SAUDADES DAS GUARDIÃS DA CHAVE

4 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

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Há tempos, visitar as igrejas do patrimônio arquitetônico brasileiro implicava em procurar a “guardiã da chave”. Chegava-se ao local e era só perguntar – todos sabiam quem estava no cargo. Quase sempre, uma senhora de meia-idade, moradora das imediações. A gente chamava no portão e ela vinha lá de dentro, segurando o bordado ou enxugando as mãos.

_ Boa tarde! É a senhora que tem a chave da igreja? Gostaria de visitar, de fazer umas fotos…

Com boa vontade e envaidecida, ia buscar o molho das chaves enormes e, conversando para saber a procedência – se possível, mais algum dado biográfico do visitante – abria portas e janelas, acendia luzes, contava histórias, dava informações – com a intimidade de quem mostra a própria casa. Nunca tive, dessas senhoras, informação que a bibliografia deixasse de confirmar, nem hiperbólica à maneira dos guias turísticos. Quando a referência era duvidosa, ela mesma relativizava:

_ É o que dizem… eu não sei, mas contam assim…

Depois de tudo visto e apreciado, é de praxe perguntar se há uma taxa de visitação, o que seria mais do  que justo e razoável.

_ Ingresso não tem não senhor… mas querendo deixar uma contribuição na caixa, sempre ajuda quando é preciso algum conserto, alguma troca de telha…

Podia ser que o visitante fosse um importuno que chegava perto da hora do almoço. Ela então entregava o molho de chaves e pedia:

_ Só o senhor toma cuidado e fecha tudo bem fechado depois, pode vir alguma chuva… e na saída deixa as chaves aqui de volta, faz favor…

Bons tempos!

Imagem      Que diferença ao chegar, como aconteceu há alguns anos, numa prestigiosa casa do patrimônio de Vassouras e o vigia informar lá de dentro da guarita:

_ Hoje não tem visita. A mulher da chave tá doente e não tenho autorização prá abrir.

Ou a arquiteta encarregada de uma longínqua igreja de Ouro Preto, que destratou seus futuros colegas que tentavam visitar a obra, enquanto se desmanchava em salamaleques para um grupo de turistas estrangeiros.

Esses deploráveis acontecimentos – na Viagem de Arquitetura Brasileira de 2009, a última – mostram uma grave contradição. Sob pretexto do retorno do investimento na restauração com o turismo, criam-se situações em que aos mais legítimos interessados, em viagem de estudos, para aprender, e dentro do mais cristalino direito de acessar uma obra – são obstaculizados.

Profissionalização? Melhor seria voltar às guardião das chaves. Elas, como donas autênticas e incontestáveis dos lugares, não eram tão arrogantes…

Imagem Desenhos do caderno de viagens de Michele Reple, na viagem de Arquitetura Brasileira de 2008.

Esse texto foi publicado na “Gazeta do Povo” de 22 de outubro de 2009.

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