AS CIDADES INVIVÍVEIS – IX

29 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

(Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-liberais – tipo Curitiba)

Nona tese: a obsessão carrista

Há uns vinte anos, quando eu dizia que não tinha carro nem carteira de motorista, as pessoas me olhavam como se eu fosse um tipo de desequilibrado mental – e ninguém diz que não estavam certas, né? – e saíam de perto, pensando “vai que isso pega”.

Mais a sério um pouco, o que ficava claro é que não daria prá conversar comigo – coisa difícil mesmo – uma vez que também não assisto TV e detesto futebol. São os três temas que dominam, numa proporção de 90%, as conversas brasileiras.

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Gravura de uma edição da “Vamos Ler” dos anos quarenta

Hoje a declaração anti-carrista não chega a surpreender. Não que eu tenha feito escola, né, quem sou eu, mas o problema do carrismo se tornou tão evidente que não pode mais ser desconsiderado senão como beirando o insuportável.

Minhas catilinárias anti-carro caem no vazio, como antes. Nas anteriores, pelo absurdo de desconsiderar todo o maravilhoso conforto, agilidade e ganho de tempo proporcionado por eles. As atuais, porque o troço dá mais dor-de-cabeça que conforto; tornou-se um estorvo urbano e uma perda de tempo angustiante.

As soluções que estão sendo consideradas são meio absurdas. Bicicletas, motos, carrinhos de brinquedo, não são soluções que possam ser levadas a sério. Por exemplo, a decantada bicicleta, sem ciclovia – que não podem surgir do nada, da noite pro dia – são mais uma agressão aos pedestres, trafegando sobre as calçadas. De mais a mais, como, nos meus provectos mais de sessenta anos de idade, vou de bicicleta das Mercês ao Centro Politécnico, às sete horas de uma manhã chuvosa, carregando um monte de livros e de coisas?!

Já ouvi um urbanista afirmar que o problema não é o trânsito, o carro andando, que agora está aqui e logo não está mais. O problema seria o carro parado, estacionado horas, quando não dias, ocupando um espaço. Verdade parcial, como todas: o pior do carro é a detonação da cidade, jardins, árvores e construções históricas eliminadas para estacionamento. Qualquer canto onde não haja um impedimento físico, será usado pelos motoristas prá largar seus troços volumosos, de cores berrantes, fedidos, agressivos, barulhentos, obstruidores. Sem o menor respeito ou consideração, como convém à arrogância brasileira.

Mas o carro andando também é problema. Talvez o mais perverso, visto que é usado pela prefeitura em seu objetivo de acabar com as áreas residenciais onde predominam casas. São traçadas ruas de alta velocidade cortando esses bairros, seccionando-os criminosamente. Praticam-se nessas ruas velocidades que nem nas rodovias são permitidas. Não há respeito pelo morador que chega ou sai de casa; facilita fuga de ladrões após o assalto; provocam tantos acidentes que nem são mais atendidos pelos órgãos que para isso existem: entendam-se os acidentados.

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Depois que a prefeitura transformou minha rua numa pista onde se faz 100 km/h ou mais, os acidentes são quase semanais.

     Antes da minha discreta idéiazinha, mais uma observação: qualquer solução é apenas parcial, e todas dependem de transporte coletivo de boa qualidade – o que NÃO significa metrô.

Claro que, com as dimensões do caos instalado, nada é fácil – grandes problemas necessitam de cirurgias complexas. Então vamos lá.

O enunciado é simples: tirar do carro seu valor de vaidade, de exibicionismo, de símbolo de status. Como assim? Ora, todos os fabricantes só podem produzir um carro modular. O mesmo carro, tanto faz o fabricante, com mesmo desenho, motor, cor, equipamento, tudo igual. Fim do problema: quem realmente precisa do carro para fins de trabalho, de transporte, não precisa de chiquê. Conforto, apenas indispensável – ar condicionado sim, para todos, visto que há lugares em que os extremos de temperatura o tornam uma questão de saúde. Mas som, nem pensar!

Mecanismos reguladores de desempenho, são importantes e existe tecnologia para isso. Por quê se produzem carros que podem fazer 200 km/h se essa velocidade não é permitida? Então, tanto estradas quando ruas das cidades teriam um regulador, pelo qual um sensor do carro, ao passar, é liberado para o máximo permitido. Freios especiais e air-bag, nessa, tornam-se desnecessários, são mecanismos que estimulam a imprudência dos motoristas.

Simples assim…

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O Largo da Ordem no início dos anos setenta: estacionamento de fuscas azuis.

     Claro que há muitas soluções complementares que teriam que ser desenvolvidas. Alguns exemplos:

_ Ah, mas eu tenho uma lujinha, preciso levar as mercadorias que vou vender…

_ Se o senhor tem lujinha, seu registro comercial lhe dá direito a ter um pequeno reboque – também serve para quem tem um sítio – com a capacidade necessária. E ganha, veja só que beleza, direito de fazer publicidade pintando a marca ou o nome da sua lujinha nele!!!

Outra objeção:

_Eu sou médico e às vezes tenho atendimentos emergenciais, como fazer com um carro que não voa?

_ Ah, doutor, o senhor só pode ter o mesmo carro que todo mundo – mas sua clínica, com o devido registro, pode ter até uma ambulância!!!

Mais uma, que eu sei que vou escutar:

– Eu sou chegado em me mandar por fora das estradas, aventurar em trilhas inóspitas, florestas, desertos, cordilheiras! E esse teu carro aí não dá conta…

_ Claro que não, mas você pode ter um clube com amigos da mesma tendência e, com o registro, ter um off-road. Só que ele não pode trafegar na cidade, nem em estrada pavimentada…

E assim por diante, já se percebeu onde tudo isso leva: eliminando a força potencializadora da vaidade e da arrogância que é o mais atraente nos carros atuais, acredito que ele – o carro – teria uso só como instrumento mesmo. E que, sempre pensando numa implantação com desenvolvimento paralelo de bom transporte coletivo, as cidades ficariam bem mais vivíveis.

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O Largo da Ordem em meados dos anos setenta: espaço para a cultura, para o convivio das pessoas, uma pausa nas fissuras…

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