OS CINCO SENTIDOS NA CIDADE

12 de novembro de 2014 por keyimaguirejunior

(Crônicas publicadas originalmente no “Diarinho” de Itajaí, setembro/outubro 2014)

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1, olfato

Várias vezes, em conversa com moradores de outras cidades, falei de características específicas – que elas, por estarem habituadas, não percebiam ou não gostavam.

Há tempos, um amigo me contou – com jeito de quem relata uma perversão – gostar de cheiro de cocô de gado – que o remetia a férias em seu tempo de criança, no sítio dos avós. Para mim, o cheiro rural mais marcante é o das sapecadas de pinhão – a queima das grimpas secas de araucária sobre pinhões enterrados, para cozinhá-los.

Mas muitas cidades têm – ou tiveram – cheiros específicos, que sempre se identifica com elas e apenas com elas, mesmo sem serem exclusivos. Por exemplo, cheiro de torrefação de café, de padaria ou de churrascaria, acho que existem em toda parte.

Vão aqui alguns odores – entre os agradáveis – que sempre associo às cidades em que os conheci.

O mais impactante com que já me deparei, foi ao desembarcar em Belém do Pará. Depois de horas no ar condicionado do avião, quando a porta se abriu e cheguei à escada, a primeira sensação foi grandiosa: cheiro, nem mais nem menos, de floresta amazônica… A cidade tem – ou teve, como ouço dizer – outros odores exclusivos: no fim da tarde, as pessoas lavavam as calçadas, e uma umidade agradável subia no calor da noite formando, junto com as mangueiras, algo como “cheiro de noite amazônica”.

Um que já constatei ter sido extinto é o cheiro de côco em São Luis do Maranhão. Nas imediações do palácio do governo antigo, acho que havia algum processamento de produto do coqueiro. Principalmente nos fins de semana, com menos trânsito de carros, o cheiro era denso, quase palpável. E associado com um ruído, também ele característico, do vento nas palmeiras, mas os sons são outro assunto…

Diante da Catedral Jesuítica de Salvador, espalha-se o cheiro das frituras de acarajé em dendê das baianas – agradável para viajantes mas, para moradores, talvez um pouco enjoativo.

Em Curitiba, a partir do bairro Rebouças, se espalhava o cheiro do sapeco da erva-mate – um odor rural em plena área industrial da cidade.

Tijucas – antes da ponte… – rescendia às balas de banana da fábrica Edú. Não sei se ainda existe a fábrica, não tenho mais visto nos mercados.

Treze Tílias ainda cheira a pasteurização de leite…

Cheiro ruim, nas cidades, é o que mais tem. Cheiro de carros – das oficinas de lataria, de combustível, de escapamentos – mas também de esgotos, de poluição,de lixo. Nas áreas industriais, então, sem comentários: fábricas de papel e curtumes são insuportáveis.

Mas o chato é pensar que os bons cheiros se retiraram ou estão sendo encobertos pelos maus. Dos mencionados aqui, poucos sobreviveram. Em compensação, os fedores, esses ficam.

Faça um exercício de cidadania – procure os odores na sua cidade. São referenciais urbanos, marcas de lugar e de tempo que podem ser perdidos com facilidade e rapidez.

     Podem estar meio escondidos – nas quitandas, nas panificadoras, nas pizzarias com forno de lenha – mas pode ser uma busca gratificante, apropriadora…

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 2, audição

É consensual: dos nossos sentidos, o que mais sofre na vida urbana atual, é a audição.

Por incrível que pareça, a nosso favor só existe um serzinho que pesa umas poucas gramas e aliás é a mais bonita das criaturas vivas. Nós o achamos insignificante e desprezamos até quando morre: “morreu como um passarinho”…

Evidente que essas frágeis criaturas não são páreo para a violência do trânsito, da verticalização e do adensamento das cidades – e, como todos os outros animais, em breve desaparecerão do nosso convívio.

Vai aí muito da cegueira e da prepotência dos humanos, que parecem se comprazer em torturar uns aos outros. Há décadas vi, em Recife, diante da Igreja de São Pedro dos Clérigos – uma das mais importantes do país – no pequeno Pátio de São Pedro, o morador de um sobrado que tinha, na fachada, dezenas de gaiolas com aves canoras. Não que eu goste de gaiolas, muito pelo contrário, mas essa pessoa colocou entre elas um microfone e caixas de som que espalhavam o canto das aves por uma grande área da cidade antiga.

Na visita seguinte, não vendo mais essa instalação, perguntei por ela – e me informaram que o cidadão fora obrigado a retirá-la, “o barulho incomodava”. Espero que os bichinhos estejam pelo menos pela zona da mata, alegrando as árvores, já que os humanos não querem saber deles…

É o último som da natureza que ainda temos. O do mar, só prá quem acampa na beira da praia; o do vento nas árvores – bem, não há mais árvores, e o som das ventanias nos edifícios é sinistro como em filme de terror.

Recentemente, nos tiraram um dos poucos sons agradáveis que nos ajudavam a organizar o dia, com beleza musical: o dos sinos. Independente das fumaças da arrogante laicidade que assola o país, foi um crime hediondo dos políticos contra a cultura brasileira, onde o som dos sinos sempre esteve presente.

Em compensação, a agressão sonora é cada vez mais violenta e presente, permanente e insuportável. As “leis do silêncio” são insuficientes e, sua aplicação, pusilânime. No trânsito é onde é pior – mas o engenho humano parece que se compraz em criar novos instrumentos de tortura diariamente.

O Brasil como país não dá um mínimo de segurança a seus habitantes honestos – que têm que se trancar em casa a sete chaves e não podem desdenhar nenhum item para colocá-los a salvo dos bandidos. Daí a sinfonia de alarmes dia e noite nos nossos ouvidos.

Não deveria ser necessário legislar sobre isso – é um dever de civilidade de todas as pessoas. Como regra, nenhum som pode sair do recinto onde é produzido: seja carro, garagem, teatro ou o que for.

Os mais recentes instrumentos de tortura em uso nas cidades são os usados na jardinagem. As “máquinas de cortar grama”, que produziam decibéis suportáveis, foram substituídas pelas infernais roçadeiras a gasolina e, pior do que elas, uns “tubos sopradores” – ou seja lá qual for o nome tenham – um som que se sobrepõe ao das moto-serras cortando as últimas árvores.

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3, que gosto tem uma cidade?

O que nela se come, é evidente. Mas para ser o gosto de uma cidade – e não um dos sabores de uma cidade – queremos falar do que é marcante, diferenciado das demais. Porque há sabores que são universais ou quase – e, em tempos de globalização, poucos são estritamente locais.

As particularidades a seguir, na época em que as conheci, eram “exóticas” para um paladar sulino – e continuam surpreendentes, acho. Pelo menos, não causam mais espanto.

Começamos “lá em cima” – nas naus catamarãs que fazem o percurso fluvial entre Manaus e Belém. Um percurso de três dias, uma experiência de brasilidade insubstituível. Porque, embora transportem também viajantes, a quase totalidade dos passageiros é população em trânsito entre as cidades das margens do Amazonas. As refeições estão no preço da passagem – e é muito elogiada pelos passageiros, bom critério para se avaliar a comida comum em todas as cidades do Norte do Brasil.

Bem, o arroz é quase papa; o feijão (do marrom) é saboroso e a carne contém aí uns setenta por cento de gordura, o que é considerado excelente, e a farinha é o mais curioso. Acompanha a refeição com abundância, e vem à bandeja em pelotinhos duros, lembrando sagu. Bom gosto, sim – mas difícil de mastigar. Quando a gente estranha, dizem que é muito boa – e que nós não sabemos o que é farinha, visto que comemos talco… Sobremesa, um tolete de marmelada puro e simples.

Em São Luis, fui comer um cachorro quente na rua – carrinhos iguais aos nossos, anunciando o sanduba por esse nome. Me surpreendi quando o pão foi aberto e recheado com carne moída, tirada em porções de um tabuleiro. Fiquei preocupado, mas o vendedor me garantiu que era carne de gado. E o tempero, estava bom… Os costumeiros ketchp, mostarda e maionese felizmente não eram usados ainda – em compensação, a pimenta era de primeira. A vina era totalmente desconhecida, mesmo nos açougues. Se a gente explicasse, achavam que era lingüiça…

Na cidade de Goiana, uma das mais antigas do Brasil, um amigo fez questão de nos apresentar acepipes já então em desuso, conhecidos de poucos tradicionalistas. A carne-de-sol – e é melhor não ver como é vendida nas feiras… – é grelhada em pedaços grandes, do qual se tiram lascas na medida em que assam. Nenhum tempero além do sal do preparo original.

Curioso prato, considerado “papa fina”, é o siri mole, cozido com bredo. O bicho é capturado ao abandonar sua casca e antes de formar uma nova. Deve ser muito antiecológico, mas é saboroso apesar de que, como disse a Marialba, “dá sensação de estar comendo aranha”…

Ainda no Nordeste, em Maceió, um amigo nos ensinou a comer, no café da manhã, inhame com manteiga de garrafa. Dá bastante sustança… e gases.

Em todo o litoral brasileiro, o preparo de frutos do mar tem variações sutis ou não, mas o sabor dos peixes e outros personagens, domina qualquer preparo.

Menos em Minas – mineiro gosta é de frango e porco, com uma riqueza de preparo esplendorosa. Como não podia deixar de ser, nota-se uma proximidade com a comida da “rota tropeira” dos estados do Sul. Fora de Minas, nunca encontrei frango ao molho pardo, nem o prato da predileção do JK e minha: frango com quiabo.

O Sul, todos sabemos, é carnívoro para além da lógica alimentar e nutricional. Há, além do consumo de carnes grelhadas quase sem nuances locais, algumas honrosas “ilhas” com culinária influenciada pela imigração européia. Ninguém vai a Curitiba sem passar pela comida veneta estilizada de Santa Felicidade – nem pelas cidades do planalto catarinense sem completar qualquer refeição com um apffelstrudel submerso em nata – que aliás não se sabe o que é do Paraná prá cima…

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4- o visual

Assim como as pessoas, as cidades deveriam ter uma fisionomia própria, inconfundível. Falo de uma paisagem construída – não da identificação com uma configuração natural, como por exemplo, o Pão de Açúcar com o Rio de Janeiro.

Os Planos Diretores deveriam prover esse aspecto, ao qual podem contribuir seguindo tendências da própria cidade. Estimulando desde os naturais, como vegetação – exemplos, mangueiras de Belém, palmeiras de São Luis, araucárias de Curitiba, a figueira de Floripa. Mas também o fator construído – e nesse aspecto, quem dá uma força imensa são as áreas históricas das cidades. Ouro Preto, Paraty e Diamantina são inconfundíveis, pelos calçamentos e pelas construções antigas. Se deixar por conta do mercado imobiliário, ficam todas iguais dentro da mediocridade da arquitetura contemporânea. Aí, apenas o dinheiro manda, o bom gosto, originalidade e qualidade do projeto não valem coisa alguma.

As relações de uma cidade com sua geografia determinante, deveriam ser exploradas intensamente para se chegar a uma paisagem. Praias, rios, montanhas – não um convívio forçado e destrutivo, exploratório – mas objetos de agenciamentos respeitosos, ambientalmente corretos, paisagisticamente valorizados. Grandes parques e vias pensadas não apenas em função do tráfego, mas do uso da população e da paisagem urbana.

Evidente que a administração pública só vai se preocupar com o visual das cidades sob pressão, mas os moradores têm sua responsabilidade. Um exemplo que me ocorre é Manaus – salvo uma ou outra praça, nunca vi cidade brasileira tão hostil à vegetação – entende-se que estão rodeados pela maior floresta do planeta, mas a vegetação é pouquíssima, os jardins quase inexistentes.

A presença de monumentos é importante dentro da paisagem – uma venerável igreja, um edifício público marcante na história, construções que abrigaram fatos da configuração da cidade – são de se valorizar assegurando-lhes um entorno adequado. A cidade feita para ser monumental é um caso à parte – Belo Horizonte e Brasília, que foram das pranchetas para os terrenos, apesar de já desvirtuadas, têm uma fisionomia própria assegurada.

Atualmente, nossas grandes cidades têm um aspecto horrendo e difícil de resolver: as periferias. Apresentam, a quem nelas chega, vias ladeadas por quilômetros de sub-habitação, cortiços e favelas. No centro, regiões inteiras de muquifos, prédios abandonados, tudo pixado. Há quem diga que os morros que rodeiam o Rio de Janeiro e Floripa, tomados por favelas, são bonitos à noite, um painel de luzes como fundo para a cidade. Mas isso é tripudiar cruelmente com a realidade social do país.

A poluição visual representada pela publicidade não pode interferir com a arquitetura nem com seu entorno – o que é, convenhamos, questionar sua própria finalidade e inserção no sistema capitalista. Mas há maneiras de anunciar sem enfeiar ainda mais a paisagem da cidade.

Nem vamos tocar na presença deletéria e opressiva desse objeto volumoso, barulhento e mal-cheiroso que é o automóvel. Nossos políticos querem impor uma sensação de riqueza e conforto na população: todo mundo tem carro, então a situação deve estar muito boa. Mas estão inviabilizando uma série de aspectos da vida urbana com isso.

Os centros históricos o demonstram: quando os carros foram retirados da área central de São Luís, a região ficou lindíssima, sobressaiu a arquitetura dos “palácios de azulejos” e a população se apropriou dela. Ouro Preto e outras cidades históricas do Brasil precisam desesperadamente dessa atitude, enquanto é tempo.

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5, o tato: “sentindo” a cidade

O que nossas sensações táteis percebem, na vida urbana, vai muito além do que determina o clima. Apesar de termos excesso de calor por conta dos prédios e do asfalto – ou de frio, quando ventos árticos sopram por entre construções altas – conforto ou falta dele são difíceis de avaliar quando se fala de uma cidade como um organismo único. Quanto maior, mais complexa: quantos climas simultâneos tem uma enormidade como São Paulo? E nem sempre, o clima determina um equilíbrio, como no caso da nordestina João Pessoa, onde o calor é amenizado pelos eternos ventos alísios.

Em grande parte – excluindo os sentidos mencionados nas crônicas anteriores – sentimos a cidade com nossos pés. Reparem nisso: raramente outra parte do corpo toca naquilo que é a cidade, suas áreas comuns a todos os cidadãos… E nossos pés, calçados ou não, têm uma vida sofrida nas cidades brasileiras: calçadas, como qualquer outra coisa, precisam de manutenção. E nossas prefeituras não gostam de obras que não dá prá inaugurar com festa… Mas “gostam” de contratar empreiteiras que esburacam tudo e fecham de qualquer jeito – na pressa de terminar a obra e receber o dinheiro. Na hora da entrega – e da fiscalização, se é que isso existe – até parece, com boa vontade – que ficou certo, mas depois vão rachar, afundar, soltar as peças, gerando tropeçadores.

Vamos reconhecer que o problema é complicado. Alguns calçamentos antigos, feitos com lajes de pedra, são excelentes, bonitos, enfrentam os séculos. Outros são difíceis – quem já subiu ladeiras de Ouro Preto, sabe o quanto aquelas pedras, deslocadas pelos carros, são a maior parte da dificuldade para caminhar.

Parecem práticas umas lajes de concreto com ranhuras que as fazem parecer pastilhas, favorecem desenhos interessantes: encontram-se muito nas cidades do interior de São Paulo, formando o mapa do estado. Mas são frágeis, é só passar um carro em cima, racham e soltam.

Muitas cidades estão adotando os chamados, pedantemente, de “blocos de concreto auto-travado” – que travam é a circulação dos pedestres, visto serem muito feios, com acabamentos precários e altamente anti-higiênicos. Sendo porosos, retém sujeira e umidade que favorecem proliferação de bactérias. Também se deslocam com facilidade – a base é apenas areia, que a chuva lava – e têm mínima durabilidade.

Um dos melhores calçamentos, muito usado na Europa com variações regionais – é a chamada calçada portuguesa, ou petit-pavê. Ficaram famosos com as calçadas da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro; e os de Curitiba, desenhados por artistas paranaenses. São aplicados formando desenhos, os intervalos preenchidos com cimento, o que cria uma textura que impede se tornem escorregadios. Bem executados e bem conservados, tornam-se um atrativo na paisagem urbana.

De qualquer modo, desde as pedras de Ouro Preto, às lajotinhas paulistas, ao petit-pavê – dependem apenas de conservação para oferecerem conforto aos nossos pés urbanos…

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