CINCO MUDA, DEZ ACABA!

9 de julho de 2014 por keyimaguirejunior

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Os 199.999.999 técnicos de futebol do país que me desculpem, mas, como daí mesmo disseram, “agora vocês vão ter que me agüentar!”

Não nasci com aversão a futebol, muito pelo contrário, já gostei disso – a partir de 1958 – ainda que restringisse meu gosto às Copas do Mundo. Eu tinha uma miniatura da Jules Rimet em cima da mesa de estudo… Não era a maior das glórias brasileiras desse tempo mas, com certeza, era entusiasmante.

A partir de 1970, comecei a perceber o quanto os governos ditatoriais manipulavam a opinião pública com o esporte. Não foi a única lição que deixaram para os atuais governos. Daí em diante, foi tudo por água abaixo: ficou claro que o futebol é o crack do povo, o forte componente homossexual dos fanáticos – foi o Gilberto Freyre quem disse, não eu – enfim, o tanto que o mens sana in corpore sano pode se tornar o mens putrida in corpore sano.

Mas o que sempre me pareceu mais revoltante é o estímulo à violência praticado pela mídia. Tipo, chamar adversário de inimigo, o jogo ou partida de luta e disputa, jogadores de guerreiros ou lutadores e assim por diante. Torcidas são furacões, os times e seleções são invencíveis e, ao serem vencidos, querem vingança, revanche, e por aí afora. Tudo liderado pelo reizinho deles, com sua arrogante empostação de dono da verdade. Atribui-se arrogância aos outros, quando não existe no planeta povo mais arrogante e prepotente que o brasileiro: saindo do futebol, onde talvez resida nossa pretensão de superioridade, brasileiro é um ser que, ao sentar atrás da direção de um carro, acha que é Deus, senhor da vida e da morte de seus semelhantes.

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     “Discutir futebol” é se impor aos berros e afirmações retumbantes, peremptórias, violentas, que não admitem réplica – não por acaso chegando com freqüência à porrada. O futebol não é um esporte, nessas discussões, é um exercício de prepotência. Não deve ganhar um jogo quem é mais hábil, quem tem que ganhar a qualquer custo é o meu time. Se perde, é porque o juiz roubou, deu azar – como se isso existisse – é a fase, é a caixinha de surpresas, é qualquer coisa para não admitir a inferioridade e a incompetência para trabalhar a frustração. Aliás, tenho a clara sensação de que o futebol em si não interessa – o importante é esse berreiro, a baderna, o esporro.

Desde que deixei de apreciá-lo, nesses quarenta e tantos anos, em várias circunstâncias fui obrigado a assistir jogos, gols, grasnidos, berros e urros de locutores. Em toda parte e o tempo todo, há um televisor ligado no futebol; para ver o boletim meteorológico tenho que engolir noticiário esportivo, os jornais e revistas dedicam cadernos e primeiras páginas a cenas dos jogos – enquanto os governos deitam e rolam no nosso dinheiro, na nossa economia, no nosso futuro.

Mas, desse pouco que sou obrigado a tragar, me fica a impressão de que esse fiasco, um dia, viria. Os jogadores endeusados pela mídia são seres inexpressivos como atletas, não têm o brilho de outros tempos. Fazem gols e ganham partidas quando os adversários jogam pior, apenas. Os adjetivos retumbantes dos locutores, a gritaria insana com que enchem o saco, não tem correspondência no desempenho deles.

Já passei por espírito de porco em várias circunstâncias por torcer pelos Camarões ou outros países com possibilidade de dobrar a arrogância vazia dos brasileiros.

E, vejam só, a lição vem exatamente de um país que, muito embora tenho sido sempre forte no esporte – em qualquer esporte, certo? – é o mais rico de todos, manda na economia do mundo, tem uma baita tecnologia – quem não respeita marcas como Leica, BMW, Mercedes – e uma das mais importantes culturas do mundo, onde não chegaremos nem em mil anos. Uma distante origem alemã produz no Brasil cidades diferentes, onde há limpeza e as coisas funcionam direito, ainda que atualmente prejudicadas pelo neo liberalismo federal. Na cidade brasileira tradicional, mesmo as mais bonitas, impera a sujeira, a pixação, a maloqueiragem. O quê isso tem a ver com futebol? Pôrra, vocês não assistiram o jogo?! Depois sou eu o pentelho que não gosta de futebol.

Depois de décadas, assisti a um segundo tempo inteiro – assistindo mesmo – e o que vi, todo mundo viu: a vitória da competência. Os alemães não tiveram sorte, não têm nenhum Pelé ou Garrincha, não compraram o juiz, não enrolaram. Jogaram bem e certo, apenas, sabendo o que faziam. O sorriso deles era de surpresa – tipo “ué, cadê o futebol mais poderoso do mundo?” Vieram esperando um confronto poderoso e o que tiveram foi… deixa prá lá, foi aquilo. Me pareceu até que estavam constrangidos, esperando que os donos da copa de repente começassem a acertar e virassem o resultado. Só faltou pedirem desculpas.

Escutei no rádio, depois, uma comentarista falando da guerra que eles tinham perdido – tipo ah, coitadinhos, deixa eles ganharem um jogo, afinal já foram tão sacrificados… além de não entender de futebol, a moça desconhece em profundidade a História recente. Povo que chora por causa de futebol, enfarta, se endivida para comprar TV e depois a quebra de porrada, precisa mesmo de lição desse tipo: humilhante.

 

Pois é, o circo acabou. Vêm eleições por aí.

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ILUSTRAÇÕES:

– Reciclagem de cartum do Henfil, de “Urubú e o Flamengo”, São Paulo, Editora 34, 1996.

– Cartum de Otelo, “O livro Negro do Penalty”, Rio de Janeiro, Aconteceu, sem data.

– Caricatura de Suzuki, no Livro do Cuppi de 1970.

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