ESPAÇO E SAUDADE

16 de junho de 2014 por keyimaguirejunior

(Texto para o livro de Clarissa Grassi “Um olhar… a arte do silêncio”. Mais um impublicável publicado!)

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… ao pé do leito derradeiro

         O Cemitério Municipal de Curitiba ocupa um terreno alongado, acomodando-se ao traçado das ruas por uma forma de trapézio. É vizinho de alguns dos bairros mais tradicionais da cidade: São Francisco, Mercês, Bom Retiro.

     Entra-se pelo portal com a cruz do simbolista de Cruz e Souza, e se o percorre longitudinalmente por uma rua principal, onde já houve a capela e os tradicionais ciprestes – aquela desaparecida e estes quase. É essa rua cortada pelas ruelas transversais ortogonais estreitas, que fazem o acesso a todos os jazigos. Configura-se, assim, um desenho de quadras urbanas muito alongadas, que ocupam toda a área fechada por altos muros: as poucas portas secundárias são “de serviço”, sem qualquer tratamento de destaque. Projeto seco, estreitamente funcional, modernista, sem qualquer preocupação espacial ou paisagística.

     Se pensarmos no projeto original do cemitério de Santa Felicidade, em que o Panteão – hoje submerso por quadras de jazigos – centraliza uma composição geral, sentiremos falta de uma tradição construtiva consistente como a italiana, de que o cemitério de Gênova é o mais grandioso exemplo. Em termos de Brasil, é comum esse tratamento – e, nas pequenas localidades, nenhum tratamento, além do muro e um esboço de arruamento.

em que descansas dessa longa vida

     Aproximadamente, na quarta parte inicial a partir da entrada, em relativa concentração, encontram-se os túmulos mais elaborados – talvez polarizados em outros tempos pela presença da capela.

     Esta certamente atraiu as sepulturas dos mais ricos, assim como a Matriz atraía para a praça as moradas assobradadas dos poderosos coloniais: uma estrutura urbanística demonstrativa da estrutura social. Sendo o jazigo construção destinada a ter somente obras de manutenção, as nuances dessas estruturas não são muito visíveis – mas certamente estão presentes.

     Percebe-se aqui um panorama de arquitetura eclética, em sua vertente historicista, nas composições que assimilam, como recurso decorativo, todas as estéticas. Como é comum no Ecletismo brasileiro, predomina o vocabulário clássico, via neoclassicismo. No entanto, há incursões pelo neogótico e art-nouveau e até a nossa contribuição regional – o paranismo que, como via de regra, se sobrepõe ao art-déco.

     Num tal contexto, a homogeneidade se dá pela diversidade: característica também da paisagem antiga de Curitiba, seja no Setor Histórico, na Rua XV de Novembro ou Praça Generoso Marques.

     Como facilmente se adivinha, nem sempre é totalmente harmônico o convívio da Arquitetura com a Estatuária.

…aqui venho e virei (…)

trazer-te o coração do companheiro

     Importa compreender que, nos domínios da Arte e da Arquitetura, o Ecletismo é fenômeno complexo, composto por sincretismos nem sempre explícitos. Principalmente no Brasil, país essencialmente assimilador; e mais ainda o Paraná – formado a partir de intenso processo migratório e imigratório; e de maneira mais específica, para Curitiba, como um dos pólos da Região Sul.

     E para falar do período de Ecletismo, também não se pode perder de vista uma recente República, positivamente divorciada da Igreja, tentando firmar ações laicas em terreno essencialmente religioso. Tanto que os sepultamentos que se fizeram sob o piso da nave das igrejas, a seguir são em cemitérios a elas ligados funcionalmente. Há muito a pesquisar na arquitetura dos cemitérios brasileiros: do campo santo no terreno nos fundos das igrejas das irmandades, até os cemitérios parque dos luteranos; dos columbários como primeira manifestação de verticalidade a uma série de configurações urbanísticas, oscilando entre o respeito aos mortos e as posturas municipais.

     Nem se pode esquecer que a dita República é idéia burguesa e que sua configuração no nosso panorama cultural é o dito Ecletismo, em sua precária erudição.

     Naquilo que se pretende eterno – ou seja, nas construções que objetivam perenizar pessoas ou pelo menos sua lembrança é escassamente importante o fator modernidade, que será apenas mais uma estética sobreposta às demais.

     Podemos assistir aqui ao nascimento do kitsch, somando-se às questões da modernidade industrial e da cultura de massas: a Curitiba dessa região do Cemitério Municipal é uma cidade de classe média, numa sociedade liderada pela burguesia ervateira. Assim, é possível ter aqui aliados – ou alienados – simbolismos não-cristãos, difíceis poucas décadas antes. Uma dialética entre paganismo e cristianismo no território dos mortos, envolvendo padrões culturais que vão da superstição à legislação, das preocupações místicas às sanitárias.

pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

que, a despeito de toda humana lida

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     Nas antigas sociedades ocidentais, acreditava-se na necessidade de alimentar a alma, inseparável do corpo após a morte. Surgem assim as bases da sedentarização do ser humano, nas formas originais da família e da propriedade, articuladas pelo culto do lar. Não cabe aqui historiar as transformações ocorridas ao longo de séculos e de milênios, até nossos tempos. Mas não são muitas, se tivermos em conta a permanência dos elementos cultuais que ainda estão presentes. Asseguramos aos mortos – tanto diante de seus restos quanto de sua efígies em esculturas, símbolos alusivos, fotografias e caligrafias – a presença de nosso afeto com flores e velas – o lar – e cuidados com suas moradas.

fez a nossa existência apetecida

e num recanto pôs um mundo inteiro

     Asseguramos aos mortos uma lembrança de suas pessoas em nossas memórias e nas memórias alheias – pelas representações artísticas de suas feições, de seus corpos, de seus gestos e mesmo de suas coisas – em algumas magníficas obras de arte.

     Asseguramos que, na ausência de nossos corpos, estarão acompanhados de nossos sentimentos – representados por anjos, alegorias e pelo próprio Cristo. Garantias perenes e iniludíveis de suas presenças em nossas vidas – atitudes definitivas, consolidadas para o mundo e para o tempo, pelos materiais mais autênticos e nobres, a pedra e o metal.

     Na situação de comoção emocional deflagrada pela morte, representar fixadamente a falta, a saudade, a prostração, a resignação, a aflição da perda leva a figurações sobre cuja leitura não podemos ter certezas. A partir de nossa própria dificuldade para verbalizar sentimentos, tendo como intermediária a subjetividade da concepção artística e finalizando com padrões culturais de quem lê a obra acabada.

     Orantes e pranteadoras são mensageiros diretos, no sentido em que representam e substituem – donde sua essência kitsch – o ser vivo responsável pelo culto do sepultado. Mesmo quando aparentam alguma sensualidade, pela aderência das túnicas ou nudez – salvo interpretação pessoal do escultor… – trata-se de artifício para caracterizar a feminilidade, não de um erotismo fora de propósito.

     Anjos e anjinhos, peças importantes da riquíssima iconografia católica, assumem posições variadas no que podemos entender como momentos diferentes na sua missão de intermediários entre o reino dos vivos e dos mortos: na maioria das vezes orando, mas também sondando o infinito o meditando. A “anja” do Apocalipse, aguardando com sua trombeta pelo Fim dos Tempos, é enigmática e magnífica.

     Presume-se que a beleza desses seres advenha de sua origem divina – e mesmo com a ambigüidade em relação ao sexo, discussão arcana… – ostentam beleza mística, muito embora em configurações humanas, já em si significativas.

     Mais difícil é compreender a presença do próprio Cristo – historicamente, intercessor por toda a raça humana – num jazigo. Parecem existir aqui questões de devoção pessoal, como exemplo a conhecida cena bíblica com as crianças.

     Algumas estéticas são estranhas, como um anjo que também poderia ser uma sereia ou o Cristo com duas caras, remetendo ao famoso Anjo de Klee. Ou ao deus Jano dos gregos. Casos que só mesmo os artistas poderiam esclarecer.

     Da mesma forma, figuras claramente proféticas, podem estar referidas a aspectos específicos da vida do morto, quando não queiramos ver aí casuísmo ornamental.

     Mesmo sem abstrair a monumentalidade que enriquece o Cemitério Municipal como um todo, talvez o simbolismo mais bem realizado seja o do portal: a da morte como pórtico entre duas vidas, segundo a crença de cada um.

     Afinal, para além da transitoriedade das flores e das velas, são sentimentos dos vivos que ali se ostentam – para as comunidades dos mortos e dos vivos.

trago-te flores – restos arrancados

da terra que nos viu passar unidos

e ora mortos nos deixa e separados

     As concepções arquitetônicas – sejam elas para os vivos ou os mortos – buscam sempre abrigar. Os jazigos e, mais claramente as capelas mortuárias buscam na História da Arquitetura e da Arte formas consagradas por seu poder evocativo. Formas que, muito embora geradas nas culturas de outros tempos, não são, em si mesmas, fúnebres.

     Vale então fazer conter ou abrigar nessas construções sólidas e de espaço único, o que é por natureza frágil e transitório – representações de vida: flores, fogo, sentimentos. Seja na forma alegórica de orantes ou em invocações da realidade vivida. Talvez nenhuma arquitetura seja tão dependente das representações complementares quanto a dos cemitérios.

que eu, se tenho nos olhos malferidos

pensamentos de vida formulados

são pensamentos idos e vividos.

Algumas referências

– Os versos do Machado – “A Carolina”, de 1906 – estão conforme a “Obra completa”, publicada pela Aguilar, no Rio de Janeiro, em 1992.

– O livro para o qual foi feito esse texto:

“Um olhar… a arte do silêncio”, de Clarissa Grassi, FCC, 2006.

– Cemitério Municipal São Francisco de Paula: monumento e documento. Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, 1995.

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– Souvenir du cimitière de Gênes. Propriedade da A.P.Genova, mas sem editora nem data. Tem uma dedicatória manuscrita de 20/2/1920.

Nessa “sanfona” de fotos, descobri que o Anjo do Apocalipse de Cemitério Municipal de Curitiba, é uma réplica do existente no fabuloso Cemitério de Gênova, sendo obra do escultor Giulio Monteverde para o túmulo de Francesco Oneto.

    

 

 

    

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