NA ESQUINA DA RUA DA HISTÓRIA COM A RUA DA LITERATURA, DIANTE DA PRAÇA DA ARQUITETURA.

13 de junho de 2014 por keyimaguirejunior

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         A obra machadiana se localiza entre 1870 e 1906. Como romancista é, ao lado de Guimarães Rosa, uma unanimidade no cenário da literatura brasileira. Embora alguns de seus contos sejam primorosos, a crítica salva apenas uma de suas poesias e nada de sua obra teatral: o gênero em que Machado é genial, é o romance.

Que, e não por acaso, é uma expressão burguesa. Nasce, em sua formulação moderna, na Inglaterra do século XVIII. Os autores que o consolidam são Richardson (pouco conhecido no Brasil), Fielding (Tom Jones), Defoe (Robinson Crusoe, Moll Flanders) e Thomas Hardy (Judas, o obscuro, Tess). Abandona-se a epopéia aventureira pela narrativa intimista e social, com nuances de cenário – a casa é privilegiada -, abordagens e temáticas. É apreciado inicialmente pelas mulheres – às quais a manufatura liberou algum tempo – donde a identificação, não de todo infundada e sobrevivendo até hoje, de “romance” com “trama erótico-sentimental”.

A teorização para caracterizar o romance como expressão burguesa é extensa, complexa e extremamente interessante, mas não cabe aqui. Vale assinalar que, esquematicamente, há uma correspondência entre o romance como expressão literária e o Ecletismo como expressão arquitetônica da burguesia do século XIX.

Foi o que tentei demonstrar em minha tese “O espaço burguês; arquitetura eclética em Machado de Assis”. A idéia original era uma história da arquitetura portuguesa que seguisse a obra de Eça de Queiróz desde o castelo medieval – “A ilustre Casa de Ramirez” – até o Ramalhete, sobrado eclético do “Crime da Rua das Flores”. No entanto, na discussão com a orientadora Profa.dra. Ana Maria de Oliveira Burmester, “trouxemos” o cenário para o Brasil machadiano. E por mim, reler (definição de Ítalo Calvino: “clássico é aquele livro que você jamais admite que está lendo, sempre diz que está relendo”) todo o Eça ou todo o Machado são prazeres equivalentes.

A estrutura teórica foi sofisticada, mas não menos estimulante. Foi baseada principalmente em Norbert Elias, Walter Benjamin, Peter Gay e Giulio Carlo Argan. Teve muito mais gente, a bibliografia (sumaríssima, a original são quase 150 livros) vai aí adiante. Não sei se ficou tão bom quanto gostaríamos, não tive dispensa das aulas para cursar o doutorado e redução de um ano no prazo para escrever a tese. Mas foi uma adrenalina…

É normal – academicamente falando – abordar um estudo muito amplo, do geral para o particular, do genérico para o específico. Mas o pretexto espacial estava à mão, dado pelas minhas aulas sobre arquitetura indígena: o universo deles se projeta a partir do pátio da aldeia, em círculos concêntricos, em direção ao cosmos. Fiz o percurso inverso: do cosmos burguês, representado pela Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro, fechando para os espaços da sociabilidade burguesa. Isto é: o jardim como limiar exterior/interior; o salão como espaço das festas, reuniões e portanto da sociabilidade. Os gabinetes- espaços masculinos-, e salas de costura – femininas-, sempre presentes, são os espaços da sociabilidade controlada, intermediária. Só se passa a eles a convite explícito do morador. Chega-se então ao reduto do privado, aos quartos e às alcovas. Não há referências, sutis que sejam, aos “espaços com cheiro” – cozinha, banheiro e senzala.

Toda a casa é um capital de sociabilidade, bem caracterizadamente: o burguês machadiano aposta no “dize-me como moras e te direi quem és”. O próprio Machado insinuou os paradigmas da época: o Palácio do Catete e o das Laranjeiras, então residências.

     Dona Marialba desenhou, seguindo minhas indicações, as plantas esquemáticas da casa colonial brasileira e da casa burguesa machadiana, tentando caracterizar similaridades de uso e espaço. E o quanto se pode hipotizar a origem de uma, na outra.ImagemImagem

Os espaços do esquema de planta colonial não podem ser identificados com as denominaçõs que têm hoje. “Sala” e “Sala da família” não correspondem às funções de hoje, senão muito limitadamente.: a sociabilidade vai à missa da Matriz.

O segundo esquema demonstra que a burguesia machadiana traz a sociabilidade para casa, ainda que restrita a níveis progressivos.

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    Como me apraz imaginar as burguesas do autor enquanto leio seus romances, procurei uns modelitos na revista de moda mais comum na época, a “Harper’s Bazar”. Lembram o decote da mulher do Palha?!

 Fontes e suportes teóricos principais.

– Obra completa do Machado de Assis, da Editora Aguilar.

– “História da Arte Moderna”, de Giulio Carlo Argan.

– Obras escolhidas de Walter Benjamin, da Brasiliense, e  “Paris capitale du XIX siècle”. Paris, Cerf, 1993.

– “Victorian fashions and costumes from Harper’s Bazar. USA, Dover, 1974.

– Norbert Elias, “O processo civilizador” e “A sociedade dos indivíduos”.

– “O ecletismo na arquitetura brasileira”, de Annateresa Fabris.

– “A experiência burguesa; da Rainha Vitória a Freud”. Peter Gay, todos os volumes.

– “História da vida privada no Brasil”, coordenada por Fernando Novaes e Nicolau Sevcenko, Companhia das Letras.

– “Ao amor do público”, de Hugo Segawa.

– Ian Watt: “Ascenção do romance”, Cia.das Letras, 1990.

Observação: a tese foi defendida – literalmente – em 1999. O prof.dr.Aloisio Schmit, que deu uma força aos meus toscos conhecimentos de world, achou que ela deveria ser publicada. Bem, se houver quem o faça – não esquecer o nome deste blog! – estou disposto a fazer as necessárias adaptações.

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