…E LÁ VAI A BELAS ARTES DE NOVO…

29 de abril de 2014 por keyimaguirejunior

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    Desde que conheço a Embap – Escola de Música e Belas Artes do Paraná –, há coisa de quarenta anos, se fala que a sede da Rua Emiliano Perneta não a comporta mais. É verdade, em parte pela dificuldade de expansão na área central da cidade, em parte pelo difícil convívio entre artes que, de comum, só tem o serem belas. A questão da expansão no mesmo terreno merece uma avaliação séria que, pelo jeito, não está sendo feita – pensa-se em mais “puxadinhos” quando não é por aí que se chegará a uma solução satisfatória.

     Impossível, certamente, não é. Como professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná, fui orientador de pelo menos três projetos de graduação visando instalar satisfatoriamente a Embap no mesmo prédio, ampliado com bons critérios – e inclusive, manutenção e restauração da área antiga do atual, que é patrimônio cultural da cidade. (Em tempo: se se quiser transformar Curitiba, não digo num modelo de planejamento, mas numa cidade excepcionalmente boa e bonita, basta escolher e executar três TFGs do CAU/UFPR por ano).

     Nesse ínterim de quarenta anos, vi a tradicional Belas Artes ser jogada de um lado pro outro feito peteca, só levando tapa. Fora as cogitações que nunca passaram disso, esteve em lugares tão inadequados que foi preciso removê-la às pressas. De todas essas locações, talvez a mais precária seja a atual – esquartejada, acredite quem quiser, entre ruas movimentadas (mas existem ruas não movimentadas nessa cidade?!) separando funções: coração aqui, fígado ali, cérebro acolá…

     E dessa insanidade, quer-se partir para outra maior, usando a velha tática de despir um santo prá vestir outro. Sendo que, no meio da mudança, ficam os dois peladões e vulneráveis. Quero dizer que, nesse processo, o risco é acabar com os dois – e não dá prá excluir que essa não seja, precisamente, a idéia dos nossos governantes.Imagem

     Pensemos um pouco no lado do CCC, Centro de Criatividade de Curitiba, onde se fala em instalar a Embap.

     A excelente reciclagem projetada pelo arquiteto Roberto Gandolfi no início dos anos setenta, foi para abrigar um tipo de atividade livre – precisamente, criativa. Quanto mais adaptáveis os espaços, quanto mais leves livres soltos, melhor. Já a Embap é uma academia. (A gente tem que explicar essas coisas bem miúdas prá ver se os caras do poder entendem, eles são “gente de dura cerviz”, expressão bíblica.) E uma academia tem atividades acadêmicas, entendem? Ainda por cima, no caso, de tipo muito especial, não é só aula “Giz e saliva”.

     Vê-se que, portanto, o CCC teria que ser reformulado “da capo” para abrigar a Embap. O custo não seria nada básico – seria, talvez, o equivalente à construção de novas instalações em outro lugar que, como mais valia, seriam mais adequadas.

     Mais uma idéia? Tem muita área na cidade que ainda não é parque mas deveria ser. Uma escola de artes, bem projetada, pode ser compatível com a preservação ambiental, determina um uso temático conveniente. Poderá ser o “Parque das Artes”, taí, já dei até o nome, só falta fazer.

     Há quem ache, nas altas esferas políticas, que o CCC é um espaço quase ocioso e levando a Embap prá lá, seria otimizado. Essa não dá nem prá discutir, é pura e simples ignorância e despreparo, não saber o quanto ali já aconteceu e continua acontecendo.

     Vamos dizer as coisas como elas são, a nível político. Ceder o CCC representa, para a prefeitura, empurrar uma despesa de manutenção para o Estado. E para o Estado, representa “se livrar” do problema da sede da Embap, como se dirá nos discursos de inauguração. Dizendo as coisas como elas são, nenhum dos dois entende de Arte.

     Algum estudante pixou na antiga sede da Embap: “Arte não é lixo”. Bem, tem a “arte povera”…

     Brincadeiras à parte,Arte é a máxima expressão de lucidez e de inteligência dentro da cultura humana. É um exercício de liberdade, onde se sintetiza, no embalo da História, a direção do futuro. Fazer pouco da Arte, empurrar soluções paliativas meia-boca aos seus praticantes, é pendurar mais uma âncora na nossa já tão combalida cultura. Quem foi mesmo que disse “quando ouço falar em cultura puxo minha Lugger?”

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