AS CIDADES INVIVÍVEIS – XI

29 de março de 2014 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-liberais – tipo Curitiba)
Décima primeira tese: A Criminalidade funcional
A tendência a se abandonar as cidades grandes em busca da segurança das menores é ilusória. Principalmente porque essa redistribuição de população é perversa: faz crescer as pequenas, que passam a ter os mesmos problemas das maiores. E não só a criminalidade, como ainda trânsito, verticalização e colapso das estruturas urbanas. Mas o pior é mesmo o crime, que transforma o habitante num sujeito desconfiado, sempre na defensiva, antisocial. Com medo de sair de casa – onde também não está seguro.
O prestigiamento da criminalidade foi a “solução” que nossos governantes – e aí vão os três poderes – deram à histórica má distribuição de renda do país. Qualquer pessoa normal pensa que distribuir a renda seria diminuir o acúmulo dos ricos em favor dos pobres – mas isso evidentemente não é possível: eles, políticos e ricos, não dividiriam o próprio bolo. Então, o caminho é dividir o da classe média – só que a classe média é, precisamente, média: não está com o dinheiro de ninguém.
Os criminosos – ladrões, arrombadores, assaltantes, latrocidas – são o instrumento governamental para avançar na renda da classe média – que, comparativamente, é fraca, não tem a expressão de outros países, onde manda. Está exposta à violência, como os ricos não estão – blindados por vários mecanismos que os tornam intocáveis.
Assim, prestigia-se o crime – para que pessoas que só têm o produto de seu trabalho, indefesas, paguem a conta de cinco séculos de incompetência governamental.
Por exemplo, a polícia faz apenas estatísticas, sob pretexto de ação preventiva – sem exercer a ação punitiva que é a única coisa que realmente segura o crime. Não existe estímulo maior que a impunidade.

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Fez-se um plebiscito para impedir as pessoas de se defenderem com armas – e o governo foi massacrado pela resposta da população. Usou-se o argumento de que os criminosos não compram armas em lojas, rouba-as de quem as tem. Dentro dessa lógica, para combater o tráfico de drogas, que usa armas militares, dever-se-ia desarmar o exército.
A pena de morte, que significa a eliminação do problema, e não seu adiamento em prisões cheias de privilégios – praticamente inexiste. Legítima defesa, defesa do patrimônio – são figuras jurídicas caídas no esquecimento. A alegação é pífia: inocentes poderiam ser condenados a uma pena irreversível. Mas e o cidadão, que andando na rua ou dentro de casa, é assaltado, roubado e morto, não é inocente? Esses – nós – são diariamente penalizados e, se a lógica dos defensores de bandidos for bem entendida, trabalhar e ganhar salário é um crime abominável, que deve ser punido com seqüestro dos bens adquiridos honestamente e, com freqüência cada vez mais assustadora, com morte.
Quando a polícia cumpre seu dever de dar duro em criminosos, o Quarto Poder – a todo-poderosa mídia – pula imediatamente em favor deles, escavando até inocentá-los e reenviá-los às suas atividades. Coitadinhos, afinal eles têm garantias jurídicas, direitos, etc. O assaltado, o vitimado – esse que vá trabalhar prá ter de que ser roubado no assalto seguinte, se não tiver deixado a vida no anterior.
O crime trabalha também a favor dos imobiliaristas: as pessoas iludidas com a aparente segurança dos apartamentos, deixam suas casas e compram essas caixas opressivas para morar. A Prefeitura baba de prazer com isso: é claro que um prédio recolhe um IPTU muito maior que uma casa.

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Quando o circo chegar e armar sua lona nos estádios, o mundo tomará conhecimento dessa farsa. As pessoas esclarecidas de todo o planeta já perceberam a alegria com que acolhemos bandidos de todos os matizes. Tenho dúvidas de que os esquemas de segurança que estão sendo montados consigam segurar a tampa da panela. Talvez consigam, é claro, afinal quando interessa a eles, a força existe para ser usada.
Tenho percebido uma tendência boba e retrógrada de acusar os governantes dos últimos vinte anos de “comunistas”, como quem os ameaça com uma revolução e ditadura militar. Nem uma coisa nem outra: os militares já se mostraram incapazes de consertar o país, ao longo dos trinta anos em que foram donos absolutos do poder. E nossos governantes não são comunistas nem socialistas nem anarquistas, sequer têm nível cultural para entender essas ideologias complexas. São muito, muito, muito pior do que isso: são neoliberais.

digitalizar0007 (2)Observação: as interevenções em notas de um real foram feitas para o blog “Grafolália” do Tinhão Bührer e sobre XEROX, mesmo que estejam fora de circulação.

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