CASA DE ARAUCARIA: ARQUITETURA PARANISTA

3 de março de 2014 por keyimaguirejunior

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     1 – Economia madeireira no Paraná

A madeira é explorada na costa atlântica do Brasil – aí incluída a parte paranaense – desde o início do processo colonial. Madeiras excepcionais – pau-brasil, jacarandá, canela e outras – eram exportadas para o Rio da Prata e Europa.

Ainda no Primeiro Império, a extensão dessa exploração se torna alarmante. Lembremos que a força das nações é basicamente naval e que os navios eram feitos de madeira: em 1825 é emitido o primeiro decreto de restrição ao corte, colocando algumas espécies sob proteção legal. O que as torna classificadas como “madeiras de lei”. Ainda desconhecida comercialmente, a Araucária não é incluída no rol.

A exploração comercial da madeira paranaense esbarra, de início, na deficiência da rede viária, só se tornando viável a partir de fins do XIX. Quando de sua emancipação política, em 1853, o estado conta com 29 serrarias, em sua maioria no litoral. Pouco mais de cem anos depois, são 859 localizadas no Sudoeste, junto às últimas reservas florestais.

Como todos os ciclos extrativistas brasileiros, também o da madeira foi irracional e predatório. Já no século XX, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Brasil importa 148 mil toneladas de madeira de pinho. Quando da Segunda Guerra Mundial, o fluxo se inverte, sendo exportadas 250 mil toneladas anualmente.

Também como nas demais economias extrativas brasileiras, nas águas da avidez capitalista imediatista e da incompetência governamental, acaba-se com a madeira sem que tenha havido retorno proporcional às economias regionais.  A Lumber, maior empresa madeireira da América Latina, em conluio com a Brazil Railways única via de escoamento da madeira da região – obriga os madeireiros a estocar ao ar livre, junto dos trilhos – onde é deixada durante meses. Evidente que, depois desse crime, quando chega a ser transportada – isto é, depois da colocação da madeira da própria Brazil Railway – está imprestável.

Testes feitos pelo prof.Gunter Weimer da UFRGS, em laboratórios europeus, atestam que TODOS os pinhos, de todas as regiões do planeta, têm qualidades técnicas equivalentes.

Atualmente o Paraná importa madeiras ou usa as espécies exóticas, tendo sido passado o atestado de óbito para a Araucária.

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2 – A Casa de Araucária

Embora o índio brasileiro saiba usar com propriedade a madeira, não se pode considerá-lo nas origens da casa de madeira paranaense – nas quais, o processamento industrial é básico.

Também na arquitetura luso-brasileira, o uso da madeira se dá em peças trabalhadas artesanalmente. Apesar do quê, na estrutura independente e na implantação, é possível identificar remanescentes portugueses nas Casas de Araucária.

Pode-se aceitar, portanto, a casa colonial luso-brasileira como na origem da Casa de Araucária. E é melhor não forçar em atribuir o sistema de tábua-e-ripa às etnias que povoaram o Paraná – todas pertencem a culturas em que a madeira teve amplo uso na Arquitetura. O que parece evidente é que há um processo evolutivo dessas casas que irão adquirir, ao longo do tempo, na forma e na ornamentação, elementos da mitteleuropa. Como em todo sincretismo, é difícil isolar os componentes, mas a resultante é identificável como uma expressão cultural paranaense, talvez a única.

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3 – Paranaense X paranista

Se a Casa de Araucária é tão paranaense, porque nunca foi considerada paranista?

Se observarmos as ocorrências paranistas, temos claramente três momentos: o final dos anos 20/início dos 30; proximidades do centenário da emancipação política da província e declínio do Modernismo, já nos anos 80.

Impossível apontar uma resposta precisa e unívoca à questão proposta.

No primeiro momento, a mentalidade eclética que dominou a arquitetura do país durante mais de um século, estava nos estertores. Já acontecera a Semana de 22, o manifesto de Warchavchic de 25; Kirchgassner já construíra sua casa em Curitiba; e outros indícios da renovação proposta pelo Modernismo. E o Modernismo, conquanto inevitável, era autoritário, pretendendo-se auto-suficiente, desvinculado dos movimentos anteriores e eterno. Provavelmente o Paranismo não foi a única manifestação regionalista achatada pelo rolo compressor modernista.

Também é definitivo ter-se limitado às artes plásticas, tendo pintores e escultores sido os únicos a se entusiasmarem com a pregação de Romário Martins. Lange de Morretes atua também nas artes gráficas – uma dívida cultural enorme da cultura do nosso estado é a reedição facsimilar integral da “llustração Paranaense”. Arquitetos não existiam no estado, pelo menos não com a formação devida – as poucas “invenções” aplicadas à Arquitetura são de João Turin, e pouco desenvolvidas.

Finalmente, um tipo de manifestação espontânea como a Casa de Araucária, era estigmatizada sob o rótulo de “folclore” e dificilmente usadas como subsídio para o movimento. Tomando uma carona na fase da economia então mais forte do estado, o investimento na madeira como fator cultural poderia ter ido muito longe – apesar do risco evidente desse tipo de suposição.

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4 – Algumas leituras

– IMAGUIRE Junior, Key; GASPAR IMAGUIRE, Marialba; BATISTA, Fabio Domingos; BERRIEL, Andrea. A Casa de Araucária; arquitetura da madeira em Curitiba. Curitiba, Arquibrasil, 2011.

– IMAGUIRE Junior, Key. Breve introdução à arquitetura da madeira. Ravista Casa e Jardim, julho 1980.

– LAROCCA, Joel et allii. A Casa eslavo-paranaense. Ponta Grossa,Larocca, 2008.

– LAROCCA, Joel et allii. Manual de conservação e adaptação de casas de madeira. Ponta Grossa, Larocca, 2008.

– MIRANDA, Nego e WOLFF DE CARVALHO, Maria Cristina. Igrejas de madeira do Paraná. Curitiba, Cultural Office, 2005.

– MIRANDA, Nego e WOLFF DE CARVALHO, Maria Cristina. Paraná de madeira. Curitiba, Cultural Office, 2005.

– SANCHEZ, Fernanda; PEREIRA, Gislene; GUERNIERI, Mariete; WEIHERMANN, Silvana. Arquitetura em madeira: uma tradição paranaense. Curitiba, Scientia et Labor, 1987.

– ZANI, Antonio Carlos. Arquitetura em madeira. Londrina, Edul, 2003.

– ZANI, Antonio Carlos. Repertório arquitetônico das casas de madeira de Londrina. Londrina, Secr.Mun.Cult., 2005.

 

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Observação:

Todas as casas que ilustram esse post já foram demolidas.

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