A CRIANÇADA TERRÍVEL

6 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

“Friends, Romans, countrymen

lend me your ears:

I come to bury Caesar, not to praise him.”

            (Bill’s  “Julio Cesar”)

      Lá se foi o bom e velho Charlie Schulz – o mais Charlie Schultz dos mortais! Talvez o Bill seja dramático demais para a situação, mas Schulz, no mundo dos quadrinhos, foi um grande – sem possibilidade de contestação.

Mas a idéia não é fazer um elogio fúnebre do autor que todos conhecem e curtiram em alguma fase do meio século de existência da tirinha dos Peanuts. Não concordo que Charlie Schultz tenha sido Charlie Brown: a característica central do CB era não conseguir coisa alguma, e CS conseguiu tudo – inclusive fama e fortuna com seus quadrinhos. O que interessa aqui é sua presença num tema dos mais recorrentes das HQ – à parte das jogadas de marketing e da fortuna crítica.

E não dá prá chegar nisso sem umas poucas comparações básicas.

As crianças sempre foram um dos temas recorrentes dos quadrinhos – podemos entender que a voz infantil permite ao autor dizer que o rei está nu.

Como exemplo, até há pouco tempo os centenários “Sobrinhos do Capitão” protagonizavam a história mais antiga em circulação ininterrupta. Mas já voltamos a eles, não me apressem.

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A Mafalda e eu no Santelmo, Buenos Aires.

Se fosse em Curitiba, estaria no mínimo toda pixada. Foto da Marialba.

     E isso prá não remontar às próprias origens dos quadrinhos, com os terríveis Max und Moritz, do alemão que inventou o gibi, Wilhelm Busch. Daí em diante, é praticamente impossível rastrear toda a criançada arteira que infestou e divertiu os leitores. Infestou, sim – como as lacrimosas e chatas órfãzinhas Annie até os genéricos personagens de Maurício de Souza. As crianças interessantes, que gritam a nudez do rei, são poucas.

Talvez a melhor exceção seja a Mafalda. Num universo de classe média, as situações que a imaginação do Quino cria para seus personagens, para suportar a mediocridade e as perplexidades cotidianas, surpreedem pela clareza da lógica – e pela habilidade de configurar tudo em três ou quatro quadrinhos. Nada de “lances”, nem truques nem recursos: eles vivem como nós vivemos, eles são nós e nós somos eles. Assim simples.

O maior contraste possível, acho que é com os mencionados Sobrinhos do Capitão. Hans e Fritz vivem num estranho lugar de fauna e flora compósita e os personagens remetem aos de Busch. Não só pelo sotaque carregado de alemão, como pelo comportamento: parece não haver nada a fazer na tal ilha a não se aprontar indiscriminadamente e encher o saco dos outros com cola.

digitalizar0008No Brasil, Max und Moritz viraram Juca e Chico. As traduções ficaram por conta de figurões como Olavo Bilac e Guilherme de Almeida.

Outro argentino pouco conhecido – ou totalmente desconhecido por aqui – é o Dante Quinterno. Há várias décadas diverte os países que falam espanhol – entre os quais, nós, bobocas anglófonos, não estamos incluídos. Com o sucesso do índio Patoruzú e seu primo estróina Izidoro, criou o indiozinho Patoruzito que atua com seu priminho estroininha Izidorito. A bem da verdade, não é por causa da língua que essa HQ não transita por aqui – é mais pelo regionalismo dos personagens, baseada que é nos tipos das grandes e ricas haciendas argentinas. O que o Quinterno fez foi, simplesmente, uma “redução à infância” dos personagens originais – as situações, cenários e tudo o mais são exatamente os mesmos.

Estou usando esse autor apenas para demonstrar a diversidade dos tratamentos literários em que se desenvolve a HQ centrada em pirralhos. Ela nos dá a medida da originalidade dos Peanuts e sua riqueza.

Mas antes de voltar a eles, uma referência inevitável: o terrível e pós-moderno Calvin. Sem as dúvidas e incertezas sartreanas do pessoal do Schultz, o autor embola fantasia e realidade para o leitor – e é aí que está a genialidade da coisa. Houve na literatura o realismo fantástico – e Bill Waterson é o maior expoente quadrinístico do que poderíamos chamar fantástico realista.

Quem é afinal o mais terrível: Calvin ou seu cotidiano monótono (prá um hiperativo), ao qual estamos todos submetidos sem escapatória e sem esperança de redenção? Vocês pensam aí, eu tenho minha própria resposta… Vale dizer que os pais do garoto são personagens excelentes, personalidades marcantes.

Surgido quando os Peanuts já estavam decadentes – vamos deixa por declinantes para não ofender o Schultz – com ícones de uma modernidade incapaz de viver sem analistas, Calvin tem uma trajetória semelhante à da Mafalda: deu seu recado e pffffffffft!, desapareceu. Sem decadência – declínio, vá lá – sem choro nem vela, tipo assim: aprendam a viver por si mesmos.

Os Peanuts foram um pouco por essa trilha: os adultos só comparecem como coadjuvantes, indiretamente, jamais presentes. As crianças se comportam como eles. As manias, as neuras, as reações dos personagens são adultimos como neologizou Monteiro Lobato décadas antes do Quino.     É talvez esse o “fator de estranhamento” dos Peanuts: crianças com comportamento adulto, nos fazem pensar: se em criança é assim, como será quando crescer? Daí o valor psico-terapêutico dos Peanuts, tão alardeado quando em seu apogeu.

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     Schultz decompõe a alma humana em seus personagens: Linus é a neurose inteligente; Lucy a libido da mal-comida, Schroeder o artista genial; Charlie Brown é a insegurança; Snoopy é o hedonismo militante. E assim por diante. Claro, claro, eu sei: essa é a minha leitura da coisa, vocês têm a de vocês, tanto melhor, ora essa!

Há alguns anos, numa palestra na Gibiteca de Curitiba, mencionei essa criançada e alguém saiu com essa:

_ Se eu tivesse um filho como o Calvin, eu matava!

Minha resposta:

_ Melhor como o Calvin do que como o Charlie Brown!

Nessa linha, é preferível é um garoto que chama a mãe às duas da madrugada para dar beijo de boa noite no tigre, do que um que não consegue empinar a raia. Acho o primeiro mais normal…

Caberia uma olhadela no melhor personagem infantil brasileiro (ainda imbatível), o Saci Pererê do Ziraldo. O Saci é uma lenda, tratada pelo autor como realidade presente. Mas é outra conversa.

Bom, era isso. Reforço que essa gurizada falada aí em cima é uma amostragem bem reduzida de um universo pedindo por teses interpretativas. Procurem nos seus gibis e depois me contem, tá?

Aliás fica  um recado, uma frustração pior que as raias do Charlie Brown. Procuro há uns bons quarenta anos um livro publicado originalmente na França sob o título “Les enfants terribles”. O autor é René Clair, não sei se é o cineasta ou seu homônimo. Saiu também na Itália, acho que edição Garzanti, sob título “I ragazzi terribili”. Não teve jeito de conseguir ainda – deve ser coisa dos anos setenta. Quem tiver dica…

Observação:

-achei esse texto entre as centenas que escrevi. Traz a data de 2000, como se percebe, deve ser dos dias do falecimento do Schultz. Mas não sei prá quem fiz, nem consta que tenha sido publicado em algum lugar.

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