A ILHA DO DIABINHO – Arquitetura da Fortaleza de Santa Cruz de Anhato Mirim

24 de maio de 2014 por keyimaguirejunior

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         Na geopolítica (palavra em desuso, mas não desfuncional) dos séculos da ocupação do território americano, toda a logística, inclusive militar, se baseava na navegação. A posse de um rio era quase equivalente à posse de toda a bacia desse rio. Assim, como exemplo, Belém do Pará – não como fator único, entende-se – garantiu aos portugueses a Amazônia. Acresce que tanto a foz do Amazonas como a do Rio da Prata, eram próximas da intersecção do litoral do continente com a linha do Tratado de Tordesilhas – o que exigia, da parte de Portugal e Espanha, ações de estratégia militar. Os geógrafos se esmeravam em “torcer” o rio para dentro do território português, num contorcionismo cartográfico engraçado.

Buenos Aires estava dentro dessa lógica, localizada onde o Rio Paraná alarga em Rio da Prata. Quando, em 1680, os portugueses fundam a Colônia do Sacramento diante dela, a atitude é de confronto explícito. Buenos Aires já tem, então, um século de presença estratégica, e a resposta vem em 1735: os espanhóis atacam e tomam a Colônia do Sacramento.

Na estratégia desse período, na qual entra a balística dos canhões e arcabuzes então em uso – a Ilha de Santa Catarina comparece como alvo possível de ataques seguintes. É, também, local em condições geográficas de receber fortificação adequada à defesa.

…o Brigadeiro José de Silva Paes passe logo à Ilha de Santa Catarina e faça nela uma fortificação, a qual,a entender ser capaz para sua defesa, procurando evitar, nela quanto lhe for possível a maior despesa”. Apud (5).

Talvez para evitar “a maior despesa”, as fortificações não se mostraram eficientes quando, em 1777, os espanhóis atacam e tomam a Ilha. Que devolvem no ano seguinte, por força do Tratado de Santo Ildefonso.

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Que o complexo fortificado não funcionava bem, atestam relatórios de viajantes do mesmo século. É clássico o da expedição La Pérouse, de 1785:

“… as fortalezas de Ponta Grossa, de Santa Cruz e dos Ratones, não obstante estarem à vista umas das outras, parecia terem sido construídas uma para ser batida e tomada ao primeiro assalto e as outras para expectadores desse fato…” Apud (5)

Não sei se o esquema implantado por Silva Paes era baseado em preceitos do tempo ou se são de sua invenção, mas não deixa de ser ardiloso. Três fortes em triângulo “fecham” a entrada da Baía Norte, de modo que, para atacar NS do Desterro, uma embarcação ou uma frota passaria pelo fogo cruzado de duas fortalezas, duas vezes. Sete outros fortes, são distribuídos ao redor da Ilha e concentrando quatro onde mais ela se aproxima do continente. Um desses, o Santana, fica sob a cabeceira da Ponte Hercílio Luz, do lado da Ilha.

Como vimos, o esquema não impediu a invasão espanhola de 1777, e é de se perguntar se eram adequadas aos territórios americanos as fortificações portuguesas – baseadas em recursos desenvolvidos por engenheiros militares europeus, como o Marques de Vauban e Antonio da Sangallo. O Forte da Ilha do Mel, na entrada da Baía de Paranaguá, não foi mais eficiente. Parece-me que tinham mais atuação presencial.

“Se nos lembrarmos agora das pequenas aglomerações, estrategicamente implantadas nas fronteiras distantes, ou mesmo das populações das guarnições fortificadas, os “presídios” no antemural da Colônia, podemos imaginar o sentimento de isolamento e sobretudo de solidão que devia atravessar a vida no dia-a-dia nos confins do Novo Mundo. E somos tentados a falar em confinamento para caracterizar esse quadro.” (9)

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     “Existia no Brasil um exército esquecido, mal organizado, mal instruído e mal pago; um exército onde havia um oficial para 13 soldados; onde o número de oficiais e uma longa paz dificultavam as promoções; onde o pobre soldado vivia fora da vida do regimento, destacado em pequenas guarnições de 20, 10, 5 e até 2 homens pelas villas do interior, situação dissolvente de toda disciplina e destruidora de todo respeito.” (12)

A primeira citação faz referência aos tempos coloniais, mas a segunda, aos primórdios da República. E possivelmente esse isolamento, patrocina o capítulo mais sombrio da história da fortaleza. Num de seus romances, Lima Barreto fala da preocupação de um personagem, de que viesse a ser “fuzilado numa ilha perdida no oceano” – e o contexto é, também, dos primeiros governos militares da República.

Não quero me deter no tenebroso episódio dos fuzilamentos – história já bem contada. (10) Mas não se pode omitir mencioná-lo: cerca de duzentos opositores do Mal.Floriano são assassinados na ilha de Anhato Mirim. A tradição oral dos moradores da Caeira do Norte – povoado continental mais próximo da ilha – assinala um barranco, diante do qual há um pé de araçá, como local dessas mortes. Quer se veja aí o Mal. Floriano como responsável, quer o tristemente famoso Capitão Moreira César, a violência se consolida pela humilhação, e é imposto à Vila de Nossa Senhora do Desterro, o nome do carrasco.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Marinha abandona a fortaleza, evidentemente obsoleta, determinando sua degradação: as populações vizinhas levam madeiras e telhas.

O assunto deste post é a arquitetura da fortificação, das mais notáveis em território americano.

Dele participei como monitor da disciplina Arquitetura Brasileira, do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná, em maio de 1970. O compromisso de Brasília, de abril desse ano, recomendava, em seu item décimo, a participação das universidades “no sentido de incentivar a pesquisa quanto à melhor elucidação do passado e à avaliação de inventários de bens regionais cuja defesa se propugna.” (4)

Dentro dessa idéia, o arquiteto Cyro Illidio Correa de Oliveira Lyra, então professor da disciplina mencionada, articula o levantamento arquitetônico da fortaleza pela turma então cursando.

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Presidiários fizeram uma limpeza básica junto às edificações, e passaram a alvissareira notícia de que não havia cobras na ilha…

Uma embarcação da Capitania dos Portos nos deixou na praia voltada para o continente, único desembarque possível na ilha. (Mais tarde, passei a fazer a travessia em baleeira a partir da Caeira do Norte, sobre o profundo canal entre o continente e a ilha de Anhato Mirim.) Subimos os sessenta degraus em pedra de lioz portuguesa para avistar as edificações, reduzidas às paredes de alvenaria invadidas pelo mato. Faltava apenas o vento para ser a Macondo em seus últimos dias…

Eu estava no grupo que, tendo alguma experiência em acampamento, dormiu em barracas que armamos ao redor do farol. Acho que teria sido mais fácil conviver com algumas serpentes do que foi com os mosquitos… o grupo assumiu a denominação de “machoquistas” – em vez de hotel e restaurante em Floripa, os mosquitos, o chão duro da barraca e a comida levemente aquecida na fogueira, visto que o fogareiro a gás não funcionou.

Imagem O quartel da tropa, por suas dimensões, foi medido por três equipes.

ImagemImagemImagemO paiol da pólvora antigo / cadeia, impressionou por sua empostação de castelo medieval, sobre uma formação rochosa.

ImagemImagemImagemNo paiol da pólvora novo, o interessante era a abóbada , a porta bem trabalhada em pedra de lioz e o sistema de paredes duplas.

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O quartel antigo do comandante era talvez a construção mais degradada, mas era excelente aula de técnicas construtivas.

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O pórtico, avistado após contornar a ilha depois da navegação iniciada sob a Ponte Hercílio Luz, fazia pensar, mais que em Portugal, no império de Felipe II, no qual “o sol nunca se punha”.

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As muralhas, suas guaritas e túnel de acesso à bateria inferior, foram levantadas até onde houve acesso.

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A casa nova do comandante, a da eletricidade e a do telégrafo, não foram medidas nessa expedição, por mais recentes.

     As fotos podem parecer assustadoras, mas são do levantamento, de 1970, há 44 anos… Exceção feita à do quartel da tropa com andaimes, que é de 1973. Atualmente a fortaleza está restaurada e é visitável, administrada pela Universidade Federal do Santa Catarina. É preocupante, no entanto, que as construções não tenham sido ocupadas e recebido um uso: como diz o prof. Cyro, “construção abandonada, ruína anunciada”. A obra de restauro ali executada exigiu esforços enormes, em vista das dificuldades de acesso. Mas é um dos passeios mais espetaculares do Sul do país, inclusive o acesso com escuna, que permite avaliar o esquema defensivo do Brigadeiro Silva Paes.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E LEITURAS RECOMENDADAS

1 – BROOS, Hans. Construções antigas em Santa Catarina. Florianópolis, UFSC, 2002.

2 – CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Nossa Senhora do Desterro, Memória/Notícia. Florianópolis, UFSC, 1972.

3 – CABRAL, Oswaldo Rodrigues. História de Santa Catarina. Florianópolis, Lunardelli, 1970.

4 – CURY, Isabelle. Cartas patrimoniais. Rio de Janeiro, IPHAN, 2000.

5 – LYRA, Cyro Illidio Corrêa de Oliveira. A Arquitetura da fortaleza de Santa Cruz de Anhato Mirim. Curitiba, boletim do Centro de Estudos Portugueses da UFPR, 1971.

6 – LYRA, Cyro Illidio Corrêa de Oliveira. O barroco na arquitetura militar de Santa Catarina. IN: Barroco, separata da edição 12, Belo Horizonte, 1983.

7 – MACHADO, Juarez. Ilha de Santa Catarina; caderno de esboços. Curitiba, Simões de Assis, 1998.

8 – MAPAS HISTÓRICOS BRASILEIROS. São Paulo, Abril, s/data.

9 – MELLO E SOUZA, Laura de. Formas provisórias de existência: a vida cotidiana nos caminhos, nas fronteiras e nas fortificações. IN: NOVAES, Fernando. História da vida privada no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 1997.

10 – OLIVEIRA, Maurício. Chacina em Anhato Mirim. Santa Catarina, Terceiro Milênio, 1996.

11 – PALMA DE HARO, Martin Afonso. Ilha de Santa Catarina; relatos de viajantes nos séculos XVIII e XIX. Florianópolis, UFSC/Lunardelli, 1996.

12 – S, Frederico de. Fastos da dictadura militar no Brazil. Portugal, Revista de Portugal, 1890.

13 – VIEIRA FILHO, Dalmo. Santa Catarina 500 anos Terra do Brasil. Florianópolis, A Notícia, 2001.

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OBSERVAÇÕES

– A receita funcionou bem e, no ano seguinte, o prof.Cyro coordenou o levantamento da Fortaleza de São José da Ponta Grossa, do qual participei e também o prof. José Lapastina Filho, atual coordenador da 10ª Regional do IPHAN.

– No ano 2000, juntei toda a documentação produzida no levantamento de 1970 e sugeri a publicação de um livro pela Editora da UFPR. Seria parte das comemorações dos 500 anos do Brasil. Continha as grandes pranchas desenhadas pelas equipes do levantamento, reproduções de todas as fotos em B&P e slides que fiz, textos do prof.Cyro e fotos antigas cedidas pelo prof.Oswaldo Cabral na época do levantamento. Mas para os custos gráfico de então, ficaria muito caro.

– Os slides que, ao longo de 44 anos, nem sempre tiveram a conservação adequada, foram melhorados pela Marialba.

 

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