13 LISTAS DE GIBIS PREFERIDOS – 7, ARGENTINOS

6 de outubro de 2014 por keyimaguirejunior

Em muitos aspectos, a Argentina tem uns cinqüenta anos de dianteira sobre o Brasil. Antes de falar de gibis: a vida em Buenos Aires tem muito mais de civilização e civilidade que no Brasil, pode-se até andar pelas ruas – ao contrário daqui. A maior parte do que a nossa imprensa alardeia sobre a crise deles é para fazer parecer que a nossa é menor. Mas o nosso assunto são os gibis. Nós temos uma boa produção e vamos indo bem – principalmente em Curitiba – mas eles vão lá longe, com publicações de qualidade e consistência. As duas antologias “Fierro” – nome do grande gibi deles – são boas para se conhecer a mais recente produção argentina, mas absolutamente insuficientes para dar conta da amplidão e riqueza do quadrinho portenho – infinitamente mais interessante que a pobreza mental dos super-heróis. Para quem quiser comprovar, aí vão umas dicas.

Quino

QUINO. Não é um fenômeno argentino, nem mesmo latino-americano: é universal. Mafalda é reconhecida como um dos melhores quadrinhos já publicados no planeta. E nem é a única filha do Quino: seus cartuns são sempre obras-primas, cada um deles concebido e executado nos limites da perfeição. Não preciso dicar uma edição da Mafalda, tem de vários tipos e em todos os países. A portuguesa, em português de Portugal, tem um charme a mais…

TRILLO & ALTUNA. Os álbuns “eroticômicos” dos autores são excelentes: Merdichewski, Las puertitas del Sr.Lopez; El ultimo recreo. Mas se for prá dar uma dica, recomendo “El loco Chavez”, na edição do El Clarin, de 2004. O serviço gráfico não é lá essas coisas mas, no mais, o gibi é primoroso. Custa uma micharia de 15 pesos em qualquer livraria da Corrientes.

D.SimonDOM SIMON. Foi o meu primeiro quadrinho argentino. As aventuras do desastrado inventor saíam numa página inteira da revista “Hobby”, já no início da publicação. Havia uma pilha na casa dos meus pais – onde gibi não entrava. Nos anos 30, era desenhado por Skitt, nos 40 por Mirco e Franchot, todos muito bons. Não conheço nenhuma antologia ou referência ao personagem nem aos autores, o que é uma pena.

INODORO PEREYRA, de Fontanarrosa, Ediciones de La Flor. Esse é um prato para paladares refinados. O desenho do autor é caligráfico, altamente expressivo, usando poucas linhas e manchas. No entanto, tudo é contado: as agruras, as basófias, as aventuras do personagem, que mora num rancho perdido na amplidão dos Pampas. É pontilhado de referências ao Brasil – já numa das primeiras aventuras, há o encontro entre ele e Antonio das Mortes, e há mais referências à musica brasileira. A editora lançou em 2009 um livrão com todas as aventuras do gaúcho, seu cão Mendieta, Eulogia e outros personagens geniais.

LiniersLINIERS. A Zarabatana de Campinas publicou até agora seis álbuns do autor – todos absolutamente geniais, uma fantástica galeria de tiras com pingüins, homens misteriosos, azeitonas, meninas devoradoras de livros com seu gato Fellini, duendes, Picasso, faróis, robô sensível, passarinhos, ovelhas, o próprio autor, uma sucessão inesperada de histórias surreais e engraçadas. Uma das melhores tiras dos últimos tempos!

OESTERHELD. A história é conhecida, a ditadura militar argentina não ficou contente com prender, torturar e desaparecer com o autor, fez isso também com suas filhas e mais parentes próximos. A Martins Fontes publicou dois grandes álbuns com as histórias de década de setenta do Eternauta, desenhadas por Solano Lopez. A história é uma alegoria – se bem entendi – à luta dos Montoneros contra os ditadores. Mas a produção do autor é maior que isso – ele tem Sherlock Time, com Alberto Breccia e também com esse autor, biografias de Che Guevara e Evita Perón. E mais coisas.

Breccia

BRECCIAS, Enrique (o pai) e Alberto ( o filho). Ambos grandes desenhistas, com ampla e densa contribuição ao quadrinho do século XX. Mort Cinder, Um tal Daneri, La stella scomparsa, La guerra del desierto – publicadas na Itália dos anos setenta, quando era perigoso publicar na Argentina. A criatividade gráfica vai muito além do convencional, há a introdução surpreendente de técnicas para dar o clima das histórias; como aguadas no citado Mort Cinder, chegando ao abstracionismo sem perda da continuidade da narrativa. Não lembro de outra edição além da italiana.

MAITENA. Essa todo mundo conhece: a bonitona neo-feminista. Os álbuns brasileiros são bons, mas prefiro as edições argentinas da Lumen que, além do idioma original, contém as séries completas de “Mujeres alteradas” e “Superadas”. A porteña é afiadíssima na crítica aos modismos maneirismos e manias da classe média argentina. Que é muito parecida com a brasileira, só que menos cafona.

PatoruzúPATORUZU. Também o conheço desde criança, e me fascinei com o encanto daquele universo desconhecido. Tinha o indião poderoso – quase um super-herói, só que menos chato – suas boleadeiras, seus parentes (como o estróina Izidoro), vários deles se desdobrando em revistas próprias. Mas sempre, aqueles livrinhos horizontais, tipo Mafalda, que eles apreciam muito por lá. Continuam saindo reedições coloridas, o que me parece uma concessão comercial com a qual a historinha não ganha muito. É fácil de achar, mesmo nos sebos brasileiros, as antigas edições em B&P.

SALINAS. “Cisco Kid” é uma dessas preciosidades pouco conhecidas. De recente, só um álbum da L&PM de 1987 e um da Futura (portuguesa) de 1983. Ambas antologizam produção de tiras do autor nos anos cinqüenta. Não sei se algum dia pôde desenhar páginas dominicais ou revistas, se pudesse teria sido algo no nível de seu ídolo Harold Foster. E se não as fez, perdemos um clássico comparável ao Príncipe Valente para o western.

MORDILLO. A maior parte da produção do Mordillo é de antes dos programas digitais de colorização – então, além da enorme produção de bonecos narigudos e olhudos, fico pensando como ele conseguiu aquelas pranchas coloridas espetaculares. Todos os álbuns dele são muito bons – recomendo o “Mordillo Football”, edição Lumen/Tusquets de 1982. Ele a dedica ao Pelé, que faz a apresentação. Deve ser a razão pela qual seus trabalhos são mais divulgados no Brasil que na Argentina…

COPI. É tão internacional que demorei a descobrir que não era francês… Mesmo o único álbum que conheço, “Las viejas putas”, foi feito a partir da edição francesa. As histórias, em desenho minimalista e caligráfico, vão do insano ao delirante e ao surreal. Algumas vezes, o andar da ação de um desenho para o outro – ele não usa quadrinhos – é um risco que muda a expressão da “mulher sentada”.

Observação: não encontrei um gibi do Arturo del Castillo para comentar. Se alguém tem para me emprestar, gostaria de acrescentar neste post.

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