DESAGRAVO AO PINHEIRO DO PARANÁ

17 de novembro de 2014 por keyimaguirejunior

(Texto produzido para a “Trezentinha”, da Rosirene Gemael, em 1982. Como o terceiro número, no qual deveria ser publicado, não saiu, permaneceu inédito – é mais uma das “Coisas que ninguém quer publicar”…)

ARAUCÁRIA

         As classificações científicas existem, acho, para criar uma nomenclatura universal, independente de idiomas e fronteiras. Dar um “nome científico” significa outorgar um batismo planetário a uma planta, pedra ou animal. Importa, portanto, que seja imediatamente identificável com o ser que designa, e que lhe descreva ao máximo em um mínimo de palavras, senão não faz sentido alienar as designações populares que contém variações entre regiões e culturas.

No que diz respeito ao Pinheiro-do-Paraná, a situação é positivamente esquisita: a boa nomenclatura é a popular, estabelecendo que se trata de uma árvore do Paraná – perfeito. Claro que falamos aqui da bacia hidrográfica do Rio Paraná.

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Já a designação erudita, científica, parece humor de televisão, onde uma caricatura de professor encontra relações descabidas para coisas díspares que não domina.

“Araucaria Angustifólia” ou “Brasiliensis”.

Araucária significa “da terra dos araucanos” e, até aí, está tudo bem, dá prá aceitar: os araucanos foram um povo altivo e forte, daqueles que quebram mas não vergam. Não se deixaram dominar por dois dos maiores impérios da história humana, o Inca e o Espanhol. Parece – já escutei isso – que não se deixam dominar nem mesmo pelo Grande Império do Consumo e do Capital: com o quê, podemos considerá-los invencíveis. Acredito que é o suficiente para prestar-lhes homenagem com o nome do pinheiro-do-Paraná: não existe melhor configuração de força e altivez.

Aceitar que ele seja nativo da terra dos araucanos não nos impede de olhar num mapa a configuração original da mancha formada, sobre ele, pela Floresta de Araucária: o centro geográfico, a área mais compacta, corresponde aos planaltos paranaenses. Alguma cidade localizada nessa área poderia até adotar o nome de “muitos pinheiros”, de preferência em idioma indígena…

Brasão Curitiba

     Mas a partir dessa mancha, há extensões que vão até os pampas argentinos ao Sul, até Minas Gerais ao norte; até a Terra dos Araucanos a oeste e até a Serra do Mar a leste – a Araucária, segundo Reihnard Maack, não vive abaixo da cota 500.

“Brasiliensis” portanto diz muito pouco, o correto seria “Paranaensis”. Quanto ao “angustifólia” – “folhas estreitas”, em bom latim – idioma da erudição nos tempos de Lineu – ou, mais claramente, espinhos. Dá prá entender a aplicação do sobrenome a todas as plantas que não tenham folhas arredondadas, mas também não diz muito – quem tiver paciência de dar uma folheada na “Exótica” vai encontra “folhas estreitas” até enjoar.

Depois da Segunda Guerra, com a Europa devastada e consumindo madeira furiosamente, houve um consultor da FAO (?) – um tal de Tom Gill – para assuntos florestais que recomendou o uso da madeira da Araucária nas obras da reconstrução. Ele queria ser entendido lá nas reuniões em Genebra, e denominou claramente, em seu relatório, a árvore-vítima de “Paraná Pine”.

Queiram portanto fazer uma errata, na página adequada, em seus dicionários:

– onde se lê “Araucaria Angustifolia Brasiliensis” , que quer dizer “árvore brasileira de folhas estreitas” nativa da Araucania,

– leia-se “Araucaria Paranaensis” significando árvore que é forte e altiva como os araucanos, nativa da bacia do Rio Paraná.

ARAUCÁRIA (2) ARAUCÁRIA (3)

     E há mais a desagravar. Quantas vezes, no tempo em que havia exploração comercial da Araucária, escutei referências desabonadoras às qualidades da sua madeira, e elogios rasgados às do pinho-de-Riga? Prá mim, faz parte do Festival de Besteira que Sempre Assolou este País.

O arquiteto, dr.Günter Weimer, do alto de seu tecnicismo germânico, relatou-me haver testado, em laboratórios europeus, amostras de pinho procedentes de várias partes do mundo, inclusive o nosso e o de Riga. Todos apresentaram performances técnicas muito semelhantes, não havendo superioridade considerável de algum em relação aos demais. Mas somos ainda os índios que trocam o pau brasil por bugigangas coloridas – aí estão os produtos chineses no nosso mercado, enterrando a produção nacional, que não me deixam mentir.

Nos primórdios da exploração madeireira, a multinacional Lumber tenta estabelecer um monopólio sobre as madeiras paranaenses. Mas só a Brazil Railway, sua irmã, tem trens para fazer o transporte da produção até o mercado de consumo – as capitais e grandes cidades em crescimento. Os pequenos produtores, então, estocam sua madeira à margem dos trilhos, à espera de vagões não lotados pela madeira da Lumber. Ao ar livre, tomando sol e chuva, durante meses. Ao chegar ao destino, a madeira está em estado lastimável, o que leva construtores a rejeitá-la já nos contratos de construção.

Há ainda a questão climática – o clima europeu é consideravelmente mais seco que o brasileiro, lá a madeira sobrevive indefinidamente. O que não é o caso do Brasil e seu clima tropical. Claro que as florestas brasileiras e paranaenses têm madeiras mais resistentes: imbuia, canela, jacarandá, peroba, ipê – prá ficar nas mais conhecidas.

Não é muito divulgado o fato, mas tão importante quanto o desenvolvimento dos motores menores e mais leves, foi, para Santos Dumont a chegada da madeira de araucária ao mercado europeu: tinha as qualidades necessárias ao inventor do avião.

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Escrevemos milhares de poesias, pintamos milhares de quadros, tiramos milhões de fotografias, construímos milhares de casas e milhões de artefatos com madeira de araucária. E elegemos governantes vinculados ao Capitalismo Selvagem, que permitiram a extração predatória da araucária até ela ser impiedosamente extinta. É conhecido o episódio do arrogante empresário arrotando poder: “eu ficarei contente se puder cortar o último pinheiro do Paraná”. Desde o Primeiro Império se pensa em proteger as árvores da madeira, mas efetivamente nada foi feito. A proibição de corte de araucárias chegou tarde demais. Extinta a araucária, o avanço é sobre as espécies amazônicas – até acabar com essas também.

Qualquer gralha azul tem mais juízo que nós.

Trezentinha

ALGUMAS REFERÊNCIAS

– CASTELLA, Paulo & Britez, Ricardo Miranda. A floresta com Araucária do Paraná. Brasilia, FPFPr, 2004.

– Catálogo. Pinheiros, galeria. Curitiba, Solar do Rosário, 2006.

– STRAUBE, Ernani Costa. Símbolos: Brasil, Paraná, Curitiba; histórico e legislação. Curitiba, IHGEP, 1944.

– MARTINS, Romário. Livro das árvores do Paraná. Curitiba, EGP, 1944.

Pintores da paisagem paranaense. Curitiba, Solar do Rosário, 2005.

– Koch, Zig & CORREA, Maria Celeste. Araucária; a floresta do Brasil Meridional. Curitiba, Olhar Brasileiro (1ª edição 2002, 2ª edição, 2010).

– MAACK, Reinhard. Geografia física do Estado do Paraná. Rio de Janeiro, J.Olympio, 1981.

– IMAGUIRE Junior, Key et allii. A Casa de Araucária. Curitiba, Instituto ArquiBrasil, 2011.

FETICHE

OBSERVAÇÃO: a primeira foto é de Henry Milleo, publicada na Gazeta do Povo de 21/03/2007. O sr. Moacir Antonio Carraro é dono da Fazenda Santana, onde fica o pinheiro suposto como o mais antigo do Paraná, com 800 anos de idade e 45 metros de altura.

A foto em P&B do final foi achada num sebo, e não tem referâncias.

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