LIMIAR, PRESERVAÇÃO E ARQUITETURA – II

10 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

(2 de 5) Em busca da paisagem

Prá mim, é evidente que a geografia física dita a paisagem de uma cidade – ou que, pelo menos, assim deveria ser. Cidades no alto de colinas e morros, à beira mar ou rio, espalhadas na planície – a medida de sua conivência com essas determinantes de sua existência é a medida de sua personalidade urbana. O que fica muito claro na História das Cidades: a ausência ou desconsideração dos condicionantes geradores geográficos produz urbes inexpressivas, indefinidas como paisagem – a menos que uma seja criada culturalmente.

No caso de Curitiba, dois fatores geográficos poderiam ser valorizados na constituição de uma paisagem característica da cidade: a Serra do Mar e a Bacia Hidrográfica do Iguaçú.

A Serra do Mar pediria por uma cidade horizontalizada – como Kirchgassner sonhou e fez constar em sua casa. Não foi o único, e também o Belvedere da Praça João Cândido fala dessa intenção. Mas num país em que os governos são a expressão institucional do poder econômico, é evidente que uma política urbanística nesse sentido bate de frente com interesses dos imobiliaristas.

A proteção da nascente da Bacia do Iguaçú é portanto a única alternativa para se ter uma paisagem característica para Curitiba. Entendo por “característica” um aspecto dominante, identificável de imediato. Sem comparar, ninguém deixa de reconhecer à primeira vista uma “paisagem veneziana”, carioca ou ouro-pretense.

De certa forma, isso está acontecendo a nível do planejamento da cidade, apesar de que com uma lentidão e timidez capazes de comprometer o resultado final almejado. Evidentemente, estamos pensando aqui com o genérico de paisagem urbana – as conveniências ecológicas, implicações urbanísticas e econômicas, complexidade projetual, considero como submissas aos determinantes paisagísticos. O que é utópico, e as utopias existem para ser desejadas.

E assim mesmo, seja possível ou não dar a uma cidade sua paisagem geográfica, nenhuma cidade prescinde de uma paisagem/identidade cultural, histórica.

Imagem

NS DA LUZ “DE ÔLHO” NO PALÁCIO IGUAÇÚ.

                  Essa questão foi lançada adequadamente a partir do Plano Preliminar de Jorge Wilhelm de 1965. Apenas foi assinalado  nesse documento, a configuração precisa ocorre no início dos anos setenta do XX, quando o arq.Cyro Correa Lyra coordena o Plano do Setor Histórico de Curitiba. Mais tarde o plano passa por um detalhamento pelo mesmo arquiteto e, muitos anos depois é introduzido o conceito de “unidades de preservação”, visando principalmente unidades fora dos limites do Setor Histórico.

Não o entendo como adequado à cidade, ainda que seja a versão mais débil do “tombamento”. Como diz o nome, a construção inscrita é considerada como unidade preservável . Como no tombamento o entorno é considerado como importante à unidade, só se aplica a construções de valor intrínseco – histórico e artístico – excepcional. Somente nesse caso o instituto do tombamento é eficiente e adequado – mesmo porque, compreensível e justificável à sociedade. O tombamento admite gradações no nível de preservação – sendo evidente, que deva ser aplicado a casos excepcionais.

No caso da paisagem urbana, não há como não considerá-la um organismo dinâmico em constante transformação – mesmo porque esse processo é que, pelo contraste e convivência respeitosa, a qualidade dos edifícios faz com que se valorizem reciprocamente. Pode-se dizer que em Curitiba, algumas paisagens interessantes ainda não se consolidaram, mas pedem por uma legislação que impeça os exageros imobiliaristas que podem perdê-las.

Outras cidades, maiores e menores, ostentam paisagens de interesse nacional e da humanidade que justificam ação mais radical.

Não se pode perder de vista que, já tendo perdido quase a totalidade das configurações coloniais, ainda não garantimos uma boa paisagem eclética, pelo menos suficiente.

O próprio momento atual, em que se discute a preservação do Movimento Moderno, mostra que o critério das unidades de preservação não foi suficiente quando dele se precisou. A preocupação foi a preservação de momentos arquitetônicos, individualidades digamos assim, não havendo preocupação com a formação de paisagens para a cidade. Que não poderá nem deverá apartar as construções ecléticas das modernistas, nem as duas dos espécimens de transição.  Isso no mínimo transmitiria uma idéia de “estilos” como ocorrências estanques que se sucedem numa lógica abstrata ao gosto acadêmico.

Uma atitude diferenciada é complicada, há os riscos e paradoxos do auto-retrato, e há mais do que isso a tomar em consideração.

Espero ter demonstrado que o conceito de “unidades de preservação”, ainda que calcado no de “tombamento”, é inadequado e de difícil aplicação a Curitiba, cidade à qual interessa a construção de paisagem cultural a partir de monumentos de importância regional.

A paisagem do mencionado Setor Histórico é uma das possíveis e mais importantes, juntamente com a do Centro Cívico, a paisagem ferroviária e talvez outras. Elas falam de configurações da cidade, antologizam momentos nas construções, das mais antigas às recentes. Todas as arquiteturas têm direito à representação e todas deverão ser coladas e assimilar áreas adjacentes. Sem descartar a possibilidade de intervenção de novas estéticas, já existentes ou por surgir, com os cuidados necessários quando se lida com mercado imobiliário.

ImagemCASA ECLÉTICA DE VERTENTE NEOGÓTICA, À RUA DO ROSÁRIO, DEMOLIDA NOS ANOS 70 PARA ABERTURA DA ESTRUTURAL NORTE.

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