AS CIDADES INVIVÍVEIS – X

25 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-liberais – tipo Curitiba)

Décima tese: Obras lesmais

Uma senhora da família, tão ingênua quanto avançada em anos, foi levada a ver as obras que se faziam para o Centenário da Emancipação Política do Paraná, em 1953. Olhou tudo o que lhe mostraram e abanou a cabeça:

– Isso é só pro Centenário, depois tiram tudo…

*

     Na época da implantação do Plano Diretor do recém falecido Jorge Wilhelm, o IPPUC tinha duas kombis que pegavam e devolviam o pessoal em casa. Em certa manhã, passamos pelas obras de implantação de uma avenida estrutural. Montes de material prá todo lado, máquinas trabalhando, aquele fervo de obra que se pretende acabar. Uma das secretárias, no banco da frente, olhou aquilo tudo e comentou:

– Onde será que estava indo todo o nosso dinheiro antes dessas obras?

*

     Passei por essas duas situações, uma como criança e outra ainda estudante. O que torna, agora, inevitável uma comparação com as obras da Copa.

A maior diferença é com relação à expectativa. Se as obras do Centenário não ficassem prontas, como não ficaram, seria problema nosso, dos paranaenses. Todos conheciam a desgraceira da geada sobre a quase monocultura cafeeira – e quando ela veio, era uma causa real, palpável. O prestígio do Paraná, para se afirmar como o mais novo estado brasileiro, não foi comprometido. A festa ficou pela metade, mas tudo bem.

No caso da implantação do Plano Diretor, só se soube o que ia acontecer quando já estava acontecendo – e se nada houvesse acontecido, o Plano Diretor iria para a gaveta e nada de novo sob o sol dos trópicos.

Mas agora, o que não acontecer, será um vexame internacional. Nossos prefeitos conseguiram soterrar o carisma bem produzido e bem merecido da cidade sob uma grossa crosta de incompetência, haja à vista as propostas de reformulação do Plano Diretor – para acabar com ele.

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Não vejo quem quer que seja entusiasmado com essas obras. Não é só o meu caso, que não gosto de futebol e, a última Copa que curti, foi a de 1962… O que percebo é um ceticismo com o arrastar das coisas, nem mesmo o famigerado coliseu – panem et circensis, certo? – deixa de provocar náuseas. Vi um excelente estádio, na cidade romena de Cluj-Napoca, feito, de ponta a ponta, em nove meses…

Ninguém se espantaria se a Alemanha ou o Japão fizessem um estádio nesse prazo – mas com as crises que o Leste Europeu enfrenta, e nós com o nosso bafio de riqueza sustentado pelo governo – qual é a desculpa? Nem geada está acontecendo…

Não é só estádio – Linha Verde, ponte estaiada, Avenida das Torres, Avenida de Contorno, rodoviária, aeroporto – tudo de arrasta, tudo se procrastina, tudo se enrola. Mas não, não haverá vexame, fiquem calmos. O partido mandante vai cagar dinheiro, se precisar, mas tudo ficará pronto. Nas coxas, é claro. Estou um pouco com a velhinha do início do texto: é só prá Copa, depois cai tudo por mal feito e por falta de manutenção… Mas não faz mal, quando isso acontecer, serão outros os nomes no poder.

Não acredito que alguém viaje das demais cidades da Copa a Curitiba para ver os joguinhos que nos tocaram. Quem vier, virá como turista genérico iludido: para ver uma cidade que já foi conhecida pela excelência do planejamento urbano. Ou fazendo escala para Floripa, Foz do Iguaçú, Ponta Grossa.

E vai ver um Setor Histórico detonado por pixadores e vândalos, tomado por maloqueiros e drogados – um orgulho. Passear nos parques certamente não é um atrativo em si, encher o bucho em Santa Felicidade, talvez até seja…

Então acho que a infernização da Copa não vai criar o paraíso consumístico que se alardeou. Vai ser um mês prá se ficar em casa, trabalhando, e rezando prá São Pedro mandar geada…

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Cartum fotográfico, tentativa desesperada de tornar a Copa do Mundo um negócio minimamente interessante. Exposição na Gibiteca, há umas quatro ou cinco copas atrás…

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