LIMIAR, PRESERVAÇÃO E ARQUITETURA – I

8 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

(1 de 5) Limiar e espaço

Os limiares são mais ricos que as plenitudes, pelo menos na Arquitetura. Como as individualidades humanas que, construídas ao longo de uma vida, fazem pessoas “nem boas nem más – apenas humanas”.

Um edifício limiar não pertence ao estilo precedente nem ao seguinte, será uma construção representativa de seu tempo – sem crises existenciais. Artista e arquitetos sempre sacrificaram as conveniências projetuais do “estilo” vigente: nos limiares, a liberdade de atender às conveniências do autor – aí incluído seu senso estético – pode prevalecer.

Walter Benjamin trabalha com riqueza a idéia de limiar – o tradutor de Proust espanta-se com a capacidade do escritor francês de estacionar nos limiares, ao precisar de oitenta páginas para acordar ou para transitar até algum ponto do passado, ao molhar a Madeleine no chá.

Embora possamos admirar irrestritamente as obras de plenitude de um estilo, em que o arquiteto faz uso purista e integral do vocabulário formal preconizado, criando uma obra de arte, não podemos evitar de pensar que, naquela obra ou naquele edifício, é mais importante o “estilo” em si que as coordenadas de projeto ou a capacidade de invenção possível à situação.

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Construção à esquina das ruas Riachuelo e Alfredo Bufren: paleomodernismo ou protomodernismo?!

       Abordando de imediato nosso tema, o limiar entre Ecletismo e Modernismo se reveste de características únicas, específicas e exclusivas. Vale dizer, para a Arquitetura, obras não encontradas em nenhum outro momento histórico, e portanto representativas apenas dessa transição, permitindo uma leitura precisa das idéias pertinentes a ele.

O século XIX caracterizou-se pela seqüencia de revivalismos, sendo a quase totalidade da originalidade ditada ou pelo menos ensejada pela tecnologia. Não é pouco, evidente – é como se o Iluminismo tivesse permanecido imanente durante todo o século, aguardando condições para se configurar espacialmente no Modernismo.

Usando a figura benjaminiana da “passagem” –  a galeria não é espaço interno nem externo, não é rua nem loja – em sua simetria mais evidente, pode-se dizer que o limiar é os dois espaços. E portanto, as construções limiares, que à primeira vista poderiam ser desprezadas “por não serem uma coisa nem outra”, na verdade são ambas as coisas – donde sua importância. As construções limiares contém os dois “estilos”, não sendo difícil supor que, fazendo uso das especificidades mais favoráveis ao projeto, de ambos.

Nos momentos de transição, a maior liberdade “estilística” permite mesmo ao projetador mais invenção – que poderá ser assimilada e construir o vocabulário da plenitude seguinte. Nenhum “estilo” nasce pronto, configura-se em grande parte pelo “ensaio e erro” das fases limiares, nem mesmo algo tão ideologizado quanto o Modernismo deixou de ser plasmado durante o percurso de afirmação.

Ao trabalhar de dentro da cultura brasileira, a complexidade dos limiares pode ser levada aos extremos de indefinição, indeterminação e ilimitação. O sincretismo está na essência do país sendo, mesmo, uma de suas riquezas. Especificamente em relação à Arquitetura, jamais se pode considerar firme o terreno – sendo o Modernismo indissociável do país, um substrato permanente. Tenhamos em vista que já se classificou a obra de Niemeyer como “barroca”.

Para encerrar essas considerações introdutórias, vale assinalar que o interesse dos limiares arquitetônicos não é puramente teórico ou acadêmico. Vivemos os momentos de mais uma transição, do Modernismo para alguma coisa “além-modernismo”. Estamos em plena produção de edifícios limiares.

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Obras de Frederico Kirchgassner: casa do arquiteto (1929) e do irmão Bernardo (1936)

 

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