UMA AVENTURA DE JOSÉ MINDLIN, PALADINO DOS LIVROS FRÁGEIS E DESVALIDOS

3 de fevereiro de 2014 por keyimaguirejunior

1968 foi um ano barra pesada. Menos pelas convulsões que ameaçaram endireitar esse velho planeta mal encaminhado, do que pelo incêndio no Colégio do Caraça.

Exatamente no local que se possa imaginar mais isolado das tensões e desacertos da nossa sociedade – no chamado, com boas razões, “Portal do Paraíso” – acontece essa tragédia. Ninguém morreu, mas os padres chamuscaram a barra das batinas para salvar os livros antigos da biblioteca.

O risco não foi gratuito: consta que o próprio D.Pedro II catou em livreiros europeus obras para essa biblioteca, tarefa continuada pelos Padres Diretores daquele colégio.

Os tempos passam, é claro, até mesmo na entrada do Paraíso. Nas décadas seguintes, houve a construção de estrada de acesso, restauro de edificações e da genial “Ceia” do Mestre Ataíde. Até os lobos guará concedem ao velho colégio o privilégio de sua aceitação.

Imagem     Com boas e compreensíveis razões, o acesso ao parque – doado por D.João VI à Ordem – é muito limitado e restrito a um pequeno número de visitantes por dia. Entre esses visitantes, insistente apaixonado pelo lugar, estive eu, levando um ônibus cheio de estudantes.

É claro que quis ver a biblioteca, ou o que dela tivesse restado. O Padre Célio del’Amore, então diretor, com um pistacídeo no ombro, mostrou-me um espaço entre os alicerces, sob a abside da igreja, onde eram guardados os volumes. Dentro de armários gradeados, seguros mas intocáveis, cheirando a picumã, quase quatro décadas depois do incêndio…

Achei que, se isso me incomodava, incomodaria muito mais o Grande Defensor Brasileiro dos Livros, José Mindlin, encastelado em sua preciosa biblioteca paulistana, curtindo as inúmeras preciosidades que acumulou ao longo da vida. Na primeira visita, contei-lhe, tipo indignação incontida.

Surpreso, ele reagiu:

_ Mas eu pensei que estava tudo em ordem com essa biblioteca! Diga ao Padre Diretor que mande um projeto à Fundação Vitae…

Seguiu-se uma triangulação Caraça-São Paulo-Curitiba, da qual logo me retirei, tendo cumprido meu papel de intermediário. E os anos passaram…

Pois aconteceu que anos depois, volto ao Caraça, como sempre escoltado por um ônibus cheio de estudantes. É claro, quis ver a biblioteca, fosse qual fosse o estado atual.

E o que me foi apresentado foi a perfeição da forma atual, que é a devida e correta para aquele acervo. Em armários de aço correndo sobre trilhos, à prova de fogo, umidade e calor, envoltos em papel neutro e colocados horizontalmente… tudo nos conformes e sem o cheiro de picumã.

A bibliotecária Vera lembrou até mesmo de “um professor de Curitiba, de nome esquisito, que ajudou a interessar o sr.Mindlin na biblioteca”…

Naquele momento, pareceu-se escutar o discreto riso do José Mindlin, com uma primeira edição do Machado de Assis nas mãos, divertido com a minha surpresa…

OBSERVAÇÕES

1Texto pedido pela editora Déborah Copic para o jornal “Sintonia”, de Sanpa, publicado na edição de novembro de 2010.

2-A falta que o Mindlin faz!!!

3-Foto do Feldmarschall Hermes von Neves, em outubro de 2013.

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