ARQUITETOS, VAMPIROS E ZÍNGAROS

28 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” – esse era o tipo de estupidez que tínhamos que escutar dos políticos dos tempos pré-revolucionários. Nas águas desse capachismo, que dura até hoje, todo o Leste Europeu, o então bloco soviético, era apresentado como sinistro, opressivo e desinteressante culturalmente. Já não era mais a guerra fria da década anterior, era a guerra morna, ensejando o terrorismo de hoje.

Mas talvez o maior responsável pela imagem da Romênia que perdura, seja o romancista inglês Bram Stoker. O romance “Drácula”, de 1897, é uma narrativa excelente, daquelas que não se larga antes do fim do livro. Não sei se ele esteve na Transilvânia – junto com a Valáquia e a Moldava, uma das três grandes regiões do território romeno. Mas se não esteve, fez boa pesquisa em bibliotecas e museus britânicos, como seu personagem Jonathan. As descrições – de comidas inclusive – conferem, mas não dá prá acreditar no clima sombrio e sinistro. Isso ele inventou para participar do cenário do romance. Mas supondo que ele tenha por lá andado, há século e tanto atrás, e com um pouco de azar meteorológico, até que passa. Nós, curitibanos, sabemos de como a meteorologia pode produzir o carisma de uma cidade.

A própria lenda dos vampiros é local, trazida pelos ciganos, povo que migrou da Índia para a Europa em tempos imemoriais. O contingente populacional zíngaro é muito elevado na Romênia, da ordem de dez por cento, e com eles veio o mito do vampiro, já com as características exploradas até hoje pela literatura, cinema e gibis.

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Revista “Manchete”, 13 de junho de 1981

            O que o solerte irlandês fez, portanto, foi criar um personagem dramático no cenário abundante de resquícios feudais pré-soviéticos, onde condes e condessas tomam – literal e figurativamente – o sangue dos camponeses. Fora Drácula, os demais personagens poderiam ter saído de qualquer romance inglês do XIX.

O Drácula de Stoker não tem relação histórica com Vlad, o Empalador – a não ser, talvez, nas muitas lendas regionais de crueldade. Ele foi um rei da Valáquia: o pai tinha a prestigiosa Ordo Draconis e, como esta era hereditária, o filho, de feroz conduta guerreira, passou a ser conhecido como Vlad Dracul – e, com o correr do tempo, Vlad o Empalador.

Os otomanos, nessa época (primeira metade do século XV) já tinham vencido o Império Romano do Oriente, também dito Bizantino, tomando Constantinopla, o que era já colocar um pé na Europa. E o caminho para a Europa Central passava pela Valáquia e Hungria, parte final das vastas planícies do Danúbio. Ainda porque, atacar a Itália seria uma temeridade, mesmo para o Império Otomano, o maior de seu tempo. Havia por lá cidades-estado muito poderosas, como Nápoles, Roma e, principalmente, Veneza. A expansão, portanto, teria que se dar  por terras húngaras e romenas. Foi o que fez o sultão Maomé II, e esbarrou nos reinados regionais, chefiados por guerreiros ferozes.

Vlad atacou seu acampamento uma noite e, mesmo não conseguindo matá-lo, capturou grande número de turcos. Num deslocamento seguinte, o sultão passa por uma estrada onde Vlad tinha mandado empalar os prisioneiros – os números variam segundo as fontes, mas podem ter sido até vinte mil. Considerando que a “técnica de empalamento” da época era tal que a pessoa não morria de imediato, mas podia agonizar até durante dias, dá prá imaginar o que o sultão viu. Este era um guerreiro, mas também pessoa instruída – e achou melhor voltar prá casa.

Vlad viveu quarenta e poucos anos, dos quais onze como rei intermitente e outro tanto como prisioneiro dos turcos.

Vlad foi uma das primeiras vítimas da imprensa, na época recém inventada e em franco desenvolvimento. Já havia busca por leitores, e o horror vendia bem… As histórias de Vlad – as reais e as lendárias – correram a Europa, devidamente ilustradas por gravuras, contando crueldades, muitas das quais não têm comprovação.

Mas à parte das estratégias guerreiras – que em nada diferiam dos procedimentos da época – resta reconhecer que Vlad salvou a Europa de uma invasão turca – e não dá prá imaginar o que teria acontecido sem ele.

Que os europeus do século XV se apavorassem com isso, dá prá entender muito bem: o que se fez em guerras por lá é de amargar. Mas que, cinco séculos depois, no Novo Mundo se continue a imaginar o palco desses acontecimentos como uma região sombria, triste, atrasada, não se admite…

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Empalamento, em gravura do seéculo XVI.

            Eu ouvira falar de Brancusi ao ler a História da Arte, principalmente, a moderna. Mas numa conversa, Robert LaPalme disse considerá-lo um dos artistas mais importantes de todos os tempos.  E, realmente, o escultor produzia estilizações em que despojava tudo das formas supérfluas – concentrando-as em sua essencialidade. Essencialidade, já se percebe, de seu potencial plástico. Vi alguns Brancusi nos museus romenos – são absurdamente bons.

“Constantin Brancusi (Romenia 1876/Paris 1957): É um dos maiores expoentes da escultura internacional, à qual, com extraordinária sintetização expressiva, dava uma guinada decisiva rumo a uma nova formulação abstratizante. [Algumas de suas obras] permenecem entre os documentos mais extraordinários da expressão artística do nosso século.”

Isso é do Argan – e quando o Argan diz, todo mundo tem que baixar as orelhas.

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Homenagem a Brancusi – Ponta Grossa, 2013

            Depois, o Pier Paolo Olivieri  me levou para ver a Coluna Trajana, em Roma. Havia obras nas imediações e fazia um calor de 40° – não deu prá examinar o que é considerado uma das mais antigas formulações das histórias em quadrinhos, isto é, uma narrativa em imagens seqüenciadas, contínuas, em espiral. Só não sei como o Trajano queria que a gente visse suas proezas contra os dácios  lá no alto, a  mais de vinte metros do chão… Só pude entender bem o significado da Coluna Trajana no Museu Nacional de Bucarest, onde existe uma réplica, feita com molde, e legendas explicativas.

DSC_0034Quando a Renata Capdeville articulou nossa primeira viagem à România, fui dar uma olhada no atlas, hábito de viajante. A primeira surpresa que tive, foi quanto às semelhanças geográficas daquele país com o Estado do Paraná – uma curiosa série de coincidências.

Não é só o contorno territorial que é muito parecido: a posição relativa das capitais Curitiba e Bucarest também é.  As cidades “mais a oeste”, Foz do Iguaçú e Timisoara guardam a mesma relação, assim como os portos principais, Paranaguá e Costanza. As serras paranaenses são mais a oeste e os Cárpatos mais centrais, mas ambos são cadeias de montanhas discretas, aqui com pouco menos de dois mil e lá com pouco mais que os mesmos dois mil metros de altitude. Finalmente, um grande rio ao sul – prá nós o Iguaçú, prá eles o Danúbio. Também as populações das capitais não andam longe, aqui chegando aos dois milhões e lá já passando deles, ambas com muitos parques.

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            Na primeira viagem,conhecemos apenas Bucarest, Sibiu e imediações. Sibiu era, naquele ano, a Capital Européia da Cultura – com uma área histórica totalmente restaurada, lindíssima, mantendo as características do urbanismo medieval com excelente trato paisagístico. Faltavam poucos dias para o Natal e a população estava toda nas ruas, passeando, patinando, indo a feiras e confeitarias…

Timisoara

Casa Lara, em Timisoara – juri do concurso

            A segunda viagem foi um privilégio raro: estávamos no júri da 10ª Bienal de Arquitetura de Bucarest e fomos levados a conhecer as obras inscritas no concurso. Fomos a cada uma das principais cidades romenas, onde éramos recebidos por um arquiteto local, que nos apresentava não apenas as obras a serem avaliadas para o concurso, como também restaurações, monumentos e obras de interesse. Tudo intercalado com refeições regionais diferentes e deliciosas. Dá prá ser melhor que isso?!

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Piaza Mica, em Sibiu – Foto Victor Muraro

            E não só as cidades romenas são interessantes – as estradas são interessantíssimas.  Percebem-se tipologias específicas de cada região nas casas, das alucinadas casas dos ciganos, aos monastérios onde se leva uma vida extra-planetária.

Nas colinas entre Alba Iulia e Sibiu, um visual de não se acreditar: em pleno  século XXI, um pastor com seu cajado caminhando à frente das ovelhas, enquanto um grande cachorro preto corria em volta mantendo o rebanho compacto…

Alba Iulia, antiga fortificação romana, faz pensar em Ouro Preto: ela tem o trato que nós queríamos para a nossa mais bonita cidade…

As obras inscritas no concurso são excelentes, embora, desde os painéis, eu já me tivesse encantado com a reciclagem de uma fortaleza em Timisoara. Mas outras obras novas também eram muito boas, surpreendendo o bom e abundante uso do metal. Um arquiteto romeno comentou minha admiração:

– Nós temos uma importante siderurgia a nível de Europa. Ou você não sabia que a Torre Eiffel foi fundida na Romênia?

E também umas coisinhas que davam vontade de esconder o passaporte brasileiro ao lembrar pessoas e jornalistas bobocas daqui, quando se referem condescendentemente àquele país. Por exemplo, em Cluj Napoca, um belíssimo e moderníssimo estádio de futebol foi construído, do nada à inauguração, em nove meses. Ou um campus em Brasow, destinado ao estudo de tecnologias avançadas, no qual a comunidade européia despejou alguns milhões de euros, para financiar uma dada área construída. Os romenos se apertaram, racionaram, economizaram, se viraram – e fizeram o dobro do projetado, com o mesmo dinheiro.

Claro que essas duas viagens são pouco para um país de cultura tão rica.  Não admira que nunca tenha havido um fluxo migratório importante de romenos para o Paraná, como houve dos vizinhos polacos, ucraínos, alemães, italianos.

Espero que os muitos amigos que deixamos lá leiam essas notas – e nos convidem a voltar. Não é difícil para eles que são, como nós, “flores do Lacio”… Se não der prá voltar como humano, talvez como vampiro – Sighisoara, umas das cidades onde morou Vlad o Empalador, é uma dessas maravilhas medievais aconchegantes, convidativas, acolhedoras…

vampiros

Recomendações de leitura

– Anônimo. Contos do vampiro. São Paulo, Martins Fontes, 1986.

– ANTONESCU, Dinu. Columna lui Traian. Bucuresti, ARA, 2009.

– ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo, Cia das Letras, 1992.

– BREZIANU, Barbu. Brancusi in Romania. Bucuresti, Allfa, 2005.

– DJUVARA, Neagu, & OLTEAN, Rader. From Vlad the impaler to Dracula the Vampire. Bucuresti, Humanitas, 2010.

– PASCU, Stefan. Istoria româniei compendiu. Bucuresti, Editora didactica si pedagogica, 1974.

– STOKER, Bram. Drácula. Portugal, Europa-América, s/data.

VLAD TEPES. (Edição para bibliófilos em papel artesanal, sem dados).

– WATT, Ian. A ascenção do romance. São Paulo, Cia das Letras, 1990.

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