A TURMA DO PERERÊ: UM GIBI DOS BONS TEMPOS

15 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

1 – Como e porquê a “Turma do Pererê” é o melhor gibi brasileiro de todos os tempos.

O fascínio da “Turma do Pererê” se explica facilmente, pelo menos para mim: Ziraldo é o herdeiro das tradições narrativas lobatianas. Mas ele não quadrinizou o Sítio do Pica-pau Amarelo: seria muito básico para alguém com criatividade tão exacerbada. Aliás, ninguém conseguiu ainda essa proeza, para mídia alguma.

Mãe Docelina é Tia Nastácia – aquela que os políticos adeptos do politicamente correto acham discriminada. Como regra os personagens de Lobato são configurados em dois personagens ziraldianos: Pedrinho “é” o Saci e Tininim; o Coronel Teodorico “é” Tonico Macedo e seu Neném; Narizinho “é” Boneca de Piche e Tuiuiu. O Visconde de Sabugosa é a coruja General; a boneca Emília “é”, principalmente, o Geraldinho – mas tanto ela como os demais são componentes parciais das ricas personalidades dos personagens do Ziraldo.

Claro, a correspondência não é tão simples nem tão exata – estou sendo reducionista para mostrar que há um paralelo possível entre as duas obras, que vai além dos sítios e matas como cenário não urbano. Levar a comparação e composição das personagens mais longe, a nível de comportamentos nas situações das narrativas, seria uma chatice que deixo para os acadêmicos. Quem precisar de um bom tema para TCC em Letras ou Artes, fique à vontade para usar a idéia.

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2 – Imagem e texto

Uma História em Quadrinhos é uma narrativa feita por texto e imagens interdependentes – e as definições que buscam outras coordenadas são manipulativas.

Quanto ao desenho, acho que não há quem possa negar as virtudes do Ziraldo, ainda que, no caso, como líder de equipe. Feito desde sempre para as cores, o Saci pouco trabalha com texturas ou detalhes – a não ser a serviço da narrativa. Todos os recursos do desenho – linhas de movimento, balões indicadores de nuances de fala, onomatopéias que podem chegar a dominar a história – são complementares dos gestos e deslocamentos, das falas. Nada falta, e nada é gratuito. A mesmice, a repetição, a preguiça de desenhar – que estragam grande parte da produção brasileira – ninguém sabe, ninguém viu no Pererê. Foram para os gibis comerciais.

Quanto às situações, vão longe das tradicionais polícia-e-ladrão, sonhos de domínio do universo, riqueza de Creso, maldade em estado puro – que sustentam, há décadas intermináveis, os super-heróis. As historias conseguem falar, sem pieguice e sem coitadismo, dos bons sentimentos e das virtudes humanas – como se fossem apenas coisas normais. Em compensação, quando comparecem ciúmes, inveja, rivalidades – o tratamento é o mesmo, sem que isso faça de quem quer que seja, merecedor de um banho de sangue.

Mas o que me toca mais nas aventuras da Turma do Pererê, talvez coubesse sob os rótulos de coloquialidade e cotidianidade. Embora a ficção compareça com freqüência, e o caricatural seja da natureza desse tipo de história, é tudo sem artificialismo, pedantismo ou didatismo bobocas.

O leitor embarca com curiosidade e sem receios no gibi – vai ser sempre divertido, bem feito, bom de ler…

o cruzeiro 7 maio 1960 - Cópia (2)o cruzeiro 16 jan 1960

A fase do Saci como cartum, no Cruzeiro, em 1960. Eram ou não eram bons tempos?!

3 – Cronologia

     Uso a estabelecida por João Antonio Bührer d’Almeida, com modificações que me parecem pertinentes. Há discordâncias a resolver, e aceitamos com satisfação correções, contribuições e precisamentos. Não esquecer que se trata, aqui, apenas da Turma do Pererê – um levantamento completo do trabalho do Ziraldo é tarefa hercúlea para outro momento.

-Fim dos anos 50. Surgimento do personagem, em forma de cartuns, tiras verticais e páginas inteiras n’O Cruzeiro.

Outubro 1961. A empresa “O Cruzeiro” lança a revista “A Turma do Pererê”, numa “política de inclusão” de autores brasileiros. A linha de publicações infantis da editora era extensa, com Luluzinha, Bolinha, Gasparzinho, Riquinho e outros inhos. Chegaram a ser publicadas também dez edições do excelente “Dr.Macarra” de Carlos Estevão, e havia previsão de mais.

-Anos 70. Ziraldo tenta, quando era diretor do Pasquim, colocar a história no tablóide. Mas não emplacou, não era “o espírito da coisa” – que era eminentemente política.

-1972. A Editora Primor lança três álbuns, que ainda são a melhor aparição da história, em volumes com empostação de álbuns europeus, capa dura e bem impressos. Primorosos!

-1975. A Abril lança o personagem no aviltante “formatinho”, em novas histórias. Durou menos de um ano: dizia-se, na época, que a Abril não mantinha publicações que vendessem menos de cem mil exemplares.

-1985. A Abril reedita, em quatro “almanaques”, a série de dez anos antes.

– 1999. Às voltas com o novo milênio, cheio de velhos problemas, é lançada pela Nova Didática, de Curitiba, uma série de dez álbuns, com temáticas contemporâneas. Os personagens perdem muito do encanto, mas resistem e continuam interessantes.

– 2002. São lançados três álbuns pela Salamandra, sob o título genérico de “Todo o Pererê”. No entanto, acho que não estão aí todas as histórias. Como uma das mais caras tradições dos editores brasileiros de gibis, deixaram a série sem terminar.

– 2007. São lançados três álbuns temáticos pela Editora Globo.

Não estão aí incluídas publicações esporádicas de discos e outras mídias impressas que não os gibis. Também não menciono os seriados para TV – nem o Lobato eles conseguiram adaptar ainda…

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4 – Enfim…

     Em algum evento na Gibiteca de Curitiba, no milênio passado, eu disse ao Ziraldo:

– Cada vez que recomeça a publicação do Pererê em algum lugar, eu fico feliz, achando que vou reler todas as histórias antigas e que você vai fazer novas e não vai mais parar…

Ele abanou a cabeça, negando:

– Não vai ter isso, não. Nós perdemos aquela inocência.

Flávio Colin, ao lado dele, concorda com certa tristeza.

Eu deveria ter perguntado ao Ziraldo quem, afinal, perdeu a inocência: ele como autor, o quadrinho brasileiro em geral – visto que o Colin concordou – ou nós, brasileiros.

Fica por conta de cada um dar uma pensada aí.

E essa é a explicação de porquê chamei o Pererê de “O gibi dos bons tempos”: foi concebido numa época em que, euforias e futebóis à parte, nós tínhamos esperança no Brasil como um País. Tínhamos bons escritores, boa música, bom cinema, boa arquitetura, boa arte – e um bom gibi. Tudo ia dar certo, tudo ia ser bom.

Os bons tempos acabaram nos anos de chumbo. E esses se diluíram nos anos de borra. É, “borra” com “B”. Esse é o nome daquela camada inconsistente que sobrenada quando se derrete metal para uma fundição: são as impurezas, a sujeira, o indesejado, que se joga fora por inútil. É o neoliberalismo.

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5 – Algumas recomendações de leitura

– ALMEIDA, João Antonio Bührer de. Os 80 anos de Ziraldo através da Turma do Pererê. Campinas, Centro de Ciências Letras e Artes, 2012.

– CAMPEDELLI & ABDALA. Ziraldo. (Coleção Literatura Comentada). São Paulo, Abril, 1982.

– CIRNE, Moacy. A linguagem dos quadrinhos; o universo estrutural de Ziraldo e Maurício de Souza. Petrópolis, Vozes, 1971.

– SAGUAR, Luís e ARAÙJO, Rose. Almanaque do Ziraldo. São Paulo, Melhoramentos, 2007.

Ziraldo 40/55. Rio de Janeiro, Salamandra, 1988.

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 Essa é uma raridade que só se acha mesmo nos “Arquivos Incríveis” do João Bührer: é uma página da “cartilha” em que o autor repassa as características do personagem para sua equipe, para evitar discordâncias ou fugas da idéia original.

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