O FORTE DA ILHA DO MEL: MALVINAS À BRASILEIRA

11 de agosto de 2014 por keyimaguirejunior

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     As fortificações portuguesas no Brasil, me evocam uma cena de filme – que aqui fica de presente a quem quiser usá-la.

Noite fechada, chega uma carruagem escura, com três parelhas de cavalos negros, diante do Escurial. Desce um personagem alto, encapuzado e embuçado, enormíssimo chapéu e capa até os tornozelos, botas – tudo preto, é claro. Sob a capa, aparece a ponta da espada e o volume das pistolas.

Aproxima-se correndo da porta do palácio e é acolhido por um grupo de sentinelas, com as quais confabula e adentra, some em enormes corredores, salões e claustros. Os sentinelas o deixam com dois soldados que abrem a gigantesca porta da sala do trono – ao fim da qual, sentado no trono, o Imperador da Espanha, aquele sobre cujo império o sol jamais se põe, rodeado por sua corte. Nosso personagem atravessa a sala a passos largos, faz as reverências devidas e diz:

– Senhor, tenho aqui o resultado da missão de espionagem que me foi confiada!

A um aceno do monarca, desenrola diante dele um pergaminho com a costa brasileira detalhada, do Amazonas ao Rio da Prata, com todos os acidentes geográficos representados com a precisão possível à tecnologia cartográfica de então. Em todos os pontos estratégicos – foz dos rios navegáveis, ilhas, entradas de baías – uma convenção assinala a existência de uma fortaleza.

O monarca faz um gesto de desânimo:

– Mais fácil anexar Portugal mesmo…

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     Claro que a situação é reducionista e está mais para Terry Gillian do que para documentário – o que absolutamente não compromete sua verossimilança cinematográfica.

Talvez a estratégia da arquitetura das fortificações portuguesas no Brasil tenha uma lógica difícil de entender em nossos tempos, seu desempenho dá margem a que se imagine cenas como a mencionada. Seria uma fortificação presencial, cênica, sem real poder de fogo.

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     Desde 1765, os vereadores de Paranaguá tratam da necessidade de fortificar a entrada da baía – mas, ao que parece, não queriam pagar por isso, o que dá prá entender. Mas terminou-se por recolher uma quantia significativa, à qual Afonso Botelho de Sampaio e Souza – primo do Morgado de Mateus – agregou outro tanto que trouxera do governo provincial e deu início às obras. Que se prolongaram por cinco anos, ainda hoje nem estádio de futebol se faz nesse prazo.

O governo seguinte – vejam bem, estamos na época da invasão espanhola de NS do Desterro – após uma inspeção a declara inútil e retira os armamentos melhores, deixando a sucata. Estamos no Brasil, entenderam?

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     Na metade do século XIX, a Inglaterra deslancha a primeira fase de sua revolução industrial. As condições favoráveis permitem um aumento exponencial de produção, mas também geram uma necessidade de criação de mercados de consumo que hoje está acabando com o planeta. Mas para o nosso assunto, interessa que o proletário – ainda que na mais negra miséria, como no caso inglês – é mercado, enquanto que o escravo, não.

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     Travestida então de defensora de causa humanitária, a Inglaterra passa a patrulhar os mares, com resultados calamitosos: avistar a bandeira inglesa significa “eliminar” a carga comprometedora, para evitar confronto. Mas não se negue de todo a razão aos bretões; é uma das vergonhas nacionais, termos sido o último país do mundo a extinguir a escravidão.

Em que pesem várias leis feitas sob pressão inglesa – e que, num primeiro momento, agravaram o tráfico – a efetiva proibição só ocorreu com a Lei Eusébio de Queirós, para a qual contribuiu o chamado “Episódio Cormoran”.

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     O “Cormoran” era uma corveta de rodas (laterais?), com 60 metros de comprimento, equipada com seis canhões e tripulada por 145 marinheiros. A serviço da repressão ao tráfico desde o ano anterior, entrou na Baía de Paranaguá para apreender duas embarcações suspeitas – o que afrontou, como é evidente, as autoridades e a população.

Houve áspera troca de correspondência entre a cidade e o navio – e este zarpou, levando consigo os barcos apreendidos.

Avaliando como insuficiente a guarnição do forte (16 soldados), cerca de cinqüenta voluntários parnanguaras embarcaram para a ilha, levando reforço de comida e pólvora.

Ao passar diante do forte, o Cormoran dispara um tiro que, por inépcia ou por se tratar apenas de intimidação, atingiu o morro atrás da fortificação.

Que então responde ao fogo com boa pontaria: um tiro atinge uma das rodas e outro a popa, matando um marinheiro. A boa pontaria dos brasileiros atinge também as embarcações apreendidas que, não podendo mais navegar, são incendiadas pelos bretões.

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     Saindo do alcance das peças do forte, o Cormoran faz parada para reparos e depois segue rota para Santos.

Menos de três meses depois, a citada Lei Eusébio de Queirós endurece com os traficantes e acaba o tráfico – embora a vergonhosa instituição ainda vá sobreviver por quase quarenta anos.

Observações:

– o Forte da Ilha do Mel integra a primeira leva de tombamentos do recém criado IPHAN, em 1938. O tombamento pelo Estado do Paraná é de 1975.

– Não sei a quê se deve esse nome: Forte de Nossa Senhora dos Prazeres. Acho pouco castrense.

– Recomendações de leitura:

* CARNEIRO, David. História do incidente Cormoran. Curitiba, Prefeitura Municipal de Paranaguá, 1950.

* BAUMEL, Hélina Samyra de Souza. Memória da Ilha do Mel. Curitiba, 10ª IPHAN, 2012.

* Fortaleza da Ilha do Mel. Curitiba, SECE/SPHAN, 1985.

– Minhas fotos são de 1980; o desenho é da monitora Ivana Cassuli CAU/UFPR; as páginas antigas do livro de David Carneiro acima referenciado.

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Outra teoria sobre as fortificações portuguesas é que elas não foram feitas para fins bélicos, mas pensando no turismo do século XXI. Se foi isso, acertaram em cheio…

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