IGREJAS COLONIAIS DO PARANÁ: O “BARROCO CAMPEIRO”

18 de dezembro de 2014 por keyimaguirejunior

Durante a orientação da minha dissertação de mestrado, nos antigamentes de 1982, a profa.Cecília Westphalen referiu-se à Igreja Matriz de Santo Antonio, da Lapa, como “nosso Barroco Campeiro”. Mesmo sendo a maioria das manifestações ditas “barrocas” da arquitetura religiosa do Paraná litorâneas, cai bem o apelido: denota uma certa ingenuidade na classificação dada aos discretos frontões encurvados e à própria construção, simples e despojada.
Às quatro igrejas paranaenses que cabem, com alguma boa vontade, sob o rótulo “barroco”, acrescento a de Tamanduá à planaltina da Lapa e as demais são litorâneas: duas em Paranaguá, e uma em Guaratuba.

TAMANDUÁ NISIO

TAMANDUÁ LEVANTAMENTO

Nada há que enseje a inclusão no barroco da Capela de NS da Conceição de Tamanduá, município de São Luis do Purunã, à margem de um dos ramos da rota tropeira Viamão-Sorocaba. Consta que um poderoso dos Campos Gerais, Antonio Tigre, a fez construir em madeira ou pau-a-pique nos primeiros anos do século XVIII. Ele mesmo a substituiu por uma edificação em alvenaria de pedra, duas décadas depois, provendo-a também de imagem adquirida em Portugal.

LAPA 1894LAPA PLANTALAPA CORTES
A segunda igreja Planaltina é a de Santo Antonio, matriz da Vila do Príncipe, atual Lapa. Também a cavaleiro da rota tropeira – ainda configurada na Rua das Tropas, eixo da cidade. É a tradicional implantação lusitana, diante da praça que irá, com maior ou menor regularidade, definir o desenvolvimento da malha urbana e centrar a vida e a sociabilidade da cidade. Das cinco igrejas consideradas, é a de maior área, o que é um indicativo da ocupação do planalto tropeiro para além do pelagismo lusitano.
Paranaguá, como cidade de ocupação litorânea e em contato direto com os espaços civilizados de então, apresenta um referencial preciso das estruturas sociais coloniais. Antes de mais nada, com o Colégio Jesuítico – objeto de um futuro post – mas também com a dialética das capelas da ordem franciscana – tradicionalmente das classes dominantes – e a de São Benedito, dos escravos.

BENEDITO 1

BENEDITO PLANTABENEDITO CORTE
A de São Benedito tem localização privilegiada – como decorrência de transformação urbana, não de intenção de implantação – no ponto focal da Rua Conselheiro Sinimbú e próxima à Fonte Velha. Construída em 1704, foi a primeira obra de restauro realizada pelo IPHAN no Paraná, conduzida pelo prof.Cyro Correa Lyra, em 1965. É vergonhoso que as valiosas imagens que a guarneciam, também cuidadosamente restauradas, tenham sido roubadas em 1984.

SÃO CHICO 1

SÃO CHICO PLANTASÃO CHICO CORTE
A de São Francisco foi construída em 1770, na Rua XV de Novembro, principal rua da cidade. Localizada em esquina, em anos recentes, ganhou espaço aberto para o Rio Itiberê. A torre à esquerda da nave é incomum, e pode ter decorrido de facilidade construtiva. É a mais privilegiada com trabalhos de cantaria. Após incêndio foi interditada para fins cultuais, sendo administrada pela Prefeitura da Cidade como centro cultural. Passou por várias obras de restauro, sempre parciais.

GUARATUBA

GUARATUBA PLANTAGUARATUBA CORTES
A Matriz de Guaratuba data de 1766 e, como as demais, é construída em alvenaria de pedra. Tem diferenciais na elaboração do frontão – composição de volutas e não apenas de arcos – e, especialmente, na torre sineira recuada em relação à entrada da nave.
Há outras igrejas parcialmente remanescentes do período colonial no Paraná, as aqui mencionadas são as da minha predileção pessoal, por serem testemunhos simples de uma sociedade provinciana, de estruturas sociais bem marcadas, história pacata e região sem economias de mercado exuberantes.
Pode-se pensar como integrantes da cultura do mesmo período, a Matriz e a Bom Jesus do Saivá em Antonina; a Matriz de Paranaguá; a de São Benedito em Morretes e São Sebastião em Porto de Cima; a da Ordem Terceira em Curitiba. No entanto, sucessivas intervenções as tornaram exemplares híbridos, com incidências culturais que as remetem a outros conteúdos históricos.
A arquitetura religiosa do Paraná, do período colonial até hoje, permite uma leitura do tipo “linha do tempo”, onde figuram todas as tendências arquitetônicas presentes no país.

CONSULTAS RECOMENDADAS
1 – LYRA, PARCHEN & LAPASTINA. Espirais do tempo; bens tombados do Paraná. Curitiba, SEC, 2006.
2 – LYRA, Cyro Correa. Guia dos bens tombados – Paraná. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1994.
3 – IMAGUIRE Junior, Key. Arquitetura no Paraná; contribuição metodológica à história da arte. Curitiba, UFPR, 1982. (Dissertação de Mestrado, inédita).
4 – RAMOS, Joanita. Memória no limbo; Capela de NS da Conceição não tem quem conte sua história. Curitiba, Gazeta do Povo, 14 de dezembro de 2003.
5 – Ver, neste blog, o post “Dois alemães nos trilhos”
6 – Para conhecimento em profundidade dessas construções, será necessário consultar as bibliografias dos livros acima, bastante completas.

OBSERVAÇÕES
– Os desenhos foram feitos pela Marialba para a minha dissertação de mestrado, referenciada acima.
– Todas as cinco igrejas mencionadas estão tombadas como Patrimônio Cultural do Paraná.
– Há algumas pequenas capelas, de difícil acesso e escassa documentação, que preciso ir conhecer…

– A foto lapeana antiga – 1894 – é do livro “Cidade da Lapa”, Curitiba, SECE, 1982.

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