TELHAS NAS COXAS

24 de julho de 2014 por keyimaguirejunior

Já escutei – gente, o que se escuta de insanidade arquitetônica por aí! – um arquiteto paulista afirmar:

– Arquiteto curitibano tem mania com telhado, deve ser influência da imigração. Com telhado, não é arquitetura modernista!

A afirmação terá suas boas razões, é claro – mas a cobertura é o que existe de mais identificador, datador do tempo e lugar de uma construção – desde as de palha de tradição indígena até as lajes de concreto.

As coberturas de palha são menos primitivas do que parece – é claro que exigindo manutenção constante, mas são melhores isolantes térmicos que qualquer concreto. É reconhecido o conforto térmico das ocas indígenas. São uma tecnologia que, a essa hora, deve ter desaparecido – como tudo o que não enche de dinheiro a conta de alguém. A foto a seguir foi feita nas imediações de São Francisco do Sul, Santa Catarina, em meados dos anos setenta.

007

Aqui na região das araucárias, uma casa poderia – e era – toda feita em madeira, inclusive o telhado. Eram as “tabuinhas” – diminutivo algo injusto porque essas peças poderiam ter até oitenta centímetros de comprimento, por uns vinte de largura. A espessura era variável, ao redor de um a dois centímetros – sendo abertas a machado, eram irregulares. Seguem dois exemplos: uma casa bem simples, no município de Rio Branco do Sul – observe-se a forte inclinação, que facilita o escorrimento da chuva. A outra é a igreja ucraniana da Serra do Tigre, recentemente restaurada, que demonstra a possibilidade de coberturas mais complexas com esse elemento.

020Scan0001

A telha que caracteriza a arquitetura brasileira do período colonial, é a de “capa-e-bica” ou “capa-e-canal”. Exige bastante inclinação da cobertura e estrutura de telhado reforçada, devido ao peso. Proporciona interessante textura e, com os acabamentos refinados desenvolvidos para os beirais, elegância e beleza dentro da simplicidade tecnológica da construção de então.

Na foto, rua em Cananéia, São Paulo, aproximadamente 1990.

002

Essa forte inclinação trabalha contra essas coberturas no contexto moderno: nas cidades coloniais, ou nos distritos históricos antigos das cidades, a trepidação produzida pelos veículos as faz escorregar, sendo necessário ancorá-las no ripamento. É um forte argumento para se restringir os veículos motorizados nessas cidades.

Nas fotos, execução de beiral na Casa de Vítor Meirelles, em Florianópolis, obra dirigida pelo prof.Cyro Correa Lyra, em 1970. E um raro exemplo, na mesma cidade, das telhas “capa-e-bica” usadas verticalmente para proteger uma parede da maresia.

 

Scan0003Scan0004

Não sei o quanto foi difundido o uso das “telhas alemãs”, ou “planas” ou “rabo de castor” – mas em Curitiba foram freqüentes e já as vi em outras cidades pelo Sul do Brasil. Nas fotos, exemplos curitibanos.

015014

Com a importação de materiais no período do Ecletismo do século XIX, chegam as “telhas francesas” ou “de Marselha”, sendo fabricadas e exportadas por aquele porto. De dimensões consideravelmente maiores que as feitas no país mais tarde, e de fabricação industrialmente mais complexa, dominaram os telhados das cidades brasileiras até o surgimento das grandes placas de fibro-cimento e, mais modernamente, de outras telhas, cerâmicas ou não.

Scan0002

Essa notícia sobre telhas decorre da entrevista que por acaso assisti, com o guia de uma antiga casa paranaense. Ele repetiu uma bobagem muito recorrente no país: de que as telhas “capa-e-canal” eram feitas nas coxas dos escravos. É inacreditável que se acredite nisso, e se passe aos visitantes como informação histórica. Pega mal, muito mal! E no entanto, é muito difundido, já vi isso em painéis do próprio IPHAN – por exemplo, na lindíssima e bem restaurada Matriz de Pirenópolis.

O professor José LaPastina Filho calculou que, para ter uma coxa compatível com o tamanho dessas telhas, o escravo deveria ter mais de três metros e meio de altura!

Mas não é só isso. Um escravo custava muito caro e tinha que ganhar seu custo e gerar lucro para repor o investimento de seu senhor. Então dá prá pensar que enquanto a cana ficava esperando pelo processamento para ser transformada em pães de açúcar, enquanto o ouro ficava na correnteza do rio, parado; o escravo ficava deitadão no sol, esperando a telha secar nas coxas?!

Tá certo que os guias turísticos têm uma imaginação de fazer inveja a escritor de ficção científica. Para tornar seus discursos mais interessantes, criam informações que, a bem da verdade, são esquecidas quando os visitantes passam à atração seguinte. Mas não se pode excluir que, entre tantos turistas, haja alguns viajantes, interessados verdadeiramente em saber o conteúdo das edificações. Todos sabemos que “a verdade é uma mentira repetida até a exaustão”…

Na última foto, a moça tipo “coxa longa”, não escrava, demonstra a inviabilidade da “tecnologia” da telha nas coxas…

???????????????????????????????

Algumas indicações de leitura sobre tecnologia construtiva brasileira do período colonial:

1 – CORONA & LEMOS. Dicionário da Arquitetura Brasileira. São Paulo, Edart, 1972.

2 – LAPASTINA Filho, José. Manual de conservação de telhados. Brasília, IPHAN, 2005.

3 – RODRIGUES, José Wasth. Documentário Arquitetônico. São Paulo, USP/Martins, 1975.

4 – VASCONCELLOS, Sylvio de. Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos. Belo Horizonte, UFMG, 1979.

Abaixo, uma “galga”, espaçador de ripas ainda em uso.

022 (2)

OBSERVAÇÃO

Este post é dedicado ao mais insigne telhadólogo brasileiro, prof.José LaPastina Filho, professor do CAU/UFPR e chefe da 10ª Secretaria Regional do IPHAN.

 

 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: