GIBIS QUE NÃO FORAM PRÁ GRÁFICA

7 de janeiro de 2014 por keyimaguirejunior

(Post para um blog chamado “Coisas que ninguém quer publicar”…)

            Há exatos trinta anos, na transição 1983/84, produzi o terceiro dos meus “livros artesanais”: dactylographados em stêncil, rodados na Ozapel, grampeados com grampeador de apostilas emprestado. No caso dos “Cinco ensaios sobre cultura popular”, teve uma capa bonitona, feita em serigrafia pela então estudante de arquitetura Josilena Gonçalves.

DSC_0082

O Aramis Millarch gostou desse trabalho, e publicou uma seqüência de reportagens no seu “Tablóide” nesse mesmo ano. Como os outros dois livros, eu entregava os exemplares nas mãos dos amigos até esgotar a edição. Não confio na distribuição brasileira, e os tempos ainda eram meio sombrios.

Além da introdução, mencionava cinco coleções, algumas das quais já feitas com ajuda da Marialba: “flyers” de cartomantes; “literatura monetária” (com frases escritas no dinheiro); “Puxe pixe poxa” (o primeiro trabalho sobre pixação em Curitiba); “Correntes da sorte” (essa coisa sacana que a gente achava por baixo da porta de casa e agora vem pelo e-mail. Eles ameaçam que, se você não distribuir dezenas de copias, haverá uma copa do mundo na tua cidade, teu gato será atropelado e outras calamidades); e o assunto deste post, os “Gibis artesanais adolescentes”.

O Aramis achou que o melhor era o dos gibis de adolescentes, e sugeriu que fosse desenvolvido em livro. Eu bem que gostaria, mas essas produções são difíceis de localizar – e o que consegui, só daria livro com muita encheção de lingüiça, o que acho detestável.

Imagem     Quem me chamou atenção prá eles foi o Jules Feiffer:

“… ( o autor dos “swipes”) wrote what he wanted to write, drew in the way he wanted to draw – and was, by definition, brilliant. (…) It was a logical extension of my own world – except the results were a lot better. Instead of being little and consequently ridiculed for staying in the house all day and drawing pictures, one was big, and consequently canonized for staying in the house all day and drawing pictures. Instead of having no friends because one stayed in the house all day and drew pictures, one grew up and had millions of friends because one stayed in the house all day and drew pictures.”

Ficaria muito longo para um post repetir ou mesmo resumir o texto de há trinta anos. Mas assinalo algumas conclusões inevitáveis. Na maioria dos casos, trata-se de glosas aos gibis no mercado. Principalmente, super-heróis como temática e estética.

O herói raramente é um “cavaleiro solitário”, o normal é que seja líder de um pequeno grupo (chefe de gang?!). O romantismo, salvo exceção, não existe – erotismo, menos ainda – afinal o gibi deve circular, inclusive, entre familiares. Outra constante é a presença do “velho sábio”, ou de um cientista genial, que assume a parte de pensar – para o herói, fica a ação. O herói é quem age e dispõe para isso de poderes especiais.

Das HQ de mercado, a principal contribuição é quanto ao vocabulário gráfico: segmentação da página, planos, balões, onomatopéias. A semelhança com os gibis das bancas é procurada até os limites: formato, caderno grampeado, capa em cores e miolo em B&P, marca da editora… inevitável, a criação de séries e sub-séries, numeração e, às vezes, data.

Imagem“Cyborg”: “Desenhada, colorida, idealizada, confeccionada, enumerada, escrita, bolada, editada e enumerada (sic) por Edson José Cortiano”. Ele produziu vários e tem uma idéia muito depreciativa sobre a mãe de quem se apropriou deles.

DSC_0081

“Capitão Átomo”, de Cesar Boguszewski, 1968. “A primeira revista do mundo inteiro feita a mão.

Apresenta o herói “Homem-contôrno”

     Esse post é preparatório para a expô que pretendo colocar na Gibiteca (usando o terceiro andar do Salão da Gravura do Solar do Barão) no final deste ano, entre 17/12/14 e 17/02/15. Tenho algum material recolhido com amigos, e tenho algumas coisas minhas – o conceito é “gibis que não foram para a gráfica”. Tenho com que ocupar o espaço que a Maristela conseguiu, mas gostaria de ter mais – inclusive para subsidiar a matéria para o Gibitiba que deve funcionar como catálogo da mostra.

Então, se alguém conhecer quem tenha guardadas essas preciosidades e puder me EMPRESTAR para essa expô, gostaria bastante de poder contar com novos aportes.

Nas ilustrações acima e abaixo, alguns exemplos do material que procuro.

ImagemImagem

“Lembrança dos Mestres”, autor e data desconhecidos. Pelo menos, cinquenta anos. Não é um gibi, mas um ábum de caricaturas, e às vezes, cartuns.

Referências

– Jules Feiffer. The great comic book heroes. New York, Bonanza, 1965.

– Key Imaguire Junior. Cinco ensaios sobre cultura popular. Curitiba, do autor, 1983.

Imagem

“Só para lobos”: dois cadernões de minha autoria, de 1972. É fora do contexto adolescente, mas dentro da idéia dos “gibis que não foram para a gráfica”.

Observação: pretendo usar na exposição os “Livros do Cuppi” – ver post “O CUPPI DO IPPUC”, com HQs do Domingos Bongestabs e Cicinato Lui Cordeiro.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: