AS CIDADES INVIVÍVEIS, XII – O LIXO

26 de junho de 2014 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-liberais, tipo Curitiba)

Décima segunda tese: o lixo

O problema do lixo é esquisito. Falta tudo: água, energia, comida, vergonha na cara dos políticos – mas lixo, sobra.

O quê mais sobra? Gente, é claro, e dá prá pensar que tem a ver com o problema do lixo… Mas é proibido falar disso, governos, mercados e religiões viram ouriços, com todos os espinhos apontados para o infame que menciona a ferida. Algo do tipo curar a doença ignorando-a… Então, tá: o contingente humano tá legal, os recursos naturais são eternos, o clima não está mudando, vai tudo bem no melhor dos mundos – mesmo porque só temos esse.

Mas do ponto de vista do bom senso, parece que o problema do lixo – assim como todos os demais – peca por falta de se pensar a coisa em termos de totalidade.

A descomunal produção de resíduos no planeta – se não é, em breve será o pior dos nossos problemas. Estou me metendo com algo que não é a minha praia poluída, porque a coisa me preocupa e deve preocupar a todos – no sentido de que temos que tomar atitudes efetivas.

Imagem      O objetivo tem que ser zerar a atitude de jogar tudo prá natureza resolver – lixões, esgotos ou aquelas simpáticas balsas que os americanos afundam no mar (dos outros).

Evidente que o perfeito seria não produzir o lixo. Daí a importância de fabricar o menos possível – responsabilizando a indústria pelas embalagens, que são uma parte substancial do problema. Enquanto isso, reduzir a produção domiciliar – a coleta seletiva sem dúvida é um grande avanço, mas o processamento deveria ser mais intenso, tudo ser reciclável. O que não é reciclável ainda, deve tornar-se a curtíssimo prazo.

Só pode sobrar o que é orgânico, apodrece e se dissolve. Claro que não fica nisso, entra o catastrófico resíduo do resíduo – o chorume. Capaz de contaminar e exterminar a vida nos lençóis freáticos, rios, lagos e o próprio oceano. Não sei o que dá prá fazer com esse troço – mas se não dá prá fazer coisa alguma com ele, é preciso evitar que se forme. Mas ouço dizer que pode ser corrigido quimicamente e usado como adubo.

E adubo é a mais nobre finalidade a dar a qualquer resíduo orgânico: devolver ao solo a fertilidade que lhe é tirada. Não sei qual seja o processo químico, místico ou político – se não existe, inventem, e já será tarde. Muitas pessoas fazem compostagens em seus jardins – claro que a escala é outra, mas o princípio é o mesmo.

Li que os chineses – e de superpopulação superprodutora de cocô eles entendem – têm um interessante sistema de bio-digestores que fornecem gás combustível (metano?) numa primeira etapa e, numa segunda, adubo.

Em 1984 – ano das fotos do presente post – estive no lixão de Curitiba, então na Lamenha Pequena. Havia um grupo de pessoas – segundo o informante, trezentas famílias – que se revezavam em horas e dias – catando recicláveis. Despejado dos caminhões (ainda não existia o “lixo-que-não-é-lixo”), os grupos lançavam-se sobre os sacos, em busca dos materiais mais valiosos – que o informante comprava e repassava às indústrias em fardos. Tratores aplainavam o material, e o cobriam com uma camada de espessura variável, 30 a 50 centímetros de altura. O gás da decomposição escapava pelas rachaduras nessa camada e incendiava espontaneamente, em chamas azuladas que o negativo não registrava.

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     O lixão demonstra que o ser humano é mais estúpido que a avestruz, que esconde a cabeça no buraco e, não vendo o perigo, se julga a salvo dele. Não é por acaso que estão quase extintas. Mas prá mim, fica claro que existe uma produção de combustível possível a partir do lixo.

Nossa sociedade neo-liberal desperdiça tudo: os índices, quando são divulgados, são atenuados. Desperdício interessa ao mercado – é consumo – e ao governo, que ganha nos impostos e faz pose de que a economia vai tão bem que se pode jogar recursos no lixo.

Mas, sem querer ser apocalíptico, qualquer pessoa medianamente informada sabe: tudo acaba. Água e energia, já começou, mas ainda não serviu para se racionalizar antes que seja preciso racionar. Quanto ao lixo – lato sensu, todos os resíduos – a irresponsabilidade não é menor, está sendo tratada com leis e não com ações. Há o eterno jogo de empurra entre os níveis administrativos e, dentro deles, atua o lixo político-partidário: o pior de todos. O próximo prefeito/governador/presidente que se vire.

Ainda vamos assistir à criação do Ministério do Lixo, como se todos já não fossem. Secretarias de Estado do Lixo, Secretaria Municipal do Lixo – cargos para as barganhas políticas, giga salários, empregos nepóticos, assessorias, comissões – lixo que não vai resolver o lixo, mesmo em que pese o similia similibus curantur dos antigos…

O problema do lixo será equacionado e encaminhado quando a escassez de matérias primas o tornar rentável e lucrativo – se é que até então não estaremos submersos num tsunami de chorume.

Petróleo é dinossauro podre e não vale um monte de dinheiro?!

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