OS EMBALOS DE SÁBADO À TARDE

17 de março de 2014 por keyimaguirejunior

Não sei se algum dia veremos o fim do livro convencional – é muito triste pensar nisso. Mas é só observar os jovens grudados em seus celulares, organizando a vida em função do aparelhinho, para perceber que isso é, no mínimo, possível.

Ou reuniões ou aulas com cada participante com o note-book aberto diante de si – nem é mais o conjunto torre-monitor-teclado-mouse.

Não é pela minha vontade que isso ocorrerá ou não: o suporte de papel tem encantos inatingíveis para a virtualidade. E a recíproca também é verdadeira: principalmente, a possibilidade de trabalhar a imagem virtual com facilidade, por parte do leitor.

As possibilidades de produção também são fascinantes: todo o processo industrial, complexo e poluente, para a produção de um livro de papel, se reduz a sentar diante do computador com uma idéia para escrever.

Imagem

     Roger Chartier, em “A aventura do livro”:

Um produtor de texto pode ser imediatamente o editor, no duplo sentido daquele que dá forma definitiva ao texto e daquele que o difunde diante de um público de leitores: graças à rede eletrônica, essa difusão é imediata.”

Embora o livro de papel, para sobreviver, exija cuidados especiais de conservação, a efemeridade é marca indissociável da virtualidade. Haja à vista – usando como referência, é claro, a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba – que as livrarias de rua praticamente acabaram, tendo-se refugiado nos shoppings. Mas o sebos, surgem a todo momento em todo canto.

No entanto, o prestígio do livro, por enquanto, permanece, nem que seja prá fazer pose de intelectual. Claro, pode-se cultivar essa mesma impostação/impostura com os numerosos gadgets eletrônicos – que somam ainda, uma conotação de modernidade.

O surgimento das mega-livrarias, com dezenas de milhares de títulos disponíveis – não se fala aqui da qualidade deles… – é, num certo sentido, uma resposta à amplidão temática que a net consegue oferecer. Mas é, também, a prova real de que, para o momento, o livro continua válido e eficiente.

Não há diferença alguma entre o clássico “leitor de sovaco” – passeando na Boca Maldita com J.Joyce debaixo do braço, e os atuais freqüentadores das mega-livrarias dos shoppings, encontráveis, principalmente, nas tardes de sábado. Não é dia exclusivo para eles, mas são, então, particularmente abundantes. Na falta de melhor ocupação, até freqüentar livraria serve.

Imagem

     Não dá prá não lembrar um episódio antigo, de antes da virtualidade. Entram dois rapazes na Ghignone – bons tempos!!! – e um começa a olhar os livros. O outro estrila:

_ Ah, cara, qual é?! Achei que a gente ia a um lugar legal e você me traz em li-vra-ria!!!

Mas vamos aos causos que são a razão deste post.

Numa dessas mega-livrarias, uma jovem mão estaciona o carrinho do neném no estreito corredor entre as estantes, só aí já bloqueando a passagem para os clientes normais. Então, ela senta no chão – demonstração de descontração, certo? – retira das estantes dezenas de livros infantis, que espalha à sua volta e começa a ler. O bloqueio de toda a secção é total.

Pouco depois, o neném acorda e começa a manhar. Ela continua a “ler”, até que “percebe” que a criança acordou e diz bem alto:

_ Desculpa, filha, estou tão entretida que não te vi acordar!

Recado da moradora da cidade invivível: “sou tão espiritual que, quando leio, saio do planeta!” Esse recado é o que importa em muitas dessas situações.

Outro indivíduo, na secção de “beaux livres” sobre países do mundo, escolhe e abre um bem grande – capaz de ocupar, sobre os outros livros do balcão, mais de um metro de largura – e se debruça sobre ele, viajando por muito tempo enquanto, com o rabo do olho, sonda as reações ao seu redor.

Recado: “vejam como sou sofisticado, além de bem vestido, me interesso por viagens, gosto de livros caros, estou revendo minhas férias em lugares que vocês não conhecem…”

Talvez, mas tudo isso ficaria mais bem caracterizado se o livro não estivesse de cabeça para baixo…

A aventura de alardear sofisticação não é, necessariamente, solitária. Numa dessas livrarias, um grupo de pessoas se reuniu, provavelmente combinadas, para conversar em francês diante da estante de livros nesse idioma, n’est-ce-pas? Tudo bem quanto à reunião em si, boa idéia mesmo, só que o lugar, deveria ser o café da livraria, sem obstruir as estantes. Pior ainda, são os olhares de hostilidade e até alusões que, eles acham, só eles entendem – “emmerdeur” não precisa ser francófono para sacar.

Recado: “quê que o nihondin aí tá pensando? Que nós vamos sair da nossa erudita reunião, só prá ele olhar os livros? Nem deve entender coisa alguma, está achando que aqui tem gibi…”

Esses são casos marcantes, tem os menos ostensivos. Chega a ser comum gente que fica lendo parágrafos – talvez em busca de citação para alguma conversa. Tipo assim: “esses dias, eu estava lendo Proust e ele escreveu que…”

Percebe-se que o(a) leitor(a) de livraria achou sua citação (desculpa aí, Benjamin) quando um sorriso de beatitude ilumina seu rosto. Mais umas páginas folheadas, o livro é largado e a pessoa vai embora, falando no celular…

Imagem

OBSERVAÇÃO: os cartuns são do livro “Humor na Biblioteca”, catálogo do concurso,

publicado pela BPP/SECE/CODECRI EM 1980. Autores, Cau, bellenda e Solda.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: