UMA PRAIA CATARINENSE: ARMAÇÃO DE ITAPOCOROI

2 de julho de 2014 por keyimaguirejunior

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     Segundo o infalível Lello, um dos significados possíveis para “armação” é “Petrechos de pesca(…) aparelho permanente para pescar atum e sardinha”. Extensivo, é claro, às baleias. Já no Aurélio, trata-se de “local em que se aparelhavam ou aprestavam navios para a pesca da baleia… (as armações foram comuns nos litorais baiano, fluminense, paulista e catarinense)”. Essa denominação sobreviveu como toponímico em mais de um ponto do litoral de Santa Catarina, inclusive na Armação de Itapocoroi, no município de Penha.

Fontes indicam que a ocupação do local é muito antiga, remontando a 1759, em toda a região que vai até o litoral paranaense. Quando da invasão espanhola na Ilha de Santa Catarina, em 1777, houve apropriação também dos lucrativos estabelecimentos produtores de óleo de baleia – e seus proprietários, para fugir ao seqüestro, se espalharam – com suas instalações, é claro – por outros locais, inclusive na propícia Enseada de Itapocoroi. Com isso, o local torna-se um pólo de desenvolvimento regional entre o Rio Itapocu e Garoupa, tanto mais que o cura da igreja centralizava os aspectos da burocracia religiosa. Não esquecer que a vida social brasileira era, então, centrada na igreja.

Em 1820, as instalações recebem a ilustre visita de Auguste Saint-Hilaire, que deixa delas pormenorizada descrição. Logo depois, é Jean-Baptiste Debret a fazer registro desenhado, sob o nome “Itapocoroyo”: prá um francês, está ótimo. A seguinte visita ilustre de que tenho notícia é a do Visconde de Taunay (a edição que tenho em mãos é a sétima, de 1930) que deixa verbosa e pouca informativa descrição em “Céus e terras do Brasil”.

Mas nada disso eu sabia, nos inícios dos anos sessenta, quando a família começou a freqüentar a praia, desconhecida como balneário. A atração era a piscosidade de sua baía, para meu pai, pescador inveterado. Ao longo de uma década, duas ou três vezes ao ano, eu encarava uma semana no local.

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     Digo “encarava” porque, o mais das vezes, ia sem vontade: Armação estava muito longe de ser o que todo adolescente sonha, uma praia fervilhante de mocinhas de biquíni. Os veranistas, muito poucos, via de regra eram “galegos” – como eram chamados os alemães das cidades do interior. A população era, na quase totalidade, de famílias de pescadores, espalhados por seus quilômetros de praia.

Mas lembrada hoje, a Armação dos anos sessenta seria um paraíso para antropólogos, lingüistas e outros. Felizmente há registros de localidades de mesma cultura, como o que fez JJ Silva em “Aos pés do Cambirela”.

As casas, umas poucas centenas, algumas ainda no vocabulário construtivo português. As dos veranistas, ficavam na estrada para Piçarras e Penha. Apenas um hotel, em madeira

As casas remetendo à tradição construtiva açoriana, desapareceram rapidamente, restando, como construção, a igrejinha que, segundo a bibliografia, será de meados do século XVIII. A torre seria de data mais recente; a inscrição no bronze do sino diz “FBLOVIT 1892 BLUMENAU 1938 *** SÃO JOÃO BAPTISTA ROGAI POR NÓS ***” Os moradores contam orgulhosamente que a argamassa “é duríssima, tem óleo de baleia”. Essa informação é freqüente na arquitetura brasileira, mas eu gostaria de uma comprovação científica. O óleo de baleia era o valioso produto de mercado, será que fazia sentido colocá-lo nas argamassas?

Levaram-me a ver um famoso “muro feito pelos escravos”. Era alvenaria de pedra, o cangicado já sendo corroído pela chuva. Cerca de um metro de altura por vários de extensão, paralelo à praia. Pode ter sido parte dos alicerces das grandes edificações mencionadas por Saint-Hilaire e desenhadas por Debret.

O “catarinês” da vertente açoriana tem – ou tinha – uma sonoridade peculiar, difícil de registrar por escrito, e não se trata apenas da ortografia ou do vocabulário. O uso, correto embora na fala, da segunda pessoa do singular, leva muitas pessoas a errarem na escrita: já vi muito “tu vissi”, “tu fizessi” grafados assim. Mas a sonoridade, a entonação, fazia com que um planaltino de pronúncia ortodoxa – “leite quente”, certo?! – chegasse a desentender algumas palavras.

O que desde sempre me pareceu interessante – fiz alguns registros fotográficos – foram as relações com o mar. Fundo de baía, águas mansas – e, com freqüência, fedidas devido aos restos das pescarias largados na areia da praia aos urubus. A chegada do arrastão e das baleeiras, revelava um mundo estranho: não só os muitos peixes em si, como outras criaturas marinhas, polvos,lulas, caranguejos, estrelas do mar, todos diferentes dos encontráveis na praia, deixados pela maré alta.

A parafernália de pesca, estava sempre exposta: além das baleeiras, coloridas e com nomes poéticos, canoas, redes, balaios de vime, remos, redes, poitas, bóias – tudo largado ingenuamente em qualquer lugar. Por toda parte, ossos de baleia, principalmente vértebras e costelas. Nas minhas visitas mais recentes, nada disso existia mais.

De madrugada, escutava-se o tup-tup-tup dos “motores de centro” – nunca vi os de popa – afastando-se da costa em direção ao alto mar. Voltavam pela hora do almoço, com o resultado que podia chegar a quatrocentos quilos, principalmente camarão. As famílias iam para os galpões “consertar” peixes e camarões, preparando-os para venda às salgas. Os restos, jogados no mar, para alegria dos urubus, gaivotas e joões-grandes e desespero dos poucos banhistas – é claro que uma parte voltava à praia na maré alta.

Embora tenha assistido algum trabalho de manutenção em redes, pintura em canoas e baleeiras, nunca vi nada disso sendo manufaturado, o que me leva a acreditar que viesse de outros lugares.

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A natureza dessa gente era extrativa e função do mar. Surpreendiam-se com as caixas de vegetais que faziam parte da nossa bagagem, não plantavam coisa alguma. Acredito que, mais para o interior, houvesse plantações e engenhos de mandioca: o peixe era consumido com arroz, feijão e pirão. A carne de gado era muito rara, acho que mesmo os açougues eram distantes. Não detectei nenhuma receita açoriana tipo patrimônio gastronômico, as variantes eram mínimas. Sobre o peixe frito poderia haver um ensopadinho de camarão. O peixe cozido, tipo muqueca, era a variação mais comum. Guaiás, lagostas, ostras, mariscos – qualquer fruto do mar que não peixe e camarão, não tinham a menor importância, só eram caçados a pedidos de veranistas.

Era uma gente alegre, as pessoas estavam sempre rindo e cantando, acompanhando o rádio permanentemente ligado.

O banho de mar, só com muito calor. Uma moça nativa, perguntada se ia tomar banho de mar, respondeu:

_ Hoje não, o mar hoje tá prá paranaense… e ainda vão peladas…

Era normal designar dia frio como sendo “prá paranaense”. No caso, havia discreta homenagem à modernidade aos ainda pudicos maiôs das planaltinas. Os homens iam nadar de calção, as moças de vestido. “Nadar” é modo de dizer: a maioria deles, pescadores de vida inteira no mar, não sabia dar umas braçadas.

Um pouco, era uma sociedade do ócio: terminado o “conserto” dos peixes e camarões, não havia muito o que fazer. Nenhuma pressão social por status, competição…

Poucas narrativas também – a famosa hora de contar história, alegria dos folcloristas, era tomada pelo rádio. Uns poucos causos, apenas.

Passei por uma “farra do boi”, essa apoteose da covardia humana. Soube que, na falta de boi, torturava-se um galo. Acho que o ser humano não consegue não ser amoral e prepotente.

Às vezes vinha da Ilha, ou de localidade próxima, um “boi de mamão”, com sua Bernunça e outras figuras.

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     Acho que o trinômio que identifica o Brasil a nível internacional – futebol, carnaval e praia – nos recomenda muito pouco como país. Particularmente, acho-o depreciativo e jamais investiria – nem mesmo visitaria – um país com essas características.

No entanto, as praias são um patrimônio natural – um dom da Natureza que, como os demais que recebemos dela – minerais, fertilidade do solo, florestas – não sabemos usar senão de maneira predatória, violenta e escrachada.

O maior crime que cometemos contra nosso litoral é essa ocupação desordenada, imediatista, mercadológica, não planejada. Essas comunidades pesqueiras estão todas sendo desperdiçadas – não sei se há alguma passível de salvação ainda – como potencial turístico, ambiental e cultural nessa irresponsabilidade político-administrativa.

Não, não sou contra o progresso, mesmo porque ele é inevitável – mas pode trabalhar contra nós facilmente, se mal conduzido. Dizer que quem lhe critica os rumos é retrógrado é o descarte fácil de quem se opõe à mediocridade vigente. A mentalidade de que “não se faz omelete sem quebrar os ovos” é vulgar, medíocre e boa apenas para quem não quer pensar. É componente básico do nosso idiotismo mercadológico-político, e seu resultado é nossa eterna pobreza e subdesenvolvimento.

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     REFERÊNCIAS DE LEITURA

– J. FERREIRA DA SILVA. História do Município da Penha. (Tenho apenas um Xerox sem mais dados)

– VISCONDE DE TAUNAY. Céos e terras do Brazil. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1930.

– OSWALDO RODRIGUES CABRAL. As armações e a pesca da baleia. IN: História de Santa Catarina. Florianópolis, Lunardelli, 1970.

– AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE. Viagem à província de Santa Catarina. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1936.

– J.J.Silva. Aos pés do Cambirela. Palhoça, Jornal Palavra Palhocense, 2007.

OBSERVAÇÕES:

– Este post é dedicado ao Marechal Hermes e Marechala Sonia, nossos agentes secretos em Floripa, e que nos mandaram o excelente livro do J.J.Silva.

– As fotos são de fins dos anos sessenta ou começo dos setenta, aproximadamente.

 

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