TEATRO PAIOL: SÍMBOLO DE UMA ÉPOCA

30 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

Uma dessas tradições arquitetônicas brasileiras pouco conhecidas, é a dos depósitos de pólvora. Pelo menos, desconheço qualquer pesquisa a respeito.

Nas fortalezas construídas pelos portugueses, e acho que aí não entram ainda influências seja do Vauban seja do Sangallo, havia “paióis” de farinha e de pólvora – significando depósitos. O que conheci melhor foi o da Fortaleza de Anhato Mirim. A ilha fortificada pertence ao complexo projetado pelo Brigadeiro Silva Paes em 1737/38. Houve um antigo e um mais recente, curiosos no sentido de que atendiam à balística e tecnologia bélica da época.

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Vista para o lado norte, da Ilha de Anhato Mirim. Panorâmica montada a partir do farol da Marinha (guarda-corpo no primeiro plano) vendo-se, da esquerda para a direita: paiol da pólvora, paiol da pólvora antigo (acima do portal), quartel do comandante, quartel da tropa e bateria para oeste.

Nas cidades, havia as “Casas da pólvora”, entendo que para uso civil, e de que o exemplo que conheço é a de João Pessoa. Construída no século XVIII, no alto de um dos poucos morros da região, e se a prefeitura deles não liberou construção de prédios em volta, uma das melhores paisagens do Nordeste brasileiro.

É nessa tradição dos depósitos urbanos para fins civis que se constrói o Paiol de Pólvora de Curitiba. O que ficou conhecido, é já o segundo, feito depois que o primeiro foi engolido pela urbanização. A obra é de 1906, tendo sido reciclado segundo projeto do arquiteto Abrão Assad em 1971.

Nos primeiros anos da década de setenta, implantava-se com obras intensivas e rápidas, o Plano Diretor de Curitiba. A população comentava, entre satisfeita e preocupada:

_De onde está vindo tanto dinheiro?! Quero ver na hora que chegar a conta…

No entanto quem, como eu – já que é depoimento, vou assumir a primeira pessoa – passara por três anos de estágio no IPPUC, sabia que eram dinheiros aos quais a cidade sempre tivera direito e que, por inépcia, nunca tinham sido usados.

Exceção feita à administração Ney Braga, nos anos cinqüenta, há muitos anos não se viam obras de vulto em Curitiba. Seguiu-se a construção do Centro Cívico Estadual, e depois, mais nada. Não cabe aqui a conjuntura da contratação do plano de Jorge Wilhelm, na base das obras, mas apenas que víamos a cidade explodindo sem adaptação urbanística aos novos tempos.

O mais marcante foi a implantação dos eixos estruturais, em sistema trinário. E o impacto de fechamento da Rua XV ao trânsito de automóveis, trombada de frente no carrismo provinciano…

Essa era – quem viveu, sabe – de euforia e de auto-confiança, teve seu símbolo maior no Teatro Paiol.

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     Desde sempre, tínhamos aceito como normais e procedentes as declarações de personalidades da elite cultural do país no veículo maior das “pessoas que sabem das coisas”: o Pasquim.

– … sendo que “ritiba”, em língua indígena, significa “do mundo”… (Millôr Fernandes)

_ Curitiba, Deus me livre! (Rita Lee)

Millôr Fernandes se retratou, após uma visita à cidade; Rita Lee constatou que, no mínimo, os curitibanos não éramos rancorosos: seu show no Paiol, cantando com a calcinha por fora do jeans, foi uma das maiores enchentes que o pequeno teatro conheceu, com gente pendurada até nas colunas da iluminação. A própria equipe do jornal passou a puxar saco da cidade tempos depois.

É preciso considerar que, à época, Curitiba tinha poucos auditórios, e escasso equipamento cultural. O Guaíra seria inaugurado apenas em 1975 e, quase todos os espaços culturais de que hoje dispomos, são posteriores. Nosso “city hall” era o Auditório da Reitoria. Grandes espetáculos requeriam improvisação, como o show da Jovem Guarda, na revenda de caminhões “Cotrasa”. Os shows de rock, quando começaram a acontecer, e chegar à cidade, seriam nos ginásios de esportes dos clubes.

Mas como o Paiol se consolidou como centro da vida cultural da cidade? Acho que não tenho elementos para uma resposta definitiva, mas um dos componentes é, sem dúvida, a qualidade da programação. Esta era conduzida, desde os tempos em que a Fundação Cultural de Curitiba funcionava numa salinha no porão da prefeitura, pelo Aramis Milarch, Maria Elisa Paciornik e Lidia Bindo.

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     A música brasileira também vivia ótima fase, e a fina flor de seus artistas ali se apresentou. Naquela pequena arena, a poucos metros das cadeiras, alguns carismas que fizeram época na cultura brasileira. Todos convidados pela prefeitura, e elogiando o teatro e a cidade, inflando nosso ego acostumado a levar porradas como as mencionadas.

Depois do show, era de lei jantar no Bar Palácio, onde se encontraria, com certeza, os artistas jantando na companhia do Aramis… Quem esquece de ter apertado a mão do Turíbio Santos, do Baden Powel, e dado um beijo no rosto da Nara Leão?!

O emblemático da construção era muito forte: antigão por fora e tinindo de moderno por dentro, não era essa a imagem que os curitibanos tínhamos de nós mesmos?!

Mas não foi só a inserção na cultura nacional que pesou – a diversidade da programação também. Não tenho como lembrar de todos os shows, filmes e cursos que assisti lá. Enfrentava-se o frio do bairro distante, a longa permanência naquelas cadeiras duras, o transporte precário – noite após noite, para acompanhar ciclos de filmes.

Exposições também houve, talvez a primeira sobre quadrinhos da cidade, à qual a Lidia me pressionou para levar peças que jamais poderiam sair de casa…

Enfim, uma programação tão intensa que gerou uma atitude: sendo pouca a divulgação da programação cultural da cidade, íamos ao Paiol às cegas: alguma coisa boa certamente haveria…

Aqui entra outra característica da Curitiba provinciana de então: havia uma espécie de “comunidade”, uma confraria de freqüentadores de eventos culturais – que, com compreensível variação conforme o tema, era sempre a mesma. Filmes, concertos, vernissages, shows – muito do que aconteceu na cidade então, deveu-se a esse público, polarizado pelo Paiol.

Uma tarde, depois de um filme, o Aramis convidou os freqüentadores mais assíduos a formar um tipo de conselho para gerenciar a programação – embora eu não tenha como estar certo disso, me parece que foi a partir daí que evoluiu a idéia da FCC, órgão gerenciador da programação cultural da cidade, em vista inclusive do surgimento de novos pólos de atração: principalmente, o Centro de Criatividade e a Cinemateca.

Esse desdobramento do equipamento cultural, desenvolvendo-se até chegar à vasta estrutura hoje existente, diluiu o público do Paiol. Para mim, como exemplo, a Cinemateca era um atrativo maior e mais próximo.

Entendo que todas as épocas marcantes têm seu símbolo arquitetônico. Do Brasil no qual a gente confiava e tinha esperança nos anos 50 e início de 60, foi Brasília. Da Curitiba do início dos anos 70, cidade modelo de planejamento, foi o Paiol.

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Observações

1 – esse texto, que não sei quem me pediu, foi escrito em fins de 2003. Ao que eu saiba, nunca foi usado.

2 – para a história completa do Paiol, inclusive programação, ver:

CARVALHO, Deborah Agulham. Teatro Paiol; 35 anos de aplausos. Curitiba, Boletim da Casa Romário Martins, nº137, 2008.

3 – para as declarações agressivas do Millôr Fernandes e da Rita Lee, quem tiver paciência pode procurar na coleção do Pasquim da Gibiteca.

4 – As fotos com cor esquisita são dos primeiros anos do Paiol após a reciclagem. Início dos anos setenta, portanto.

5 – A maquete é do acervo de Arquitetura Brasileira da UFPR, referência completa em:

IMAGUIRE JUNIOR, KEY & BESCIAK, NADIA CIBELE. Acervo documental do Gabinete de Arquitetura Brasileira. Curitiba, Editora da UFPR, 2011.

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