OS ENCONTROS DE ARTE MODERNA DA ESCOLA DE MÚSICA E BELAS ARTES DO PARANÁ

18 de junho de 2014 por keyimaguirejunior

As fotos dos Encontros de Arte Moderna são o que um antropólogo poderia chamar de “documentação participante”. No que estaria bem centrado, visto que a presença da câmera interferia – quando não motivava – ações dos artistas envolvidos. Seus corpos davam ou modificavam o sentido das coisas: é o que se percebe na observação posterior das fotografias. E é o que vejo hoje nessas imagens de há quarenta e tantos anos passados, e me vem a idéia de fazer uns registros para subsidiar quem se lance a historiar esse rico período da história da arte em Curitiba.

A EMBAP vivia então uma boa fase de sua trajetória – da qual, os EAM eram a tal “ponta do iceberg”. Como professora, Adalice Araújo teve a intuição de atuar sobre os artistas em formação na escola – trazendo teóricos do Rio de Janeiro e São Paulo para palestras e oficinas. Esse suporte teórico deveria ser resgatado com os ministrantes – conquanto os “oficinões” tenham mais visibilidade como resultado. Mas as falas de Roberto Pontual, José Rezende e Frederico de Morais, entre outros, davam o que pensar – pensar para fazer na oficina.

“Criar” era a palavra mágica que ainda não tinha migrado para ser comercializada pela publicidade. Era o “abre-te Sésamo” para além dos conceitos da arte tradicional, mas entendo que sem a excluir. Na época, escutei críticas que falavam de “falta de seriedade” e de “efemeridade” desses eventos – impressão falsa de quem sabia das “Tardes de criação” sem saber das noites de palestras…

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     Procurando por subsídios para este post, estranhei a prevalência dada à oficina de 1971 – campo de batalha, a Rodoferroviária de Curitiba. Nem mesmo o Dicionário da Adalice menciona a de 1972 – numa área entre a então Avenida Centenário e BR-101. Área destinada, dizia-se, a um parque que nunca aconteceu – do outro lado da rodovia, o Centro Politécnico ainda em seu núcleo original de prédios, visível nas fotos.

Na minha combalida memória, foi depois da Tarde de Criação de 1972 que houve uma “extensão” noturna dos exercícios de criatividade, no atelier do Fernando Bini – também conduzida pelo Frederico de Moraes.

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     Adalice interrompe a sequência dos EAM em 1974 – quando foram, no mínimo onze, segundo Fernando Bini. Do oitavo EAM, sei que teve palestras sobre histórias em quadrinhos, das quais estive encarregado com o prof. Humberto Boguszewski; e oficina de restauro de obras de arte. Já eram outros tempos, palavra “criação” caíra de moda e faltou um ministrante com o poder de motivar e conduzir uma tarde de criação.

Não há dúvida possível quanto à importância dos EAM sobre a geração de artistas então em formação. Testemunho disso, as performances e happenings que passaram a ter presença na cidade. Num dos anos seguintes, documentei a elaboração de um mural em paredes vazias resultantes de demolições para alargamento da Rua Visconde de Nacar.

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Em 1973, Pedro Escosteguy esteve na cidade e me deu as fotos abaixo – mas não lembro se tinha conexão com os EAM ou era outro evento.

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     As ampliações das fotos foram organizadas em sanfonas, uma para cada EAM, em três cópias de cada um – uma das quais, foi enviada ao Frederico de Morais.

Outro registro de que me lembro, foi a “Costura da Paisagem”. Marcello Nitszche identificou o corte da atual Pedreira Paulo Leminski como uma ferida, que suturou com tubos de plástico preto inflados por um ventilador. A bobina de plástico foi sabotada, mas a coisa aconteceu… O suporte foi o então em moda “Super 8”.

Salvo pesquisa acadêmica não publicada, desconheço um inventário exaustivo dos EAM.

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 Algumas referências

– O Dicionário das Artes Plásticas no Paraná da Adalice Araújo é o que temos de mais importante. Infelizmente ficou inacabado – alguma instituição poderia tomar a providência de assumir o material coletado por ela, antes que desapareça, e formar uma comissão para o concluir. O primeiro e até agora único volume é de 2006.

– Paulo Reis, “O corpo na cidade”. Curitiba, Ideorama, 2010.

– Newton Goto, “Situação PR – 69/01…ndo” Três matérias de página inteira no Caderno G da Gazeta do Povo, publicados em 12, 23 e 30 de dezembro de 2001. Ver também matéria no mesmo jornal em 22/11/2009.

Sensibilizar; arte na rua. Curitiba, Imprensa Oficial, 1984.

– Franz Erhard Walther. Arbeiten 1969/1976. Bienal de São Paulo / República Federal da Alemanha, 1977. Ortogonal como convém a um bom alemão.

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