O FIM DA CURITIBA “MODELO DE PLANEJAMENTO URBANO”

20 de março de 2014 por keyimaguirejunior

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 AS ENTRELINHAS DO PREFEITO FRUET

A grande sacada de Jorge Wilhelm para Curitiba não foi o Plano Preliminar em si, apesar de muito competente: entendeu bem a cidade, e sua implantação foi feita pelo prefeito Jaime Lerner – e a cidade virou referência mundial em urbanismo. O que Wilhelm previu, é que uma cidade com crescimento explosivo – chegou a ser o mais feroz do Brasil – tinha que ter um plano dinâmico, isto é, correndo na frente dos problemas, e não atrás.

Isso foi o que gerou o IPPUC – que deu certo, todos sabemos disso, e tem condições de continuar a cumprir com sua missão. Só que a politicalha pós-revolucionária que tomou conta do país enterrou sob sete palmos de incompetência, tudo o que não seja relesmente eleitoreiro, para se manter mamando no poder indefinidamente.

Aliados ao poder econômico e com apoio de uma mídia conivente, estão conseguindo fazer valer o que a imprensa carioca – nos tempos em que isso não era verdade – dizia: “ritiba” é “do mundo”. Cidade invivível, com os piores defeitos das piores e nenhuma das qualidades das melhores.

Mas o pior não é o que vemos – é o que ainda vamos ver. Com um cinismo despudorado, em vésperas da última eleição os dois candidatos remanescentes se declararam aliados dos imobiliaristas: a favor do adensamento e verticalização daquela que já é a cidade mais vertical do Brasil.

O argumento de que “não há mais área disponível” para os imobiliaristas enriquecerem significa que a cidade chegou a seus limites – daqui prá frente, é aguardar a explosão da tal “bolha imobiliária”. Claro que crescimento demográfico não pode ser entendido como progresso, muito pelo contrário – isso é travestimento que só beneficia a eles, imobiliaristas e, como decorrência, os políticos.

Adensamento e verticalização significam sobrecarga nas estruturas urbanas, sombras e umidades insalubres, tráfego mais difícil ainda (ou vocês acham que se pode concentrar gente sem concentrar carros?), ausência de privacidade, incremento do campo de trabalho dos filhos queridos do neoliberalismo, os marginais e criminosos.

Mas isso não são eles que vão encarar – são ricos – e sim, nós. Os imobiliaristas têm que encher de dinheiro suas contas bancárias enquanto podem: a crise de energia vai tornar, muito em breve, inviáveis os seus prédios. Os apagões já anunciados serão cada vez mais freqüentes, até um colapso que vai atingir a todos. Os prédios serão então abandonados – para virar muquifos, cortiços, favelas verticais.

Uma pergunta que faz todos os partidários da verticalização meterem a viola no saco: porque Berlim, que é a capital do país mais rico do mundo, não precisa de mais de seis andares e Curitiba “precisa”?

Ou todo mundo encara, digamos para deixar barato, um oitavo andar sem elevador, sem portão eletrônico, sem ar condicionado? Pensem em escalar as centenas de degraus várias vezes ao dia, prá não falar em levar as compras, um móvel novo (mudança, já pensaram?) prá casa. Se fizeram o exercício de pensar nisso, agora façam outro, morando no 18°, 28°, 38° andar. E, se além de morar, também trabalhar num prédio – vai ter gente chorando de saudades das casas e sobrados. De não ter dado os contras nas atuais reformas regressivas do prefeito. De não ter, como eu, recusado um mísero votinho a ele.

Eles, os imobiliaristas e políticos, estarão instalados em espaçosos condomínios e sítios, rindo de quem comprou suas “incorporações” a peso de ouro. Prédios que, salvo ação do pessoal do Bin Laden, ficarão para sempre atormentando os moradores.

No entanto, de minha parte, acho que, quem quer morar em apartamento e correr esse risco, tem todo o direito. Num certo sentido, a virtualidade dos note books, TV a cabo, celulares, tablets e similares torna qualquer buraco de área mínima habitável. O que hoje se entende por casa ou mesmo apartamento – comparados com os de há alguns anos – é prá quem hipotecou sua vida ao equipamento eletrônico.

Nada contra, portanto, prédios nas Avenidas Estruturais, Linha Verde, BRs e similares. O que é revoltante é que se queira verticalizar e adensar bairros residenciais onde a horizontalidade ainda predomina. Nessas áreas, nada acima de sobrado deve ser permitido. Solertemente, já se está mudando a denominação “Zona Residencial” para “Zona Especial” – isto é, onde se faz o que convém à Prefeitura. Dizer que não há mais áreas disponíveis nas avenidonas viárias – olha, vão contar essa na Conchichina, em Caixa Prego ou, de preferência nos Quintos dos Infernos – eu conheço essa cidade e sei que tem muito lugar nesses logradouros.

Mas assim como eu reconheço esses direitos a quem os quer, QUERO O MEU DIREITO RECONHECIDO TAMBÉM – morar em casa, ter chão e espaço, conviver com as poucas criaturas animais e vegetais que sobrevivem, ainda que escorraçadas, no espaço urbano. Sem sombras, congestionamentos e outras maravilhas do adensamento e verticalização.

A cidade está sendo empurrada conforme os ventos do mercado e contra o que seria sua conveniência. O próprio prefeito admite que não quer fazer mais nada, só cumprir seu pacto eleitoral com os imobiliaristas.

A “participação popular” de que se fala é uma farsa, ao gosto dos atuais donos do poder federal – que, aliás, nunca se deram bem em Curitiba. Vai ser homologado o que os políticos e seus amigos querem. Estão lá mecanismos para manipular eventuais oposições e fazer valer as ambições prefeiturais: como sempre, escalar o poder estadual e, flacidez ideológica ajudando, o federal.

A democracia é uma porcaria. Funcionava, há dois milênios e meio, nas pequenas cidades gregas, onde a distância entre o poder e o povo era diminuta. A nós, com a classe política que temos, só resta quebrar a cabeça quando há eleições para votar no menos ruim, no menos comprometido, no menos daninho para a cidade. Como já dito, na véspera das últimas eleições,  os dois candidatos se declararam submissos aos imobiliaristas.

Isso é democracia?! Ah, por favor!!!

Scan0001Cartum do médico/cartunista gaúcho “Posso rir agora, doutor?” da Aldeia Sul Editora, Passo Fundo, sem data. Vê-se não que não sonho sozinho…

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