CANTOS E RECANTOS DAS CIDADES

16 de janeiro de 2015 por keyimaguirejunior

Cantinho

     Esta foto me foi mostrada, há muitos anos, pela profa.Malú, durante uma conversa sobre Portugal. A imagem marcou e não me saiu mais da cabeça.

A construção que a ocupa em boa parte, tem o vocabulário da arquitetura luso-brasileira: parede caiada de branco, com elegante cunhal em cantaria, cobertura de telhas capa-e-canal concluindo sobre beiral em cimalha. As molduras dos vãos – são certamente em madeira ou pedra, sendo a folha da porta com almofadas de madeira escura, encimada por sobreverga com volutas. A janela do piso superior é gradeada: dificilmente a edificação é uma residência.

A alta chaminé contra o azul do céu faz supor uma cozinha de refeitório (de convento?) e, por trás dela, há árvores.

No primeiro plano, uma pequena mesa de pedra, com tampo redondo e borda quebrada. Duas pequenas laranjeiras – uns três metros de altura, no máximo – com frutos e, à sombra delas, um banco embutido num guarda corpo – que mais adiante, flete e desce ladeando uma escada. No canto do muro com a construção, um vaso em forma de ânfora; o piso é em lajes de pedra irregulares. Assim, pela foto, eu diria que tudo veio da mesma pedreira: cunhal, molduras dos vãos, mesa, proteção do muro, banco, piso e mesa.

Alguém colheu duas das muitas laranjas maduras e as deixou, como gentileza, a algum passante encalorado, sobre a mesa – ou um ocupante da construção as vem buscar mais tarde. Pelas sombras, o sol ainda vai alto, mas não me parece que faça muito calor – o céu é invernal e as laranjas são frutos da estação fria.

Dá prá imaginar o prazer de sentar naquele banco – sozinho ou em boa companhia – e com um canivete descascar e tomar as duas laranjas?!

Só falta nessa paisagem o toque de vida: um tico-tico ciscando nas pedras, um sabiá na laranjeira ou um pombo no beiral. Talvez um gato dormindo sobre o muro… É tudo escrupulosamente limpo, da caiação recente ao piso sem xepas, sem cascas de laranja, sem sacolinhas plásticas, sem sujeira alguma: há algumas folhas mas isso não é lixo.

O encanto da foto é ter captado a placidez simples, harmoniosa desse conjunto de coisas: nada sofisticado, complicado, tem cara de coisa que foi acontecendo ao longo do tempo até chegar nessa perfeição toda.

Em livros de fotos que exploram esse “pitoresco” das cidades européias, cantos e recantos assim são comuns – já encontrei inúmeros, naquelas lonjuras. Mesmo que muita gente não perceba, integram harmoniosamente o charme que vamos procurar nessas cidades.

Nas imediações de Savona, visitamos um curioso santuário – com navios e jacarés pendurados no teto da nave – mas uma arquitetura sem expressão maior. Diante dele, uma pracinha também simples, nada daquelas praças italianas que tiram o fôlego e a gente fica de boca aberta, babando feito portador de deficiência mental acentuada, sem conseguir seguir adiante. Poucas árvores, mas viçosas e com frutas – não lembro o que eram, talvez algum cítrico. Junto a uma delas, um senhor com uma escada, colhia as maduras e as colocava no “cestinho de catar funghi”. Não só pela presença da escada, mas muito pelo cuidado com que examinava e colhia, sem danificar a árvore, certamente era morador das proximidades.

Recentemente, numa de nossas praias, em busca de frutos do mar, vi um banco tosco de madeira, à sombra de uma árvore. Muito bucólico – se não fosse o mato que os rodeava e, principalmente, o infeliz riacho diante deles – águas cinzentas e fedidas do esgoto das peixarias próximas. O que significa um inferno de mosquitos e moscas, ávidos de nosso sangue como políticos.

O Rio Funil corta o centro de Ouro Preto – uma dádiva paisagística a mais nessa cidade privilegiada com tudo de bom – e, mais recentemente, tudo de ruim também – em sua configuração urbana. Desce das imediações da Rodoviária, ladeia a Casa dos Contos e passa pela Matriz de NS da Conceição antes de chagar ao Antonio Dias. Percurso acidentado numa geografia idem, em anos recentes recebeu o trato paisagístico de que era merecedor: um percurso marginal com trilhas, escadas, remansos e equipamento. O sonho de qualquer rio: um leito protegido pela vegetação e, numa cidade turística, um belo percurso/passeio. Mas na minha última visita, a decepção: sujeira jogada da lindíssima ponte em curva da Casa dos Contos, jardins descuidados com o mato tomando conta e, o pior: aquelas águas viscosas, feias, sujas.

Não se consegue deixar de pensar no ser predatório que são os humanos: tiraram desses rios toneladas de ouro, que fizeram a época mais faustosa da Corte Portuguesa, sustentaram seu império, enriqueceram a Inglaterra – e agora, estão reduzidos a um canal mal cuidado. Pensando nisso, água do Rio Funil, do Antonio Dias e dos outros próximos, deveria ser potável como mineral de garrafa!

Estou tergiversando, mas não dá prá conter a indignação… E se uso Ouro Preto como exemplo, é porque a considero nossa Urbe magna pela qual tenho a mais elevada estima e distinta consideração.

Onde quero chegar, afinal, com essas histórias de cantos e recantos de cidades?! Muito simples: eles são peça fundamental na nossa paisagem urbana. Falou-se, há tempos, em “pocket gardens” – o conceito é parecido, apesar da minha feroz aversão a esses americanismos lingüísticos. Muitas pequenas áreas, bem tratadas, com um bom projeto, podem resultar num grande bem – principalmente nas grandes cidades, tumultuadas, violentas, congestionadas, “adensadas e verticalizadas” ao gosto das prefeituras e imobiliaristas.

Exemplo curitibano: na esquina da Rua Presidente Faria com a Travessa Alfredo Bufrem, há um prédio enorme abandonado há décadas, prova viva que não é de prédios que a cidade precisa, muito pelo contrário. Ele deveria ser demolido, implodido, sei lá, um troço desses e a área livre somada ao “canto de praça” já existente na esquina com a Rua de São Francisco. Com um bom projeto, repito, poderia dar muito a essa área feia da cidade.

Nossa atitude em relação às cidades lembra o Alfred Newman, mascote da Mad: “o quê, eu, me incomodar?!”

Estamos no país da descontração, do à vontade, do “eu faço o que eu quero”, do carnaval, do relaxo e do escracho – e é isso o que mostram nossas cidades.

Algumas referências:

– A foto foi tirada – com autorização – da palestra da profa. Maria Luiza Marques Dias, do CAU/UFPR, intitulada “Patrimônio Cultural e espaços do não-trabalho.” Como ela vai ler este post, aproveito para cobrar a passagem para Portugal prometida…

GIL, Julio & CABRITA, Augusto. As mais belas vilas e aldeias de Portugal. Lisboa, Verbo, 1984.

– SARAMAGO, José. Viagem a Portugal. São Paulo, Cia das Letras, 1990.

– MATOS, Campos. Imagens do Portugal queirosiano. Lisboa, Terra Livre, 1976.

 

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