AS CIDADES INVIVÍVEIS – VIII

9 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

Treze teses sobre a crescente inabitabilidade das cidades neo-liberais – tipo Curitiba.

Oitava tese: A prepotência da chatice urbana.

Com o devido respeito ao patriarca da História brasileira, Sérgio Buarque de Holanda, o brasileiro atual nada tem de cordial, antes, é um chato arrogante.

Ao sentar num carro, o brasileiro acha que é deus, senhor dos espaços e das vidas de todos os seres vivos, inclusive, seus semelhantes. Destruir uma cidade em favor dessa prepotência, é o endosso do poder público constituído, é claro, por motoristas.

O poder da tecnologia trabalha, com freqüência, pelos chatos arrogantes. Um dos instrumentos mais opressivos é o telefone celular. Somos obrigados a conviver com as mais variadas formas de pentelhação por parte dos maníacos usuários.

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            Num atraso de vôo em Guarulhos – e aviões, se bem administrados, são o lado bom da tecnologia – um sujeito andava nervosamente, de um lado pro outro, mas sempre onde pudesse ser visto, berrando no celular: “… mas essa empresa não percebe que cada minuto que eu fico aqui custa cem mil dólares?!” (dólar é a moeda dos prepotentes, evidente, mas considerando o atraso de mais de duas horas, fiquei pensando em quantas empresas no planeta podem pagar pelo atraso do executivo nervoso…)

É um caso limite, bem entendido. Os corriqueiros são piores e mais opressivos. O motorista pendurado no celular enquanto dirige e causando problemas no trânsito; o pentelho que, diante do caixa do banco, saca do celular para consultar o contador ou o sócio enquanto os demais esperam na fila (ambas as coisas proibidas pela lei, mas quem liga prá lei?) ; a peruíssima senhora fazendo declarações de amor aos filhos na mesa do restaurante, enquanto janta com o amante; estudantes fazendo e atendendo chamadas na cara do professor, durante a aula; e assim por diante. A imaginação de quem não tem educação nem noção de civilidade não conhece barreiras. Já vi uma gerente de banco ser levada ao quase desespero por um sujeito que chegou à sua mesa, abriu sobre ela o note book e dois celulares e ali ficou, por mais de uma hora, com a sala de espera cheia.

Outra imensa chatice da arrogância brasileira são os “direitos do consumidor”. Não que as pessoas não devam exigi-los, o que me revolta é que sejam usados para aparecer, armar barraco, e alardear seu “padrão de exigências”. Discutem com caixas, atendentes, garçons picuinhas pelas quais esses não são responsáveis. Como isso acontece a todo momento em toda parte, fico pensando com meus botões se não deveria existir também um “Código de obrigações do consumidor”, no qual constasse a cláusula principal de não ser um mala.

Episódio: almoçando num restaurante em Buenos Aires, muito bem atendidos, comida muito boa, garçom simpático,  escutamos uma mulher berrando com o caixa por causa da nota, e urrando para ser escutada por todos: “vocês se cuidem, naquela mesa todos são advogados!” Infelizmente o garçom já sabia que éramos brasileiros, pedimos desculpas por isso e escafedemos envergonhados. Mais que advogados, brasileiros – e há quem tenha o desplante de achar os portenhos arrogantes.

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            A chatice dos arrogantes desconhece qualquer resquício de bom senso, chegando à babaquice militante. Há quem não goste de árvores, quem não goste de pombos, quem não goste de petipavê e assim por diante. Sempre, e nisso se conhece o chato, fazendo tempestade em copo dágua.

Como não podia deixar de ser, os piores chatos da arrogância brasileira, são os políticos. Eles conseguem impor sua chatice. Certos da impunidade,  sentem-se livres ao usar o poder para legalizar sua chatice. Estragam a cidade e ficam impunes. Enchem o saco, criam problemas, inviabilizam a vida urbana – e saem sorridentes para as férias nas Bahamas, eleitos para cargos cada vez mais bem pagos. Estão aí as posturas adensantes e verticalizantes prestes a cair sobre nossas cabeças.

Fizeram-se rampas, supostamente como fator de acessibilidade – é o que menos são.  Se fosse isso, eu estaria a favor dessas coisas, mesmo estragando as calçadas. Mas nunca as vi serem usadas por cadeirantes. Quem as usa são os motoristas, para estacionar sobre as calçadas com duas rodas. E, principalmente, por motoqueiros, carrinheiros e ciclistas para investir sobre os pedestres.

Estimula-se a transformação de jardins em estacionamentos, autoriza-se o corte de árvores que deveriam antes ser protegidas contra os carros. Estimula-se a alta velocidade em ruas residenciais – havendo a solerte intenção em que as ZRs deixem de existir, em função de Zonas Especiais nos quais pode tudo, desde que sejam ocupações que rendam mais impostos e exijam menos investimentos em estruturas.

Falta de controle da pixação e vandalismo, cada vez piores apesar de se alardear o contrário. Poluição sonora beirando o insuportável. Criminalidade, nem se fala porque é outro assunto, mas a insegurança é evidentemente patrocínio dos poderes públicos e dos sacrossantos Mercados, nossos verdadeiros patrões. Tudo pusilanimidade eleitoreira, falta de vontade política de RESOLVER as coisas.

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“A Boca Maldita” e banguela, escultura de Elvo Benito Damo. A Arte com vítima da chatice arrogante, mais uma vergonha pública para Curitiba.

Observação: não é bibliografia, evidente, nem eu acho esse livro de “rolar de rir”, mas é curioso prá se ver como a chatice brasileira “evoluiu”:

-Figueiredo, Guilherme. Tratado Geral dos chatos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963.

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