O CONJUNTO DA REITORIA E SUA CAPELA

18 de setembro de 2014 por keyimaguirejunior

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     Do acervo de edificações da Universidade Federal do Paraná, constam alguns dos itens mais importantes para a Arquitetura de Curitiba. Entre eles, o símbolo oficial da cidade – a sede da Santos Andrade -, o das Ciências Agrárias, o conjunto da Reitoria e a Casa da Estudante Universitária, entre outros. Conta-se o percurso da Arquitetura no Paraná usando apenas essas edificações.

Já contei a história dessas construções, de maneira sumária – ver bibliografia – e aqui deixo apenas uma discreta posição no debate sobre a Capela da Reitoria.

Temos em Curitiba dois edifícios públicos diretamente vinculados ao Modernismo de tradição corbuseriana, a também dita “escola carioca”: o Palácio Iguaçú e o conjunto da Reitoria.

Os dois foram projetados por David Xavier de Azambuja, que tem um percurso profissional típico para sua época. Nascido em Curitiba, cursa Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, no início dos anos trinta do século XX. É a época em que Lucio Costa tenta introduzir o Modernismo no Brasil – o que reuscirá ao longo dessa década usando, entre outros recursos, o de trazer Le Corbusier para conferências na ENBA.

As duas obras de Azambuja do período em Curitiba, mostram o uso do vocabulário preconizado pelo arquiteto suísso: os grandes volumes suspensos sobre pilotis para liberar as áreas térreas, o brise soleil (no caso, fixos); rampas de circulação, paredes laterais cegas. Também a volumetria do auditório remete à proposta corbuseriana para o Ministério da Educação e Saúde.

Reitoria

O contrato para desenvolvimento do projeto – escolhido entre os dois apresentados à comissão encarregada – é de 1952/3, sendo a obra concluída em 1958. Desconheço as razões para a modificação do projeto original do auditório, sendo construído o projetado por Rubens Meister.

A fidelidade de Azambuja aos princípios modernistas aprendidos na ENBA resultaram num edifício que, conquanto com muitos méritos como composição arquitetônica, é climaticamente desconfortável. Talvez por fidelidade excessiva aos preceitos modernistas, veio a gerar o boato de ter sido projetado para o Nordeste do Brasil e usado em Curitiba devido a tramitações burocráticas. Essas “lendas urbanas” existem também em relação a outras edificações da UFPR.

Mas desde seus primeiros anos, foi considerado como um dos ícones da modernidade da cidade, permanecendo até hoje como um de seus monumentos mais importantes e tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Estadual.

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     O edifício D.Pedro I do conjunto da Reitoria foi ocupado, desde sua conclusão, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – como atesta ainda hoje o letreiro na elevação para a Rua XV de Novembro – contendo toda a área humanística incorporada a partir da faculdade administrada pelos Irmãos Maristas, e que até então funcionara nas dependências do Colégio Santa Maria, ao lado do Guaíra.

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     A presença da capela católica é portanto orgânica e sua inserção projetual no conjunto, natural.

Se excluirmos um erro de projeto – a porta de entrada fica atrás de uma enorme coluna e abrindo para outra – a capela é um bom espaço, em sua simplicidade retangular. O vitral colorido ocupa toda a parede atrás do altar e proporciona excelente luz natural.

Não a conheci antes do estado atual – no qual se percebe claramente, como é o correto, o que tem de original e o que decorreu de adaptações às liturgias contemporâneas. A imagem de NS do Carmo é discreta e de muito boa feitura, com um sorriso simpático leonardiano… Com o crucifixo atrás do altar, são as únicas imagens católicas do espaço. Não é excessivo, não há porque deflagrar uma ação iconoclasta por tão pouco. Não imagino o que possam representar como impedimento a cultos não católicos no espaço – a quem podem ser ofensivas?! O próprio vitral é abstrato e todo o ambiente pertence ao conceito original da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Muito pelo contrário, a atitude de respeito à arquitetura original do edifício deve ser estendida aos outros espaços do grande Conjunto da Reitoria. Bastante maltratados por mais de sessenta anos de uso intensivo, merece, por seus valores culturais e por sua condição oficial de patrimônio paranaense, que outros ambientes recebam esse mesmo tratamento, respeitoso e criterioso. O desgaste e a renovação fazem parte da vida de um edifício – o que não significa deixar de atualizá-lo para as características contemporâneas de suas funções, como no caso da capela.

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 Leituras

– BARONOV, Ulf & DALEDONE SIQUEIRA, Márcia. UFPR: História e Estórias. Curitiba, Editora da UFPR, 2007.

– IMAGUIRE JUNIOR, Key & CASTRO, Cleusa. A Arquitetura da UFPR. IN: BURMESTER, Ana Maria et allii. UFPR: 90 anos em construção. Curitiba, Editora da UFPR, 2002.

– LOPES LEITE, Renato & COSTA DE OLIVEIRA, Renato. UFPR 100 anos: Reflexões. Curitiba, Editora da UFPR, 2013.

– XAVIER, Alberto. Arquitetura Moderna em Curitiba. Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, 1985.

OBSERVAÇÕES

1 – A flâmula foi achada pelo João Antonio Bührer d’Almeida. Observe-se que é uma “Lembrança de Curitiba” – portanto, os edifícios da UFPR dão à cidade seu ícone de tradicionalidade, com o edifício da Santos Andrade; e o de modernidade, com o Conjunto da Reitoria. Não consegui datar ainda, mas suponho que seja dos tempos do ufanismo pelo Centenário da Emancipação Política do Paraná – início dos anos 50.

2 – As fotos são de ontem, isto é, 17 de outubro de 2014, e agradeço à PROEC pela autorização de acesso.

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