PEGA LADRÃO!!!

29 de janeiro de 2015 por keyimaguirejunior

A expressão “patrimônio histórico” tem, como conteúdo evidente, a idéia de acervo documental, aquilo que se relaciona com a História e ajuda a contá-la.

A Arquitetura é documento dos mais ricos e válidos – sua leitura, por si só, permite identificar muitas coordenadas da nossa sociedade. Acompanhada das devidas pesquisas e estrutura teórica, mais do que documento, é testemunha da História.

Uma construção que permite uma leitura muito rica – por ter sido, como em geral as igrejas o são, investimento de uma comunidade – é a São Benedito de Paranaguá.

Sua localização, no ponto focal da perspectiva da Av. Conselheiro Sininbú, fala de um terreno privilegiado, já ocupado antes por capela – mas também, da ligação do centro urbano tradicional com o abastecimento de água, a Fonte Velha.

A austeridade da construção, ausência de materiais caros, fala de uma irmandade pobre, de escravos e libertos – poucas cimalhas, feitas da própria argamassa, pináculos idem – e mais nada. Seu encanto vem de sua implantação urbana e da caiação em branco, da faceirice da simplicidade…

O altar foi, nas obras de restauro da década de setenta, reconduzido à sua singeleza original. Todo o espaço interior é articulado no belo contraste entre as madeiras escuras e a alvenaria de pedras em branco.

Também as imagens foram restauradas nos laboratórios do IPHAN no Rio de Janeiro, dado seu grande valor artístico – em que pese desconhecer-se autoria e data de feitura. O que também é revelador: quem as fez e/ou doou, ficou anônimo…

Pode-se, é claro, ir muito mais longe na leitura dessa pequena igreja como patrimônio histórico, no que ela tem para nos contar, na contramão da afirmação que “a História, é a dos vencedores”… Mesmo porque sua função cultual foi mantida – enquanto que a São Francisco, na mesma cidade, tradicionalmente irmandade de ricos, transitou para outros usos.

Daí o revoltante do roubo das quatro principais imagens, ocorrido em 1984 e 1993: a leitura do conjunto fica empobrecida, desfigurada, aviltada.

As fotos a seguir, fiz na minha primeira visita a esse monumento, no início dos anos setenta – cerca de dez anos antes do roubo. Feitas há quarenta anos, pensando numa aula sobre igrejas coloniais do Paraná, perderam um tanto de definição – mas ainda permitem ver o que era nosso e agora é de algum antiquário ou colecionador.

O pior ladrão é o que nos assalta nas ruas ou casas – além de levar para seu uso o que ganhamos com nosso trabalho, ele rouba nossa confiança nas instituições do país, na honestidade e no trabalho, no próprio ser humano. Nessa escala, vêm logo a seguir os políticos – que mantém o país na rabeira das nações, saqueiam e enriquecem com finalidades eleitorais. Essa escala é complexa, e não é o caso de desenvolver aqui.

Mas quem rouba nossa cultura, comete um crime que enseja todos os outros.

Imagens 1Imagens 2

NS do Rosário – terracota, e NS das Candeias, terracota, ambas século XVIII

Imagens 3Imagens 4

Santa Luzia, madeira e São Benedito, terracota, ambas século XIX

Observações

– A propósito da Igreja de São Benedito de Paranaguá, ver o post deste blog “Igrejas coloniais do Paraná”, de 12/2014.

– Escaneamentos da Marialba.

– Umas poucas leituras:

* (Catálogo) Artistas e artífices do Brasil – séculos XVI,XVII,XVIII. São Paulo, MASP, 1977.

* GUTIERREZ, Angela. Museu do Oratório. Belzonte, Conceito, 2013.

* ETZEL, Eduardo. Arte sacra popular brasileira; Imagens religiosas de São Paulo; Arte sacra: berço da arte brasileira. Todos São Paulo, Melhoramentos, 1971,1975,1984.

– Abaixo, cartaz procurando maquete roubada na UFPR, já vai para 28 anos…

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