A ZONA VENENOSA (D’après Conan Doyle)

9 de maio de 2014 por keyimaguirejunior

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         A chefe do Setor de Tecnologia da UFPR, profa.Andréa, soltou um xingamento dos mais incompatíveis com seu carisma de cordialidade: o computador apagara total. Tela preta. Ato contínuo, palavrões muito feios e incompatíveis com uma IFES, explodiam de todos os cantos do Centro Politécnico: sim, telas pretas, certamente mais uma pane na rede, abacaxi para incomodar por muitos dias.

Aproximou-se da grande janela, intrigada, e olhou o estacionamento a seus pés: maior confusão, vários carros batidos, gente brigando, buzinas tocando. Não deixou de reparar, em sua notória perspicácia, que o problema era com os carros de modelos mais computadorizados.

Mais além, na Linha Verde e na rodovia para Paranaguá, a coisa era pior: um congestionamento junto do outro, pilhas de carros começando a aumentar, veículos amontoados, engavetados, gritaria.

Já havia alguns dias que os aparelhos digitais do planeta davam sinais de insanidade mental, para desespero dos sistemas administrativos, financeiros e gerenciais. Mas ninguém levara excessivamente a sério, mesmo porque parecia tratar-se de algum “bug do milênio”, um vírus Ébola da virtualidade.

A profa.Andréa desceu pelas escadas – os elevadores do Bloco da Administração estavam parados, mas esses nunca funcionaram mesmo – e passou pelo Departamento de Arquitetura, onde havia uma reunião e indignação pelo apagamento de todos os note-books. Entrou na Cantina do Polaco, onde professores de vários cursos tomavam café e reclamavam da pane generalizada de tudo quanto era da Era Digital.

Na TV sobre a geladeira, uma criatura cacarejava acompanhada por um papagaio com cara de marshmellow. Foi com ansiedade próxima ao pânico que se assistiu à interrupção do programa para uma edição extra de telejornal.

As notícias eram realmente muito graves e extraordinárias: o caos se instalara no planeta. Celulares, computadores e toda a parafernália digital/eletrônica/virtual/etc – estava tudo mudo, telas vazias escuras inúteis.

Mas o mais interessante era notar que, apesar da voz sensacionalista dos jornalistas, a coisa não parecia tão ruim. Sem o controle proporcionado pela informática, os governos ruíam fragorosamente e as pessoas voltavam a governar – reassumiam o controle de suas vidas e havia no horizonte a perspectiva de melhores tempos, menos opressivos.

E muita diversão, ao perceber-se o desespero e a humilhação dos políticos que, desprovidos dos instrumentos de exploração, apavoravam-se ante a perspectiva de ter que trabalhar. Onde antes era pura prepotência e arrogância, agora era a preocupação com o pão de cada dia. Governantes renunciavam um a seguir do outro, alguns mais decentes cometiam suicídio, outros desapareciam sem deixar rastro, para o bem de todos e felicidade geral das nações.

O quadro seguinte, que pouca gente assistiu, era uma entrevista que uma jornalista fazia com um astrônomo, que vivia isolado no observatório da UFPR na Serra do Purunã:

– Prof. Key, ouvimos um comentário que o sr.sabe o que está acontecendo. Qual é a sua teoria?

Em vez de responder com bons modos, ele pegou um livro e leu:

– “É isso… Nosso planeta mergulhou numa zona tóxica do cosmos e está se aprofundando nela a milhões de milhas por minuto.” Substitua “zona tóxica” por “zona magnética” e verá de que se trata. Há dias os instrumentos acusam a passagem do planeta por uma zona cósmica de radiações com características estranhas. Isso é o que está atacando os sistemas digitais.

– E quanto tempo pode durar isso?

– Ah, minha filha, só Deus sabe…

– Mas se o sr. sabia o que estava para acontecer, porque não avisou???

– Bem que eu tentei, mas me mandaram calar a boca…

OBSERVAÇÕES

1 – O livro citado pelo irrascível professor foi:

-Arthur Conan Doyle – “La zona ponzoñosa”. IN: Obras completas, III. Madrid, Aguilar, 1954.

2 – A ilustração, de minha autoria, é de algum dia da década de 1960, e chama-se “Apocalipse”…

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