D.QUIXOTE, UM GIBI DOS VELHOS TEMPOS

3 de outubro de 2014 por keyimaguirejunior

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Diferente de outros gibis postados neste blog – Sesinho e Gerônimo -, não tive assesso a uma coleção completa da revista para consulta. “D.Quixote” circulou durante dez anos, de 1917 a 1927 – tendo sido semanal, supõe umas quinhentas edições – das quais, achei 21 na Fígaro. O pior é ser uma amostragem descontínua, como se observa na relação abaixo: há vácuos de cem edições e quem acompanhou a trajetória do Pasquim, por exemplo, sabe que em dois anos muita coisa muda – apesar de que, há um século, as coisas eram mais lentas.

O(s) proprietário(s) original(is) não era(m) bom(ns) colecionador(es): o estado da revista é precário, faltam capas e pedaços de páginas – e todas estão se desfazendo por conta da umidade.

Não há mudanças radicais na trajetória da revista. Os editoriais, algumas vezes auto-elogiosos, dizem tratar-se da “mais importante revista brasileira de humor” – o que se discute, visto ter circulado junto com “O Malho” (1902/1954) e “Careta”(1908/1960). Mas foram muitas as revistas de fórmula semelhante no período, todas se apoiando bastante no desenho e no cartum. A fotografia, então impressa com clichês de zinco, era muito precária. Fica para ser demonstrado, mas acho que só o off-set vai instalar definitivamente a fotografia nos impressos, desbancando o desenho e o cartum para uma posição secundária.

D.Quixote é uma criação do genial Bastos Tigre, tendo a primeira edição saído em 16 de maio de 1917. Entre os vários pseudônimos que usou, como editor era D.Xicote, o diretor gerente, Luiz Pastorino. Mais tarde, este será o único nome do expediente, sendo mudado ao longo do tempo.

O prestigiamento do cartum sempre esteve na ordem do dia, aí incluída a descoberta de novos talentos – na secção denominada Neo-autores…

Na mencionada amostragem, localizei quinze nomes, dos quais alguns se tornaram ícones na caricatura brasileira: KLixto, Raul, Storni, Yantok, Belmonte e o grande J.Carlos. Que eu saiba, nenhum era exclusivo da D.Quixote.

O cartum não se limitava a ilustrar piada ou anedota – era comum sua utilização na publicidade, onde dominava o desenho como ilustração. De poucas linhas a página inteira, da simples ilustração dentro de secções até se expandir em história em quadrinhos. Chegaram até aí Seth, Jefferson. KLixto, Santiago, Yantok e Romano – sempre considerada nossa precária amostragem.D.Quixote 1

Mas o humor não se limitava ao cartum e à caricatura – havia secções de piadas e causos, pelas quais a revista pagava “a título de animação”.

Assim também as crônicas, na maioria de humor e crítica, os editoriais e a muito presente poesia. O próprio Bastos Tigre era excelente na poesia para publicidade – tinha agência – e compôs jingles clássicos, lembrados até hoje:

Joãozinho andava pálido

                       anêmico

                       apático

      tanto que o papai falou:

      – Esse menino precisa médico!

      Mas a mamãe é prática

      faz logo o diagnóstico:

      – Isso são verminoses

      tragam-lhe uma colher

      do Licor de Cacau Xavier!

     Paródia de fôlego comparece na última capa da revista, até pelo menos a edição 218: “Os bromilíadas”, propaganda do xarope Bromil, referenciado aos Lusíadas…

D.Quixote 177

Num dos editoriais, pescamos uma pérola. Comentando a entrada de Humberto de Campos no Asyllo Brasyleiro de Letras, diz:

     “É tão raro ver penetrar alguém naquelle Cenáculo pela larga porta dos méritos literários que o fato constitue um quase escândalo acadêmico”.

     Pois, quem disse que os tempos mudam?!

Os “reclames” anunciam roupas, objetos – machinas dactylographicas, tesouras, carimbos, equipamento doméstico (móveis e eletros) e outros. Produtos de beleza, raros. Numa proporção impressionante, o que mais se anuncia são remédios.

D.Quixote 93

Outros colaboradores de texto são Viriato Corrêa e Mendes Fradique – que depois reuniu suas colaborações em vários livros, dos quais o mais conhecido é “História do Brasil pelo método confuso”.

Seria de mito interesse resgatar a totalidade da série “A caricatura e os caricaturistas”, de Gastão Penalva. Na nossa amostragem, comparece com dois capítulos nas edições 468 e 492. Interessa ao entendimento dessa arte, que aqui se auto-analisa, como quem toma consciência de si durante um período importante.

“D.Quixote” usa a fórmula convencional de seu tempo: humor desenhado apoiado na publicidade, para criticar. Ridendo castigat mores, n’est-ce pas? A geração seguinte de revistas – Cruzeiro, Manchete – vai priorizar a fotografia, diminuindo o teor crítico.

D.Quixote 182

Prá quem não sabe, Chiquinho é o Buster Brown, estrela do Tico-tico.

LEITURAS INDICADAS

– LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro, José Olympio, 1963.

– MENEZES, Raymundo de. Bastos Tigre e a Belle Époque. São Paulo, Edart, 1966.

– LUSTOSA, Isabel. História do Brasil pelo método confuso; humor e boemia em Mendes Fradique. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993.

AMOSTRAGEM CONSIDERADA

– Edição mais antiga: nº93, Ano 3, fevereiro de 1919.

– Edições intermediárias: 98, 157, 176, 177, 179, 181, 182, 188, 193, 194, 195, 199, 218, 235, 337, 468, 492.

– Há duas em que, faltando pedaços da capa, não são identificáveis.

– Edição mais recente: nº495, Ano X, novembro de 1926.

D.Quixote 194Secção de fofocas e maledicências. Por falar em maledicência, viram o moderníssimo “macaquinho” da moça do cabeçalho?!

 

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