JERÔNIMO, um herói do far nort-east

24 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

Jerônimo, o Herói do Sertão, surge no contexto das novelas de rádio dos anos cinqüenta. O autor dos textos foi Moysés Weltman, evidentemente sob influência dos gibis e filmes que então glorificavam os cow-boys de cinema. E não sou eu quem vai negar a existência de alguns bons filmes e gibis no ciclo…

Embora eu nunca tenha escutado uma dessas novelas, lembro que a fissura por não perder um capítulo era a mesma dos dias de hoje, com as da TV. As vozes dos heróis eram dos artistas Milton Rangel (Jerônimo), Dulce Martins (Aninha) e Cahuê Filho (Moleque Sacy). Para os efeitos especiais, vocês leiam “Tia Julia e o escrevinhador”, do Mário Vargas Llosa.

Foi um grande sucesso – na revista, comemorou-se o milésimo capitulo. Foram feitos discos com as histórias, fizeram-se musiquinhas, distribuiram-se fotografias dos atores caracterizados, enfim, continua tudo igual ainda que na TV seja a cores. Em grande parte, talvez o gibi fosse uma mídia possível para a época, consideradas insuficientes as existentes. Inicialmente, as histórias quadrinizadas eram os mesmos roteiros radializados, fazendo sua independência em momento não localizado.

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     O primeiro número foi publicado em julho/agosto de 1957, tendo sido reeditado. Os desenhos eram do clássico Edmundo Rodrigues, que a levou até a edição 65. A partir da seguinte, passou a Juarez Odilon. O desenho de Edmundo Rodrigues se esforçava nos sombreados, claro/escuros, texturas. Seu sucessor era mais da linha, resultando em páginas pouco claras, visualmente menos elaboradas. Os personagens de Rodrigues são fáceis de acompanhar ao longo da narrativa, com traços marcantes. Os de Odilon, entre dois quadrinhos, parece que o personagem mudou de fisionomia… mas os dois desenhistas produzem cenas pouco dinâmicas, mesmo as mais dramáticas.

A Rio Gráfica Editora Ltda. Imprimiu 93 edições do gibi, e mais cinco almanaques, numa vida de oito anos. Poucas séries brasileiras foram tão longe. Cor, só nas capas em papel cuchê, e entre as edições 79 e 88, houve uma redução de formato – pressagiando os tempos dos nefastos “formatinhos”. Cada historia se desenvolvia ao longo de uns 200 quadrinhos, em 30 a 45 páginas – aí incluídos os panorâmicos, os ligados, e outros recursos. Nas primeiras edições, a página central era apenas um desenho, mais caprichado, de uma cena importante.

Como história, era uma monótona sucessão de lugares comuns e situações forçadas: quem leu uma história, leu todas.

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Claro que os autores não inventaram esses truques narrativos mas a fórmula comportava:

-viagens de um lado pro outro o tempo todo;

-tocaias frustradas por parte dos vilões;

-disputa de terras entre dois coronéis, do bem e do mal;

-a reunião em que o herói desmascara o bandido;

-os seqüestros da Aninha, a namorada do herói;

-a filha bonita do coronel mau, que se apaixona pelo Jerônimo ou por um seu amigo;

-os bandidos mais chatos e insistentes do mundo, reunidos em bandos imensos de cangaceiros;

-títulos tirados de músicas, filmes, romances;

-o tiro que mata o delator um segundo antes dele revelar o nome do culpado, vindo não se sabe de onde;

-a loucura ou suicídio do culpado ao ser desmascarado, para que o herói não precise matá-lo;

-a pontaria infernal de Jerônimo que a usa apenas para desarmar o bandido.

Algumas situações forçadas:

-castelo medieval no sertão baiano (nem Garcia d’Ávila ousou tanto);

-amigos “mortos” em aventuras anteriores que ressurgem para resolver situações difíceis;

-civilizações perdidas no Amazonas.

-faltaram uns Ovnis sobre Juazeiro…

No entanto, “a coisa” poderia ter rendido boas histórias – não tem menos nem mais que o Fantasma de Lee Falk e outros heróis emblemáticos das HQ.

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Aninha reformulada para relançamento do gibi pela Grafipar…

     A erotização da Aninha – mesmo pegando leve – não precisaria chegar muito longe para melhorar as coisas. A época não permitia muitos avanços nesse sentido, mas situações ambíguas tipo Mandrake/Narda/Lotar já eram comuns. Principalmente nas capas, Moleque Sacy está na garupa do cavalo de Jerônimo…

O esquema, em linhas gerais, é o convencional: o herói baseado no grande mito da época, o cow-boy; sua namorada – o que os quadrinhólogos franceses chamam de “fiancée eternelle” – e o “escudeiro”, que vem dos romances de cavalaria medievais, encarnado pelo Moleque Sacy. No mais, uns bandidos bem mauzões, bandos de cangaceiros para dar cor local e nada mais…

No início dos anos setenta, a editora Bloch relançou o Herói do Sertão em formatinho – mas herói nenhum resiste a essa avacalhação. Até mesmo as páginas centrais, que eram o melhor visual dos gibis antigos, desapareceram. Foi uma época de tentativas de resgatar os gibis e autores brasileiros, feitas pelas editoras tradicionais de HQ: Vaca Voadora, Gabola e até o Saci Pererê…

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Observação: esse texto é de 1971, sendo o primeiro que escrevi sobre quadrinhos. Fiz umas alterações, é claro.

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