13 LISTAS DE GIBIS PREFERIDOS – 10, OS ARTISTAS

13 de dezembro de 2014 por keyimaguirejunior

Era o argumento definitivo, inquestionável, arrasador. Quando alguém falava mal de gibi, a gente dizia:

– Pois para sua informação, os desenhistas de gibi estão com exposição no Louvre – junto de Leonardo, Bosch, Bruegel – artistas que, se vivessem hoje, certamente desenhariam quadrinhos.

Falar de Roy Liechtenstein como “papa pop”, de Al Capp candidato ao Nobel de Literatura, de Fellini querendo filmar personagens de HQ não melhoraria o nível da discussão; a argumentação contra o gibi partia (parte) de quem não conhece nenhum dos mencionados. Prá deixar barato.

Que eu me lembre, os três artistas da Era de Ouro do gibi americano consagrados no museu francês, eram Raymond, Foster e Hogarth. Todos bons e já suficientemente incensados, mas fase comportou outros artistas extraordinários como Will Eisner, Chester Gould e Milton Caniff. A lista pode ir mais longe: Cliff Sterret, George Herriman, Geo MacManus… Mas estamos falando aqui de qualidade de desenho, apenas, o que é complicado: numa boa HQ, não dá prá separar do bom texto.

Assim, quando os super-heróis mandam todos esses artistas para o limbo, os europeus já estavam em campo. Com seus museus fabulosos, o background deles está garantido. Não admira sua chegada ao mercado com uma produção de peso, capaz de levantar a maldição que pesou sobre os gibis até os anos sessenta.

Mas nem só de americanos e europeus se faz a história dos quadrinhos artísticos – a América Latina tem seus representantes que não fazem feio; e também temos a chegada dos mais ou menos recente dos mangás.

A “ERA DE OURO” AMERICANA. Escolho como representante o canadense Harold Foster – as duas mil melhores pranchas da toda a história dos gibis. Qualquer besteira tem sido chamada de “Saga em Quadrinhos” – mas a única verdadeira dentro do espírito da palavra, é o Prince Valiant. Na cena abaixo, que me faz torcer de inveja e ressentimento por não ter nascido naqueles tempos, o Rei Artur arma Valiant como Cavaleiro da Távola Redonda. Cada vez que releio a coleção, essa aí requer uma meditação sobre os destinos do ser humano…

Valiant

     O RENASCIMENTO DOS GIBIS, NA EUROPA. Aqui representado pelo Philippe Druillet, entre os franceses. Suas histórias estão abaixo de muitos outros contemporâneos – mas o desenho cria mundos e universos que espicaçam a imaginação de nós, pobres seres trancafiados nessas cidades à mercê dos imobiliaristas e políticos. A cena abaixo é da “Ponte entre as estrelas”, e dispensa maiores explicações.

Druillet ADruillet B (2)

     Entre os italianos, o coleguinha Guido Crepax, é claro. Ilustra o post Anita, menos conhecida que a Valentina – que foi mais desenvolvida. Mas é igualmente safadinha: tem tesão pelo aparelho de TV, pelo chuveiro, pela moto do namorado. Crepax vai fundo nos – palavra de que ele gosta – subterrâneos do tesão das personagens. Suas quadrinizações dos clássicos eróticos também são primorosas. Manara também é fantástico para criar personagens e situações, é um baita desenhista – mas não tem a criatividade gráfica do milanês.

Anita

     E o que é, provavelmente, o maior de todos: Hugo Pratt, que fica prá um post específico.

Claro que franceses e italianos têm produção fabulosa para além dos mencionados, que são apenas representantes emblemáticos. Como desenhistas – a arte é o tema deste post – eu citaria Franquin, Uderzo e, o mais genial, Sempé. Entre os italianos, Giardino, Jacovitti e os bonellianos.

Outros países europeus tem produção de qualidade artística: Espanha – cito Sió, Maroto e Blasco – e Alemanha que não chega aqui e desconheço. A Bélgica chega a definir uma escola nos quadrinhos – mas não dá prá deixar de lado que é produção para o mercado francês em particular e europeu em geral.

A INVASÃO DO MANGÁ. Foi tão violenta que Uderzo escreveu e desenhou uma aventura de seus gauleses contra ela. Foi ridículo – teria sido mais digno encerrar a sucessão de obras primas de Asterix com o falecimento do Goscinny. Não sou conhecedor de mangá – é um universo muito extenso para acompanhar lendo tudo. Mas acho que é uma arte para histórias de samurais decepadores de pescoços com suas katanas… mas como gênero, vai além disso. Já ficou na primeira lista a menção de “Seton” como a melhor história já contada em quadrinhos. Mas gosto muito do coelho Usagi Yojimbo, do “Buda” do grande Tesuka, do Vagabond – prá ficar no padrão de três. No gênero erótico, a “Video Girl Ai”, as deliciosas safadas inincontráveis Pfil e Pamila, Bondage Fairies do Kondon e o já ocidentalizado Crying Freeman, sempre pensando no desenho. Séries pinçadas meio aleatóriamente do que li, e sem deixar de lado o monumental “Akira”, o Lobo Solitário e os samurais do Claudio Seto…

Musashi

     AMÉRICA LATINA. Embora Uruguai, México e Chile tenham alguma produção de valor, o continente é reduto de argentinos e brasileiros. Os primeiros já tiveram seu post, os segundos, ainda o terão – acho. Mas para não ficarem sem menção, entre os argentinos cito Quino, Breccia e Sanz; entre os brasileiros, Colin, Ziraldo e Santiago.

ESSAS LISTAS SÃO COMPLICADAS! Parecem estar dentro do preceito neo-liberal da competição, o que seria suficiente para detonar com elas, não fazê-las. No fundo, termina-se prestigiando valores consagrados e esquecendo muita coisa boa menos óbvia. Mas devem ser entendidas assim: se um leitor e consumidor ávido de gibis há mais de cinqüenta anos gosta desses autores, isso define um padrão que não é uma bobagem sem critério…

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