A PREFEITURA E OS IMOBILIARISTAS CONTRA AS MERCÊS

31 de julho de 2014 por keyimaguirejunior

     As matérias do caderno “Vida e cidadania” da Gazeta do Povo de 16/07/2014 mostram claramente que essas duas potências – a Prefeitura e os imobiliaristas – vão conseguir seu objetivo: detonar com os bairros ainda horizontais de Curitiba. Não vou discutir aqui os argumentos dos agressores – deixo por conta dos leitores a compreensão do jogo de interesses capitalistas – e nada além disso, não há “debate urbanístico” – por trás.

     Antes de continuar, reafirmo: acho que, quem quer morar em prédio, tem esse direito – desde que não seja em prejuízo de quem quer morar em casa. Minha avó, filósofa senhora cheia das sabedorias consagradas, dizia que “uns gostam dos olhos, outros gostam de remela”: não discuto essa questão.

     Mas dizer que não há mais lotes disponíveis, é ardil imobiliarista para aumentar lucros. Um prédio repele os moradores de casas com suas sombras, atentados à privacidade, sobrecarga da estrutura urbana e outras gracinhas – pelas quais os construtores nunca serão responsabilizados. Se não há mais onde construir prédios, é porque eles esgotaram a capacidade da cidade de absorver seus empreendimentos – e é o caso de irem fazer coisas de que o país precisa, como estradas e ferrovias. Prédios, já há demais.

     Todos os argumentos a favor de adensamento e verticalização são da perspectiva da prefeitura – para a qual um prédio paga centenas de vezes mais IPTU que uma casa – e dos imobiliaristas que se enchem de dinheiro à custa da nossa qualidade de vida.

     Observe-se a argumentação, na página citada, do representante dos imobiliaristas:

     -“Gosto de citar o Mercês, porque tem o Batel do lado, o Champagnat, está perto da Praça 29 de Março e junto ao centro.”

    Além do desconhecimento da cidade – as Mercês não ficam ao lado do Batel coisa nenhuma – ele não alega razões nem do Moloch/Mercado dos capitalistas, e menos ainda urbanísticas – apenas seu “gosto”. Sua vontade e sua arrogância.

     -“As pessoas pensam no seu próprio umbigo” – ele certamente acha que deveríamos pensar no umbigo dele. E mais este primor de prepotência, de quem se sabe escorado pelo poder econômico e político:

     -“Quem não concorda é quem tem uma casa no meio das Mercês”. Portanto, nossa razão é de segunda categoria em relação à dele, não temos o direito de discordar. Devemos todos concordar com seu “gosto” tiopatinhesco por dinheiro e abrir mão de nossa qualidade de vida.

     Na verdade, toda essa arrogância é bem escorada: o prefeito já se declarou ao lado deles – conta que teremos para acertar numa próxima eleição.

     Então, quem vai levar uma alteração do plano diretor goela abaixo somos nós. Se Dom Quixote levou um tranco de um moinho de vento, nós vamos levar um daqueles cataventos de usina eólica, com pás de dezenas de metros e material de alta tecnologia. É uma luta covarde: o poder econômico, o poder político e o poder da mídia contra “casas no meio das Mercês”.

     MAS NÃO ABRO MÃO DA MINHA DEFESA.

     Tenho esse direito a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que reza:

Artigo XXV

  1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.   

     Tem alguma coisa nesse sentido na Constituição brasileira também, mas esse é um documento tão aviltado que não vale a pena invocar.

     1 – Direito histórico. Essa região era propriedade de meu tio-avô Romano Bertagnoli – nome de rua perto do Parque do Barigui -, uma chácara que ao ser loteada, foi comprada em parte pelos parentes, alguns ainda moradores do local. Apesar da invasão comercial – que rompe as solidariedades de vizinhança e atrai criminalidade, a maioria dos moradores têm relações de amizade e parentesco ao longo de dezenas de anos. São valores insignificantes para a prefeitura e os imobiliaristas: nada valem, visto não ter representatividade nos seus gráficos de lucros. MAS EU DEFENDO MEU DIREITO A ESTE LUGAR!

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     2 – Direito ambiental. Em que pese a conivência da Secretaria Municipal do Meio Ambiente com a detonação das araucárias e outras espécies – nativas ou não – sob pretexto de que estão doentes ou estragam calçadas ainda há o suficiente para caracterizar uma paisagem agradável e curitibana. Nos quintais, ainda se reproduzem aves – no meu já foram avistadas mais de vinte espécies – porque, é claro, os parques da cidade não são suficientes para assegurar-lhes a existência. Há outros animais que comparecem esporadicamente, escorraçados de toda parte mas que, como eu, resistem. Conheço até mesmo uma simpática família de macaquinhos, cuidada por moradores. Não direi sua localização, com receio de que algum órgão oficial diga que são perigosos e vá lá sacanear com eles. DEFENDO MEU DIREITO, O DIREITO DAS ÁRVORES E O DIREITO DOS ANIMAIS AO AMBIENTE DAS MERCÊS, COMO MAIS IMPORTANTE QUE O DOS IMOBILIARISTAS.

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     3 – Direito à paisagem e ao sol. Prédios são o máximo da artificialidade da vida humana. Um que seja construído, detona com a área circundante em centenas de metros. Morar num prédio é se conformar com a vista de paredões e áreas envidraçadas dos demais prédios. Como já dito, quem quer isso, tenha isso – mas prá mim não serve. Há quem ache que isso é “progresso” – mas entendo que progresso é quando há melhora, não piora. Minha família e outras famílias pioneiras e longamente estabelecidas nas Mercês presenciamos já algumas agressões interferentes com esse direito – que deveriam ser demolidas. DEFENDO NOSSO DIREITO AO SOL E À PAISAGEM.

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     4 – Direito às estruturas urbanas. Não é nenhum despropósito, foram feitas com dinheiro de impostos, nosso dinheiro imobiliaristas não colocam um tostão furado nessas obras. Em alguns, diretamente: a pavimentação de algumas ruas das Mercês foi paga pelo Plano Comunitário de Pavimentação, na década de sessenta, e depois estragada pelos empresários da prefeitura, que as transformaram em “tábuas de lavar roupa” de tráfego intenso: tirar o carro da garagem exige uma paciência de Jó. Nesse momento, escrevo sem energia elétrica em casa – foi desligada “para fins de manutenção”. Mas não é só isso, que seria compreensível. Qualquer chuva-de-molhar-bobo causa explosão de transformadores e Black-out de horas.

     Quase semanalmente, os tratores da Sanepar escavam buracos em nossas calçadas e ruas para conter vazamentos. Já é normal abrir a torneira e de lá sair apenas um chiado. Sobrecarga evidente do sistema. Essas redes foram dimensionadas para casas e não para prédios, e mais fácil que redimensioná-las é lançá-las para outro lado. É claro que todos esses problemas se agravarão com o adensamento e verticalização.

     Na verdade, a “morte anunciada” dos bairros sobrecarregados é mais próxima do que se pensa – ou não se quer pensar. Vocês gostaram do tarifaço de 25% na conta de energia? Pois vem muito mais por aí. Se em vésperas de eleição o governo pratica essa violência, é porque a situação é desesperada. Os Black-outs já são comuns, embora não noticiados pela mídia conivente. Já escutei um técnico me dizer que, se todos os brasileiro resolverem tomar banho ao mesmo tempo, o sistema do país inteiro entra em colapso. Então, prepare-se para, a curto prazo, contas de energia proibitivas para quem quer o privilégio de subir oito ou dez andares a pé, sem direito a banho quente na chegada nem a assistir TV para se alienar do problema. EU DEFENDO NOSSO DIREITO ÀS ESTRUTURAS URBANAS,PELAS QUAIS SEMPRE PAGAMOS – E OS IMOBLIARISTAS, NÃO.

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    5 – Direito cultural. A região norte de Curitiba é onde a cidade ainda existe com suas características próprias. Para o sul, é inexpressiva no sentido de ser igual a qualquer outra cidade do país. Não se pode esperar pelo tombamento do toda a região ao norte do centro, nem é o caso. Mas pode-se esperar e exigir por uma legislação que respeite a cidade no que ela tem de personalidade e especificidade urbanas, ainda há tempo de salvar essas configurações. EU DEFENDO MEU DIREITO DE MORAR EM CURITIBA, NÃO NUMA CIDADE GENÉRICA, HOMOGENEIZADA PELO MAU GOSTO DAS CONSTRUÇÕES NEO-LIBERAIS.

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     6 – Direito à minha casa. Como bom filho de imigrante, meu pai trabalhou obsessivamente para fazer um pé-de-meia. Foi dentista dos mais conhecidos e conceituados da cidade. Mas não existiam mecanismos tipo poupança para resguardar as economias da classe média das tempestades econômicas – sensatamente, ele comprou este terreno e fez esta casa, que alugou até que vim morar aqui. Não é arquitetura notável – na época, não havia arquitetos na cidade, e nem a Rosina nem o LaPastina a tombariam com seu entorno… Mas está no ambiente da rua, e agrada a todos. Claro que, como toda casa, precisa de manutenção constante – e este é outro argumento da arrogância dos imobiliaristas: “casas antigas que as pessoas não investem prá melhorar”. Como se “as pessoas” fossem culpadas pelos descaminhos da economia do país. Isso é responsabilidade dos políticos, aliados deles. EU DEFENDO MEU DIREITO À MINHA CASA; e não a uma moradia genérica, como pensam os imobiliaristas, para os quais um imóvel tem um valor de mercado e nada mais. Habitações que se compram, vendem, trocam, mercadejam com facilidade, porque impessoais, inexpressivas, sem conteúdo. Se algum deles se dignar a ler essas linhas, certamente terá pensado: “por quê esse pentelho não vende a casa e não vai morar num sítio? Lá a horizontalidade é definitiva”.

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         7 – Direito de decidir o que será feito nas imediações da minha casa, que possa me prejudicar. Isso existe em algumas cidades do civilizado Canadá – um conselho de vizinhança formado pelos moradores. Qualquer empreendimento na área – que varia conforme as dimensões pretendidas – só pode ser feito com o aval dos moradores que serão impactados por ele. Os moradores têm poder de veto sobre o que não lhes convém. DEFENDO MEU DIREITO DE VOTAR CONTRA QUALQUER CONSTRUÇÃO MAIS ALTA QUE UM SOBRADO NAS MERCÊS – e sem aquele terceiro nível que a Prefeitura finge que não vê.

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       Como já disse, não tenho qualquer esperança de que meus direitos sejam reconhecidos e meu bairro seja salvo. É causa perdida diante dos interesses em jogo. Exemplifico: há um desses monstros está sendo construído dentro do cone da aeronáutica. Se os brigadeiros não podem com essa gente, quem sou eu?!

     Mas como também tenho a convicção de quem se defende de uma agressão gratuita, bem como de que esses direitos não são só meus. Mas de muitos moradores deste e de outros bairros à beira do abismo. E VOU CONTINUAR DEFENDENDO MINHA CASA NO MEIO DAS MERCÊS!

LEGENDAS

Foto 1: singela festa quando do batizado da Rua Romano Bertagnoli. A viúva está atrás do menino sentado na cadeira.

Foto 2: simpático morador das Mercês, a ser expulso pelo adensamento.

Foto 3: pôr-do -sol da janela dos fundos da minha casa “no meio das Mercês”. Os imobiliaristas morrem de inveja, e querem acabar com essa frescura.

Foto 4: acidente quase semanal, devido ao tráfego insano que a Prefeitura jogou na rua.

Foto 5: tudo o que faz de Curitiba uma cidade ela-mesma (independente de qualquer outro fator) deve ser preservado. Aqui, os maltratados pati-pavê.

Foto 6: araucária provavelmente na mira da SMMA, e está perfeitamente saudável.

Foto 7: esse é o futuro que os imobiliaristas e a prefeitura almejam para nossas casas.

 

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