SELF-ENTREVISTA

17 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

Pernas 15

Foi assim que o A.B.Cassal a denominou. Ele me pediu um texto para seu fanzine, caracterizando minhas posições sobre o gibi contemporâneo. Fiz essa pseudo-entrevista, que ele publicou no Fonfon, edição de Natal de 1992. Claro, 22 anos depois, muita coisa mudou, mas na essência ainda é tudo igual. Ele foi prudente o bastante para colocar a seguinte

“Nota do editor: a direção deste hebdromedário, fiel a suas raízes cristãs, moralistas e conservadoras, não ousa subscrever as audaciosas posições – epa! – do articulista. Preferimos, comodamente, mantermo-nos em cima do muro como, de resto, a quase totalidade da grande imprensa brasileira, melhor assim…”

Entrevista gravada é uma coisa esquisita: a entrevistadora te faz uma pergunta, você responde pro câmera e quem escuta é gente que você não tem a menor idéia de quem é. Nisso eu pensava, entre outros assuntos mais transcendentais, sentado na Gibiteca de Curitiba. A entrevista tinha sido marcada pelo telefone.

Ao longe, ouço, nos assoalhos da Baronesa, um toc-tocar de saltos femininos. Levanto os olhos das aventuras de outro Barão, o de Rapapé (desculpe, viu, Max Yantok, mas a carne é fraca) e vejo a entrevistadora. Sorridente, muito jovem – tipo primeiro emprego – num pedestal de belas pernas, evidenciadas pela mini-saia. Compreendi então o poder da mídia e levantei para cumprimentá-la. Ela sentou e a saia ficou ainda mais mini. O câmera já estava filmando e acho que era bicha (gíria de época) prá ficar apontando prá mim e não prá ela.

– Essa entrevista é para a TV-Fonfon de Porto Alegre, programa Jornal do Cassal. (Pensei com meus botões: mas você foi contratada pelo Jotabar…) Vamos fazer umas perguntas sobre gibis, posso começar?

Acenei que sim, me fazendo de intimidado, o que estava mesmo. Me ajeitei e ela, fazendo cara de má apesar de ser muito boa, lascou:

– Você é um estraga prazeres tido e havido quando, em textos e palestras, insinua tendências gay no Fantasma-que-anda, Batman e outros heróis de ilibada conduta. O que tem a declarar sobre isso?

– Bom, dá prá ver a coisa de dois ângulos. Primeiro, que tipo de sujeito usa aquelas malhas de lycra aderentes vermelhas, com short de listas inclinadas e sai por aí carimbando caveirinha na cara de marginais truculentos? Depois, é raro aparecer guria nas aventuras desse pessoal. Quando surge uma, logo matam ou mandam pro hospital prá ficarem só os marmanjos na ação. E prá mim, sonho, magia, encanto, devaneio, evasão – tudo isso é importante pro leitor de gibi – sem componente feminino, vira aquelas sociedades meio-orientais, chatas até onde dá prá ser.

Pernas 15 (8)

     Ela ficou evidentemente lisonjeada, mas não deu o braço a torcer.

– Você acha, então, que os filmes do Indiana Jones (era a época…), só como exemplo, são desinteressantes? Não existe a aventura em estado puro?

– Nada existe em estado puro, nenhum alquimista, nem  mesmo armado de todas as tecnologias, jamais conseguiu isso. Eu vi o primeiro Indiana Jones e gostei, me aborreci no segundo e o terceiro nem sei se foi feito. Não troco o ciclo completo por um episódio do Flash Gordon com a Jean Rogers de Dale Arden…

– Você acha, então, que no caso do “Batman- o retorno” a presença da Mulher-gato livra o herói da suspeita de bichice?

– Não. Não totalmente, pelo menos. Faltou o Robin estar presente. Sem ele, é como se o morcego chegasse para o diretor do filme e dissesse: – ou ele ou ela, os dois juntos, dá problema. Situação ridícula, né?

(Ela descruza as pernas: estava com a direita sobre a esquerda e agora inverte. Vi o Arco do Triunfo e me senti como Julio Cesar entrando em Roma depois da conquista da Gália.)

– Mas então – voltando aos quadrinhos – você nega a genialidade do Hugo Pratt, por exemplo, que sublima o erotismo em suas aventuras?

(Ai ai ai, lá se foi minha coroa de loros…)

– Olha, eu não nego coisa alguma, só afirmo… quem não gostar, que negue. Pratt é dos meus autores preferidos. Depois de um álbum do Corto Maltese, leio um do Manara e tudo fica equilibrado. A aventura não tem que ser assexuada ou explicitamente erótica, há muitos autores europeus que sabem dosar os ingredientes e agradar.

– Mas não só os europeus, você não pode negar que o Will Eisner…

– O Will Eisner só é americano por uma circunstância de nascimento, de cabeça, ele é europeu.

Agora o pezinho balançava indócil prá frente e prá trás, fazendo ondular os músculos locomotores numa sinfonia sem sons.

– Cê tem um problema com a HQ americana, confesse.

– Confesso e assumo. Ressalvando algumas produções muito boas, o resto – leia-se Marvel e DC – é o resto mesmo no mundo dos quadrinhos. Você pode jogar tudo no lixo e na História das HQ, fará muito pouca falta. Pobre cultura, a de um país que precisa de super-heróis!

– Mas eles são a projeção da sociedade que…

– Sociedade violenta, alienada, assexuada… numa palavra: chata.

– No entanto, as personagens femininas têm aumentado…

– Mas bah, não. Veja a participação da Mary Jane, uma das melhores personagens da HQ americana – sempre sufocada pelo moralismo. As super-heroínas não contam: são comportamentos masculinos em corpo meio feminino…

– Há exceções, você generaliza demais.

– Não se pode estabelecer nada sobre exceções. Tem-se que pegar as linhas gerais da coisa. Pode-se dizer que o quadrinho americano só foi veraz no western: de lá prá cá, continua a truculência, a porrada, o tiroteio com cenários de Gothan City e Metrópolis… Se isso é aventura, melhor os catecismos do Zéfiro…

Ela se ajeitou na cadeira, como quem antecipa que vai levar o cheque-mate em dois lances. Descruzou as pernas, deixou-as paralelas e juntas, de frente prá mim. Pressenti uma jogada desleal.

Pernas 15 (4)

     – Eu estava quase te dando razão, com colocações radicais mas lúcidas, quando falamos de heroínas masculinizadas, violência desnecessária, etc. Mas se você é a favor da pornografia, volto a achar que é machista assumido…

Também me arrumei, prá ficar mais de frente prá ela e gozar melhor do visual. Respondi no mesmo tom glacial que ela usara.

– Eu sou pós-feminista, menina. Não sou contra pornografia, já disse que só afirmo, não nego. Eu gosto mesmo é de erotismo – e todo mundo gosta, tenha ou não coragem de assumir.

Jogou a cartada final:

– Você, pelo jeito, só pensa nisso!

– Diz aí uma coisa melhor prá se pensar…

Olhei direto prás pernas dela. Primeiro ficou séria, depois percebeu que a olhada era parte da argumentação e a entrevista terminou assim, meio boboca, com risadas…

Ao fazer seu primeiro aninho, este blog conta com quase 11.000 visualizações e 100 posts. Em comemoração, permito-me publicar esta auto-entrevita com graciosas ilustrações.

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