de Laguna y Cáan, de 1829: “Jeringonzas arquitectónicas, mostruosidades y delírios de aventureros.” Urra!!! A Larousse, já no século XX pelo menos explica a etimologia da palavra antes de ofender: “nome dado pelos joalheiros à perola de forma irregular (…) feio, bizarro, chocante.”

As teorias mencionadas por H.Levy procuram desvendar o mecanismo de alternância entre eixos de concepção de tradição renascentista, racional; e barroco, emocional. Eugênio d’Ors: “o barroco é imanente e aflora quando tem condições”. A senoide e a espiral de J.B.Vicco são, no mínimo, interessantes, apesar de reducionistas. Mas reducionista é também a teoria que a autora endossa, de Leo Balet: “o barroco é o absolutismo”. Mesmo o interessante esquema de leitura proposto, não satisfaz. Mas já nos leva a desconfiar do que se trata: um contexto em que as coordenadas principais são Absolutismo, Romantismo e, principalmente, Contrareforma.

Giulio Argan demonstrou o quanto a história da Arte e a dos espaços são interdependentes. É preciso entender, também, que não se fala de uma ocorrência desse porte isolando o caso brasileiro nem a Arquitetura: é preciso ler o Pe.Antonio Vieira para ver como acontece – e brilhantemente – na literatura. Sempre que se pode mostrar as modificações de estilo como acontecendo amplamente, não apenas numa das artes, isso contribui para o entendimento do que seja um “estilo”. Por mais que eu desconfie e desgoste dessa palavra – e de todos os rótulos – eles são úteis e válidos pelo menos didaticamente.

Entre os temas recorrentes na História da Arte, dos quais é possível extrair uma compreensão da modificação de concepção estilística, a Santa Ceia é um dos mais propícios – pela riqueza extraordinária de formulações ao longo de milênios.

Aqui pretendemos apenas uma caracterização sumária do Barroco, como introdução ao curso de Arquitetura Brasileira. Durante a elaboração deste post, fiquei sabendo que, em contexto maior, já foi desenvolvido pelo confrade Ivens Fontoura, em catálogo para exposição na PUC.

No trabalho do Ivens, percebe-se que toda a História da Arte pode ser contada dentro de um tema como a Santa Ceia. Os tratamentos compositivos – para não falar da abordagem do tema em si, nem das técnicas, que são tão definidoras da obra quanto – estão indissoluvelmente ligados às idéias, artísticas ou não, do tempo.

O amigo Pier Paolo Olivieri, designer italiano, me apresentou obras bizantinas em Ravenna, executadas em mosaico. Ele me chama atenção para algumas Ceias antigas, num contexto em que a arte religiosa tinha muito caráter didático, aplicada às paredes das igrejas para populações essencialmente analfabetas.

Cena 1

     Dentro de uma outra formulação medieval, os Códices, está o Códice Rossano, do século VI – portanto, baixa Idade Média – com algumas características que a nós, pós-renascentistas, parecem no mínimo curiosas. Antes de mais nada, a aplicação de um vermelho intenso – ainda que em obra tão antiga, deva-se ter em consideração que os pigmentos podem se alterar ao longo do tempo. Mas na composição, observa-se uso do triclínio: se pensarmos que a cena bíblica aconteceu nos tempos de Augusto, tem mais lógica que as cadeiras e mesas das etapas renascentistas. E o detalhe curioso do apóstolo que estende a mão para o prato de azeitonas: quem será ele?! Por que a referência, que dificilmente será gratuita?!

O antecedente que oferece um contraste mais favorável à nossa demonstração, é a Santa Ceia de Andrea del Castagno (Firenze, 1497). Extraordinária composição horizontal, com uma presença notável da mesa (terá havido alguma intenção simbólica ou o pigmento branco foi o único que não escureceu?), um mostruário de texturas de pedras (!) na parede dos fundos, uma grande regularidade na posição dos apóstolos, diferenciáveis apenas do plano da mesa para cima. Em que pesem os gestos e posições das cabeças, toda a cena é estática, como que “posada”.

AGJ 2

     Não se fala da Santa Ceia como arte sem passar pela mais carismática, a de Leonardo. (Milano, 1498). A evidente construção geométrica, as proporções e cânones renascentistas, com sua riqueza compositiva e complexidade, são evidentes na comparação com o exemplo anterior.

santa_ceia1

     Outras Ceias barrocas existem, e até mais agitadas – mas a de Manoel da Costa Ataíde, (1828) é brasileira e mineira. Sobre a composição dinâmica e ondulada, tem uma teatralidade de gestos, um certo intimismo romântico ao gosto barroco: “se a arte pode seduzir a alma, perturbá-la e encantá-la, emocioná-la nas profundezas não percebidas pela razão, que isso se faça em proveito da fé.” (Concílio de Trento, partida da Contrareforma).

ATAÍDE

     Entre o barroco e a pós-modernidade, há uma longa transição, em que a laicidade crescente não impede formulação tendendo ao estilizado e ao abstrato. Talvez a contribuição mais característica do período seja o ingresso “da obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”.

DSC_0036

     Houve uma tradição doméstica – originária certamente dos refeitórios de conventos e seminários ao longo de séculos – segundo a qual os espaços de refeição de uma casa devem ser “protegidos” por uma Santa Ceia. Talvez a origem dessa prática possa ser localizada mais longe, no culto dos “lares”, nos primórdios da sedentarização do ser humano.

??????????

Por essa via, chegamos ao Kitsch e à pós-modernidade: a Santa Ceia tem formulações as mais variadas, usadas desde a publicidade até o cartum. Mas o que se queria demonstrar aqui, é que cada tempo tem a Santa Ceia que merece – aí incluído o Barroco.

ALGUMAS LEITURAS

– LEVY, Hannah. A propósito de três teorias sobre o Barroco. In: Pintura e escultura I. São Paulo, MEC/SPHAN/FAUUSP, 1978.

– FONTOURA, Ivens. Cenáculos do século XXI. Curitiba, PUC, 2012.

– COELHO FROTA, Lélia. Ataíde. s/local, Nova Fronteira, 1982.

– BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. IN: Walter Benjamin, Obras escolhidas. São Paulo, Brasiliense, 1985.

– ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

OBSERVAÇÃO

A penúltima ilustração foi achada numa velha moldura, jogada na rua e encharcada. Trata-se de uma litogravura, evidentemente baseada na pintura de Leonardo, data e autor desconhecidos.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: