EX LIBRIS

6 de julho de 2014 por keyimaguirejunior

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  Quando fui buscar minha mais recente leva de ex libris, a moça da gráfica olhou prá minha cara, olhou prá excelente caricatura desenhada pelo Guilherme Zamoner, riu, e com um jeito meio envergonhado, perguntou:

– O sr. se incomoda de me contar o que vai fazer com isso?!

Contei – mas o episódio serve prá ilustrar o quanto os ex libris são ainda pouco conhecidos.

Corte para outra cena.

Na Biblioteca Mindlin, com a Marialba, Tonhão Bührer e o Primo Mário, aquela sensação indescritível de pegar edições do Machado autografadas, originais do “Grande Sertão: veredas”; primeira edição dos Lusíadas… todos com o belo ex libris do proprietário, que nos entrega essas preciosidades sem hesitação:

– Pode pegar, sim, livro é prá ser pegado,sentido…

Já se vê que ele não era muito da era virtual… Mas, lembrei de perguntar se, ao adquirir um livro com ex libris, ele o substituía pelo seu ou conservava os dois. Ele mantinha os dois.

Me senti respaldado – mantenho não apenas os ex libris como todos os sinais do currículo do livro. Assinaturas de proprietários anteriores – mesmo que tenham sido de personagens dos quais não gosto -, dedicatórias e autógrafos, carimbos, preços, etiquetas de livrarias. O que tiro, ainda que ao custo de algumas esfoladuras, é a maldita fita durex, que alguns sebistas insistem em colocar e chamar de “plastificação”. Sublinhados a lápis também apago; sublinhados a tinta, não compro o livro.

Bem, isso tudo é prá esclarecer que entendo um livro como um objeto que acumula vida – e os sinais dessa vida, se mantidos, o acrescentam-lhe a dimensão de documento. Justificam-se intervenções – encadernações, reparos, capas, caixas – quando sua funcionalidade e durabilidade estão comprometidas.

Assim, acho natural colocar também o meu ex libris: marca de que, durante um certo tempo, li, apreciei, consultei e cuidei daquele livro.

A identificação desses sinais são a primeira leitura a ser feita quando um livro chega à biblioteca. E um dos elementos mais cheios de significados, é o ex libris. Papel, estado de conservação, ilustração, divisa, artista, data, técnica de impressão – e outros componentes gráficos – são, todos, indicadores do maior interesse.

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     Com o falecimento do historiador paranaense David Carneiro, sua biblioteca ou parte dela, foi colocada à venda na Fígaro. Adquiri alguns volumes – nem todos tinham seu ex libris, mas era uma satisfação encontrá-lo.

Não sou da área das semiologias, mas ensaio sua leitura.

A figura é contida do escudo chamado “moderno” na heráldica, retangular com uma ponta na aresta inferior. A paisagem de fundo remete aos Campos Gerais do Paraná – colinas e araucárias, com um sol nascente ao fundo e à esquerda. Em primeiro plano, um cavalo negro em posição de saltar – ou avançar impetuosamente, acho que o nome é “rampante” – e o cavaleiro com armadura, elmo e exuberante capa, empunhando uma caneta como lança. Como escudo, porta um livro aberto com a inscrição “Per librum et verbum vincere!” O artista, assinatura identificada graças ao trabalho detetivesco da Marialba e aos conhecimentos de polacologia do Sergio Kirdziej, foi C(Ceslaw) Lewandowski, e indicação de impressão na gráfica “L.Progresso Curitiba”. O céu com nuvens é azul e as colinas, douradas pelo sol. Palavras destacadas, “Ex Libris” em cima e “David Carneiro” abaixo. Entendo que a alusão bélica seja referência ao relevante papel que seu ancestral, o General Carneiro, desempenhou no episódio do Cerco da Lapa em 1894. A impressão é litográfica e o papel, muito fino, parece o mesmo dos famosos rótulos de erva-mate paranaense.

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     Bem.

Não acredito que os ex libris voltem a ser feitos, pelo menos não no Brasil e numa época em que a fatuidade virtual tende a dominar tudo. Mas têm, pelo menos, merecido a atenção de colecionadores e publicados em livros de qualidade editorial compatível com a arte gráfica que representam.

Só me incomoda que, no mais recente deles, tenham prevalecido as caduquices do Asyllo Brazileyro d’Lettras e o título seja “Ex-líbris”: além do hífem, que daria prá tolerar, um acento agudo – coisas que, além de desnecessárias, nunca existiram no latim.

Outro aspecto interessante dos ex libris, é que há quem os faça sem a menor intenção de colá-los no verso da capa dos livros. São meros pretextos, algo como “imaginem só se isso acontecesse”. O mais conhecido, ao que eu saiba, é o alemão Franz Von Bayros que, no início do século, desenhava belos ex libris para personagens mitológicas – Leda, Danae, Polux…

Aliás vai aí uma amostragem dos que desenhei, tentando usar linguagens contemporâneas do cartum e dos quadrinhos, para alguns amigos. No embalo, desenhei também alguns em homenagem aos meus cães – que não têm livros porque não precisam. Lêem os meus.

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Algumas leituras

– Ex libris; coleção da Biblioteca Pública do Paraná. Curitiba, Imprensa Oficial, 2002.

– COSTA E SILVA, Alberto & MACIEL, Anselmo. Livro dos ex libris. São Paulo, Imprensa Oficial, 2014.

– KRONHAUSEN, Phyllis & Ebehard. Ex libris eroticos. Lisboa, Fenda, 1995.

– FRANZ VON BAYROS. Die Purpur schnecke. Hamburg, Gala, 1971.

– MINDLIN, José. Uma vida entre livros. São Paulo, Cia das Letras, 1997.Scan0001

Os ex libris acima são criação de Jorge de Oliveira, de Caçador, Santa Catarina. Ao que eu saiba, o único artista brasileiro a produzi-los atualmente.

 

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