VÂNDALOS, DECORADORES E PÓ-DE-PEDRA

16 de janeiro de 2015 por keyimaguirejunior

VIARO

         Prá quem não sabe, essa fase da arquitetura é o Art-déco e antecede o Modernismo. Tem várias características, mas aqui nos interessa sua presença estética: baseia-se, antes de mais nada, em formas que lembram os movimentos regulares e ritmados das máquinas – e, no revestimento, o pó-de-pedra. Internamente, as construções assimilam tecnologias então modernas, dependentes das estruturas urbanas que estão sendo lançadas nas cidades, principalmente água, esgotos e eletricidade. Os materiais, dentro como fora, passam por processamento industrial: parquetes e tacos, granitina (então chamada “mosaico”, vá-se saber por quê), lambris, forro paulista. No revestimento externo, o pó-de-pedra que é, evidentemente, pedra moída e preparada para aplicação sobre o reboco.

Claro que o art-déco não é só isso – mas dá prá sentir o quanto ele é uma fase importante da arquitetura. Acontece em Curitiba principalmente na década de trinta, e deixou um patrimônio importante de edifícios públicos.

Mas também na construção de mercado: na sua vigência, começa o processo de verticalização das cidades, levado a deletérios extremos a partir dos anos setenta. É um acervo ainda não levantado e dos mais ricos como leitura urbana.

Mas o propósito deste post é manifestar indignação pela agressão sofrida pelo Museu Guido Viaro, registrada na notícia acima.

Na verdade, a descaracterização do art-déco é muito comum, não se compreende sua natureza do revestimento: ele foi feito para ser lavado e escovado, jamais pintado. O Edifício São Francisco, dos primeiros da cidade, foi pintado há tempos, perdendo sua caracterização quase totalmente. Uma construção na esquina da Rua Inácio Lustosa com a Rua Duque de Caxias, da mesma tipologia, foi carnavalizada para uma loja, que durou pouco: agora deu-se um banho de imersão no coitado do prédio, que está todo preto, talvez para um bar dark…

A mesma bobagem se fez no Palácio São Francisco: a textura característica do revestimento foi escondida pela tinta – tornando ainda mais confusa sua relação com o anexo. A pedra do pó-de-pedra tem mica ou similar, que cria pontos brilhantes muito bonitos, o que, com a pintura, se perde sob a camada de tinta.

O pior é que, em se tratando de revestimento e não de pintura, fica difícil de reverter: seria necessário retirar, talvez, até o reboco para aplicá-lo de novo. Uma trabalheira e um custo enormes.

Não sei quem fez essas obras, nem quero saber. Mas qualquer curso de Arquitetura tem noções de patrimônio cultural como disciplina obrigatória em seu currículo.

A pixação do museu é mais revoltante, porque ato de vandalismo, de agressão à cidade, de contribuição à situação de relaxo e escracho em que afunda Curitiba. Além do mais é uma instituição cultural mantida por particular, não tem as fluidas verbas públicas – o sr.Viaro contribui com a cultura da cidade e esta permite essa barbárie.

Que o pixador não é um “artista de rua”, mas um vândalo e marginal, fica claro o ato de invasão, danos e roubo de obras.

Fazem mais de dez anos que a prefeitura faz essas campanhas tipo “pixar é crime”, “quem faz vandalismo destrói o que é de todos”, e a situação é cada vez pior, cada vez a cidade está mais suja, mais feia, mais pixada. O problema está evidentemente fora de controle – de resto, como toda a criminalidade na cidade no estado no país. Campanhas e vigilância policial são insuficientes, precisamos de leis mais duras e que sejam cumpridas com tolerância zero.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: