A ERA DOS FANZINES NOS PAGOS GAÚCHOS

15 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

Não sei que fenômeno cultural explica isso, mas fanzine de HQ, prá ser bom, tinha que ser gaúcho. Penso numa amostragem do fim dos anos setenta até o início dos noventa, como se demonstra a seguir. Evidente que muita coisa boa rolou em outras cidades – mas eles deram um banho de competência, de energia, de saber-fazer.

O grupo de amigos – Kern, Jotabar, Cassal – todos aposentados, dedicou anos ao resgate e valorização dos quadrinhos das décadas de 40 em diante, priorizando os mais antigos.

O primeiro a sair em campo foi o Oscar Cristiano Kern – acho mesmo que ele foi o pioneiro a fazer fanzine de HQ. A primeira edição da Historieta é de 1971 – no formato horizontal que guardaria até o fim. Com exceção de uma edição de 1986, que era tentativa de transformar o zine em revista, vendida em bancas de jornal. Deve ter esbarrado, como tanta coisa neste país, na distribuição – era editor também, o Franco de Rosa. As últimas edições foram dedicadas ao resgate da obra quadrinística desconhecida, de Cecil Thiré. A aventura da Historieta termina na edição 19, de 2003 – no editorial, a lamentação sobre a “queda de 300 para 50 leitores”.

Mas a Historieta percorreu outros caminhos: em 1992, propôs o “Projeto Spirit” – para os colecionadores trocarem entre si aventuras do personagem de Will Eisner, até que se formasse um acervo completo. Durou três edições.

Houve também a grandiosa “Confraria dos Dinossauros” – ao que me conste, o único zine em formato A3. Circulou entre 2000 e 2004, compreende-se que era muito caro e rendeu poucas edições. Kern faleceu em 2008. Infelizmente, não cheguei a conhecê-lo, por falta de oportunidade.

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No grupo, Frederico Jorge Barwinkel – o Jotabar – foi o segundo. O “Grupo Juvenil” começa sua alegre trajetória em 1983, avisando: “Assuntos sobre HQ”. Era um problema dos fanzineiros, gente que encomendava o zine achando que ia ler sobre bandas de rock e só achava gibis.

Durou 74 edições, na última, publica o necrológio de Kern. Jotabar faleceu pouco depois. Eu o tinha encontrado um pouco antes – fomos à “Banca da saudade”, seu mocó em Porto Alegre, com o Cassal. De lá, ele foi, com a disposição de sempre, para a Santa Casa, fazer uma hemodiálise periódica. Como tudo o que fazia, até ir ao hospital ia com alegria – a última edição do “Grupo” traz na capa foto das enfermeiras que o atendiam. Mulherengo impenitente, já se vê. O zine era o retrato de sua vida: cartuns onde tirava a roupa da Mary Marvel e de outras heroínas, fotos na praia passando bronzeador na bunda das gurias nuas, fotos com amigos, das namoradas, reproduções de HQs raras dos anos 30 e 40. Todos os cantos preenchidos com recados, recortes, notícias, cartas recebidas e respondidas. Matérias sobre figurinhas, cinema, revistas – enfim, um poderoso e fascinante caos, no qual o leitor se perdia e se divertia – durante horas.

O zine, inteiramente em B & P, foi até a edição 16, de 1988. Daí em diante, tinha um detalhe da capa colorido a lápis de cor; a partir da edição 42, de 1997, até o final, entrou na era do Xerox a cores.

Imagem           Jotabar faz falta. A vida animada que levou – foi desde salva-vidas em praias rio-grandenses e locutor de rádio até fanzineiro – transbordava de sua pessoa e em tudo o que aprontava.

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     O ABC – Aníbal Barros Cassal -, ao contrário, era um sério. Conheci, após alguns anos de correspondência, em 1992 – ele e a mulher, Zoé, fizeram um jantar em seu apartamento no centro de Porto Alegre, para mim, a Marialba e o Key San.

Seu fanzine chamava-se, precisamente, Fanzim. Tinha desdobramentos que me deixavam confuso, intercalações na numeração e edições não numeradas. FZ Revista, Fonfon, mais facsímiles, almanaques e edições especiais. O subtítulo, “um banho de nostalgia”, era uma declaração de princípios da linha editorial. No entanto, como os demais, fazia breves incursões nas HQs modernas. Além da reprodução das histórias, continha ensaios, entrevistas e, como todo bom zine,uma secção de correspondência que dava à publicação uma conotação grupal, quase clubística.

Com o agravamento de seu problema visual – não sei o que era – abandonou os zines e foi morar no litoral gaúcho e, depois de algum tempo, com o falecimento da Zoé, parece que mora com um filho no Rio de Janeiro.

Começou a produzir em 1985 (Fanzim nº 1) e a última edição que tenho dele, é de 1996.

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Mais que fan-magazines, os fanzines são self-magazines – feitos à imagem e semelhança do editor. O objetivo central é compartilhar, num grupo com as mesmas características, informação selecionada.

Secundariamente, como objetivo não explícito, mas funcionando muito nesse sentido – ampliavam grupos de amizade, novos leitores eram sempre benvindos, desde que pactuassem com as premissas dos editores. Mas posições conflitantes – como as minhas, em alguns casos – eram contornadas com diplomacia e sem autoritarismo de censura.

“Um banho de nostalgia”, “levando ao futuro a beleza do passado ao futuro”, “Confraria dos Dinossauros”, “Grupo Juvenil” – mais que títulos e subtítulos, são profissões de fé.

Embora se dedicassem à “Era de Ouro” dos gibis brasileiros, todos os fanzineiros de quadrinhos que conheci prestigiavam convictamente a produção brasileira – que, sendo escassa então, pouco tinha como comparecer.

Porquê os fanzines de HQ acabaram? No grupo gaúcho de que falei, dois autores foram para o andar de cima, e o terceiro tem problemas de saúde. Como não surgiram outros em sua substituição, minha tendência é acreditar que a circulação de informação virtual acabou com eles. Os fanzines resistiram enquanto os leitores de gibis mais antigos resistiram aos sites e blogs.

Conheci outros fanzines, mas não os acompanhei como aos gaúchos.

O “Comix” do campineiro L.A.Sanpaio. Boletim impresso em mimeógrafo a álcool na década de setenta, era muito combativo pela qualidade gráfica e editorial dos gibis brasileiros – que desde sempre deixou muito a desejar.

O “Mirim Clube do Brasil”, que tinha em vários lugares a assinatura de Jesuz Chaves (sic), mas a correspondência era com o Zarranz. Produzia sob encomenda uns livros de capa dura, com personagens à escolha do leitor. Circulou nos anos setenta e oitenta.

O “Pica-pau”, de Armando Sgarbi, também incidia na linha nostálgica, mas com circulação e formato variáveis. A edição zero é de 1978, o número 7, de 1985. Uma publicação à parte era o “Acérvulo”, com edição única de dezembro de 1997.

Ouvi falar de muitos outros, no período de correspondência com “los tres gaúchos”. Eles davam a maior força para novas publicações. O fato de este post se prender a eles, é que a coisa rendeu amizades de muitos anos. Não significa que, prá fazer um bom zine, o cara tivesse que sentar na frente da machina dactylographica de bombachas e chapéu com barbicacho, tomando mate…

Estou doando esta coleção para a Gibiteca, para que  possa ser útil em pesquisas.

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