BOTECOS E RESTAURANTES DE CURITIBA

31 de julho de 2014 por keyimaguirejunior

(Uma visão mais prá gourmand que prá gourmet.)

      Segundo Lucy Knisley, autora do delicioso – sem trocadilho – “Relish”, o interesse americano por comida com gosto vem do início dos anos oitenta, partindo de New York. Comprova o que escutei do americanófilo Cortiano, na mesma época, após uma de suas inúmeras viagens àquele país: “comida com gosto, nos Eua, só em restaurante chinês”.

     Como sempre acontece, nós copiamos tudo o que a Grande Nação do Norte faz – e mais ou menos na mesma ocasião, começamos a encarar comida como algo mais que alimento. No caso de Curitiba, entram outros fatores – por exemplo, a afirmação de Santa Felicidade como centro gastronômico nacional. Com isso, fica reconhecida a cucina italiana como, além de saborosa, rica de nuances. Na Itália, já se sabe: tudo é arte, mesmo a comida. Mas isso é outro assunto.

     Claro que, muito antes disso, havia onde comer bem na cidade. Há alguns anos, levei meu filho prá conhecer os “pontos” da minha geração, sobreviventes. Ele se surpreendeu: “a tua geração comia bem, heim?!”

     As listagens e considerações a seguir são restritas a esta Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba. Num raio de cem quilômetros, daria prá fazer uma extensa relação com, entre outros:

-Caçarola do Joca, em Antonina

-Lipski, comida tropeira, na Lapa

-Girassol, de Palmeira

-Shapieski, de São José dos Pinhais

     Por fim, essas listas pretendem contribuir para os inventários que estão sendo feitos sobre a gastronomia curitibana – já se disse que comida é o jeito mais seguro para se fazer dinheiro na cidade…

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O inverossímil Armazém Santana. Acredite se quiser, mas ele existe!

– Bar Palácio. Meu preferido há quase cinqüenta anos. Conseguiu mudar de endereço sem mudar a comida nem perder o charme. O garçom Izaltino, depois de trabalhar lá por 30 anos, aposentou-se e fundou o Tortuga, no meio das Mercês, com cozinha bastante semelhante.

– Bar Mignon. É quem segura a tradição dos sandubas curitibanos, que já teve vários estabelecimentos, na Rua XV.

– Bar Stuart. Eles dizem que são os mais antigos da cidade, acredito. Já experimentei quase todo o cardápio, mas o melhor é mesmo a dobradinha.

– Fantinato. É novo em comparação aos citados, mas conseguiu se impor com um cardápio de coisas boas, a carne-de-onça já é famosa.

– Armazém Califórnia. Escondido na primeira quadra da Saldanha Marinho, tem ótima comida árabe, inclusive os doces.

– S.E.B.O.S.A (Sociedade Esportiva Beneficiente dos Operários Santos Andrade). Cada dia da semana, um prato – todos excelentes.

– Costelão do Amantino. Já me aconteceu de dizer a um amigo que tinha almoçado, na véspera, “a melhor polenta frita da cidade”. E ele entendeu na hora: “você esteve no Amantino”. Mas é uma churrascaria, não polentaria…

– Armazém Santana. É desses “mocós de curitibano”, na estrada antiga para o aeroporto. Nem tem cardápio, a dona diz o que “dá prá fazer hoje”. O pierogi frito é fantástico, bem como o cenário de armazém de interior em casa de madeira.

– Vó Rosinha. Discreto e simples – mas tem, bem feitos, aqueles pratos tradicionais em desaparição dos restaurantes – apesar de serem receitas e preparos consagrados pelo tempo.

– Gianfranco. Não é, como se poderia pensar, reduto da comunidade acadêmica do Centro Politécnico… Excelentes massas feitas na casa e buffet de sopas perfeito.

– Carbonel. Para frutos do mar, é o melhor. Ainda não acostumei com o novo local, mas isso terá que acontecer em breve…

DSCN0063A S.E.B.O.S.A. – ainda mais inacreditável!

     Muitos lugares da lista já divulgada (“Gazeta do Povo” de 31/07/14) caberiam confortávelmente no meu estômago, mas não cabem no meu bolso… E temos vários lugares excelentes que não estão na lista do jornal nem na minha:

– o “Trio da São Francisco”: o São Francisco mesmo, a Nonna Giovanna e o Mikado;

– a Galeteria Caxias;

– o Imperial e outros.

     Alguns da relação me surpreenderam: mudaram de lugar e não me avisaram, achei que nem existiam mais… Essa minha logística de pedestre conta muito para os lugares que freqüento.

     Estávamos na charmosa Russe (Bulgária), onde nasceu o Premio Nobel Elias Caneti: eu, Marialba e um casal de vampiros. Entramos num lugar para um lanche – e passamos a examinar as fotos do cardápio, visto que o texto era num inverossímil búlgaro. A um canto da página, uma foto com a indicação: “Brazilian delicious – pao de queijo”. E o mais surpreendente: estava bom, coisa prá mineiro nenhum botar defeito…

     O episódio é para ilustrar que, em matéria de comida, nem sempre é fácil preferir este ou aquele: entram fatores que não são os da própria receita. O acerto ou erro do cozinheiro pode ser alguns segundos a mais de forno – que serão de menos para outra pessoa.

     Alguns tipos de “locais prá comer” são preferidos por estarem mais dentro da logística, da disposição estomacal ou das papilas gustativa no dia. Por exemplo:

– Pizzarias: acho que já tem mais em Curitiba que em Sanpa, toda semana acho um flyer na minha caixa de correio anunciando uma nova. Não tenho uma preferida, prá mim a melhor pizza é a da Lanchonete Itália, na Cândido Lopes.

– Churrascarias: tem várias de comer até morrer, tipo aquele filme “A comilança”. Fico com a Marumby e a do Coxa.

– Confeitarias: essa é fácil, a das Famílias ainda é a melhor.

– Mercearias: aqui é da grande, da venerável, da insuperável América! Mas há outras, cheias de coisas boas, que o paladar aprecia mas o índice de glicemia não…

– Cafés: surgiram vários, em tempos recentes. Lugares simpáticos e refinados, para tomar um capuccino ou um ghiacciato com um docinho e um salgadinho – e pagar por isso, o equivalente a uma refeição. Estão quase desaparecidos aqueles lugares onde só se servia mesmo café – como o da Galeria Lustosa, celebrizado em foto da Vilma Slomp.

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Churasco feito fora do baracão: um quilo de carne em cada espeto.

– Cozinhas étnicas. Como são procuradas por pessoas em busca de sabores bem definidos, costumam ser muito boas.

. Japonesa. Essa tá no meu DNA…todos os que conheço, são bons. Dependem muito do frescor – não da frescura – dos ingredientes, o que a torna incomum.

. Chinesa. Eu gostava muito do restaurante em frente ao CEP, de um senhor chinês idoso. Que mudou ou fechou.

. Árabe. Já diquei o Armazém Califórnia, mas há outros bons.

. Ucraniana. Mesmo em Prudentópolis, só por encomenda.

. Polonesa. Eu gostava do Varsóvia, no Batel, mas parece que também fechou. Cadê a comunidade polaca de Curitiba, pô?!

. Alemã. Aqui a coisa pega, são poucos mas poderosos. Gosto do Schwartzwald e do Cantinho de Eisben.

. Holandesa. Herr Arnold tem pratos excelentes, com influência indonésia.

. Mexicana. A Helena teve um, acho que na 24 de maio. Mas agora, só na feirinha de Domingo.

. Portuguesa. Mas por quê, ó pá, a comida de vocês sempre é tão cara?! Por causa do bacalhau? Bem, vale… O Alpendre era excelente, agora acho que é a Camponesa do Minho a grande representante lusitana. Quem quiser amostra, é o bolinho de bacalhau do Mozart na Feirinha.

. Nordestina. Onde se come um sarapatel de confiança em Curitiba?! Havia uma lojinha perto da Rodoviária Velha onde se encontravam acepipes nordestinos como carne-de-sol, manteiga-de-garrafa e temperos. Atualmente, acho que essa comida só na Feirinha – aliás, exatamente igual à que se come em Salvador, só falta o Pelourinho em vez do Largo da Ordem em volta.

     Bom, espero ter ajudado na pesquisa. Só tem uma coisa: escrever esse post me deu uma fome…

Ópera do Bambu - Key Imaguire Jr & Sérgio Kirdzey - 013014

Confraternização do pacto Tóquio-Varsóvia: quem fica no meio, vira carangueijo…
Aliás a “Opera de Bambu” é uma boa dica também.

          Estou constatando que relacionar bons pontos para exercer o pecado da gula nesta cidade é tarefa para Pantagruel. Alguns que me escaparam:

– Pastelarias. É impressão minha ou o “pastel de vento” é, como lambrequim, prerrogativa curitibana?! Não vejo em outras cidades… As minhas preferidas são o Ton Jão (a mais antiga da cidade), a Oriental (programa obrigatório de domingo: matinê no Cine Rivoli e pastel na Oriental depois…) e a Só Pastel, ao lado do Guaíra.

– Caldo de cana é fácil: tem que ser do Seu Célio, na Praça das Nações.

 

 

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